Crítica | I Know This Much Is True

A ideia de se adaptar I Know This Much is True, romance de 1998 do autor americano Wally Lamb que figurou no Oprah’s Book Club daquele ano, o que assegura o sucesso imediato, começou ainda no final da década 90, mas como um filme que seria estrelada por Matt Damon. Diversos problemas afetaram o desenvolvimento da produção e os direitos acabaram revertendo novamente para o romancista que, demonstrando ser admirador do trabalho de Mark Ruffalo, fez de tudo para conquistá-lo, algo que demorou, mas finalmente ocorreu com o ator, então, movendo montanhas para produzir a adaptação, inclusive acatando a sugestão de Lamb de que o formato de minissérie serviria melhor ao romance.

Com seis episódios girando em torno de uma hora cada um, a produção da HBO dirigida por Derek Cianfrance, que a co-escreveu com Anya Epstein, é um pesado drama psicológico que aborda a vida de Domenico “Dominick” Birdsey, um pintor de casas que vive sua vida dedicando-a aos cuidados com seu irmão gêmeo Thomas, que sofre de esquizofrenia e vive entrando em saindo de um sanatório há pelo menos 20 anos. Com ambos vivido de maneira assombrosa por Ruffalo, o ponto de partida da história é um evento traumático na vida de Thomas em que ele, em uma biblioteca, saca uma faca Kukri e corta sua mão direita em uma espécie de sacrifício a Deus para tornar o mundo melhor.

Mas não se enganem: a história, aqui, é a de Dominick e a minissérie gira em torno da triste e traumática tentativa de descobrir quem ele é. Isso é abordado tanto literalmente, com um segredo sobre a identidade de seu pai, algo que a mãe (Melissa Leo) jamais revela aos filhos ou ao marido e pai adotivo de seus filhos Ray Birdsey (John Procaccino), quanto metaforicamente, já que os diversos eventos trágicos na vida de Dominick o levam a uma espiral que o coloca para baixo, sem vontade alguma de levantar a cabeça para tentar reencontrar pelo menos um semblante de felicidade.

A amargura de Dominick com a vida é chave e, na medida em que a minissérie progride, o espectador é dolorosamente coloca a par exatamente do porquê, em uma sucessão de eventos do tipo “a vida como ela é” que escancara o potencial horror do cotidiano. A produção não se interessa exatamente com grandes eventos a não ser o catalisador da história e chafurda no mundano, no banal, naquilo que compõe potencialmente, de uma maneira ou de outra, o dia-a-dia de muita gente. Se primeiro sofremos por Dominick pelo que parece ser seu amor incondicional pelo irmão e sua raiva por seu padrasto abusivo, depois a direção de Cianfrance começa a relativizar tudo, caminhando por uma estrada psicológica muito mais complexa que o protagonista começa a caminhar por intermédio da assistente social Lisa Sheffer (Rosie O’Donnell) e da psicóloga Dra. Patel (Archie Panjabi), além da subtrama envolvendo o avô que nunca conheceu que começa a entrar na história a partir do momento em que Dominick herda uma autobiografia dele escrita em italiano e que o leva a contratar Nedra Frank (Juliette Lewis sendo Juliette Lewis) para traduzir.

Não é, de forma alguma, uma minissérie fácil de assistir. A caminhada do protagonista é sombria e muito realista e verdadeira e, por isso mesmo, próxima de nós. A obra faz perguntas difíceis de serem respondidas sobre identidade, determinismo, culpa e responsabilidade que nem todo mundo estará preparado para ver serem colocadas como são aqui, em um ambiente pesado, claustrofóbico, labiríntico e desesperador que parece literalmente pesar sobre os ombros de Dominick graças à magistral fotografia de Jody Lee Lipes (Um Lindo Dia na Vizinhança) que lembra muito o trabalho de ninguém menos do que Roger Deakins em Os Suspeitos (2013).

A minissérie é, também, claro, um veículo para Mark Ruffalo mostrar toda sua latitude dramática. Se alguém tinha alguma dúvida sobre seu talento, ela deixará de existir depois desses seus trabalhos serem conferidos. Sua dedicação foi tanta que ele seguiu o caminho mais difícil para colocar os tão iguais, mas também tão diferentes irmãos gêmeos na telinha, primeiro filmando todas as sequências como Dominick, mais magro e com barba e bigode, depois parando por seis semanas para engordar e, então, filmar as sequências como o imberbe Thomas. Em outras palavras, não há efeitos práticos ou digitais nessa transformação, o que acrescenta ao realismo da performance, com Ruffalo realmente conseguindo quebrar a barreira dramática que por vezes impede o espectador de imergir na narrativa quando há uso desse artifício visual. Em I Know This Much is True, é perfeitamente possível acreditar que são dois atores iguais fazendo papeis de irmãos muito diferentes fisicamente, algo que acontece inclusive nas sequências em flashback em que vemos Philip Ettinger encarnar os irmãos no começo da faculdade.

Mas Ruffalo não é a única escalação perfeita. Mesmo que ele obviamente seja o centro duplo das atenções (ainda que, novamente, Thomas seja, digamos, um coadjuvante na história), Melissa Leo como a mãe submissa e sofrida dos irmãos, Rosie O’Donnell como a assistente social que cria empatia imediata com o drama deles e também John Procaccino como o padrasto talvez injustamente retratado no início, foram escalações muito inspiradas e que criam um ecossistema magnífico que impulsionam muito bem a narrativa, mesmo nos momentos em que é visível a tentativa de Cianfrance e de Esptein de usarem artifícios para esticar a história e manter a aura de “mistério” que gira em torno no avô dos irmãos e sobre a paternidade deles.

SEGUEM SPOILERS

Além disso, apesar de ter ritmo constante, mas que pende para a lentidão, a minissérie, de repente, passa a correr demais especialmente no último episódio para reverter o status quo de Dominick quase que como em um passe de mágica. No lugar de apenas oferecer uma sugestão de um futuro melhor, de uma auto-descoberta que finalmente chega à fruição, o que vemos é um final basicamente feliz considerando, claro, todas as desgraças que vieram antes. A realização de Dominick sobre quem ele é e o que ele pode fazer vem de um monólogo para lá de didático da Dra. Patel, assim como a revelação – que considero desnecessária – sobre quem finalmente é seu pai, o que leva o protagonista até mesmo a potencialmente reatar sua relação com a ex-esposa (Kathryn Hahn) por quem ainda sente amor.

Ao longo de quase que cinco episódios completos, a curva narrativa é francamente descendente, realmente desesperadora e desesperançosa, com visões sobre quem exatamente é Dominick sendo alteradas de santo a demônio e de volta a santo de maneira muito engenhosa e crível, mas sempre como um avião desgovernado em espiral em direção ao solo. E então, na meia hora final, o piloto puxa vigorosamente o manche e, então, o avião retorna à velocidade de cruzeiro em céu de brigadeiro. Sim, tenho plena consciência de que o peso de tudo que Dominick viveu continua lá em seus ombros, mas, agora, ele finalmente consegue levar o rosto mais uma vez e ver o futuro que abandou há anos. Meu problema não é com a mensagem positiva demais ao final – ainda que pessoalmente eu preferisse algo um pouco mais discreto -, mas sim com a velocidade em que isso acontece dentro da narrativa, revertendo um quadro clínico de prognose complexa com apenas duas aspirinas.

FIM DOS SPOILERS

Mesmo levando o final “rápido demais” em consideração, I Know This Much is True é um tour de force dramático realmente impressionante que coloca Mark Ruffalo em uma posição de destaque dentre seus pares da mesma geração. Não é uma minissérie para ser assistida mascando pipoca e nem para ser absorvida de uma vez só – é tristeza demais -, mas Derek Cianfrance foi muito bem sucedido em sua empreitada.

I Know This Much is True (EUA – 10 de maio a 14 de junho de 2020)
Direção: Derek Cianfrance
Roteiro: Derek Cianfrance, Anya Epstein (baseado em romance de Wally Lamb)
Elenco: Mark Ruffalo, Melissa Leo, John Procaccino, Rob Huebel, Michael Greyeyes, Gabe Fazio, Juliette Lewis, Kathryn Hahn, Rosie O’Donnell, Imogen Poots, Archie Panjabi, Philip Ettinger, Aisling Franciosi, Bruce Greenwood, Marcello Fonte, Harris Yulin
Disponibilidade no Brasil: HBO
Duração: 360 min. aprox. (seis episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.