Crítica | Identificação de uma Mulher

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Identificação de uma Mulher faz parte da safra final dos filmes de Michelangelo Antonioni, momento onde o diretor estava muito próximo dos sentimentos e emoções à flor da pele de seus personagens, resultando em situações de forte teor erótico mescladas a um desespero e tentativa de entendimento do mundo que o cineasta vinha maturando desde A Aventura (1960).

Niccolò (Tomás Milián) é um cineasta em preparação para seu próximo filme. Ele está buscando “um rosto certo” para o qual pretende escrever o roteiro, por isso destaca faces de pessoas que encontra nos jornais e revistas. Sua intenção é achar a expressão facial definitiva de um indivíduo que o faça pensar em uma história. Enquanto isso, ele leva um misterioso relacionamento com Mavi Luppis (Daniela Silverio), a primeira mulher com quem se relaciona após um complicado divórcio. O roteiro, assinado por Antonioni e Gérard Brach, com colaboração de Tonino Guerra, finca os dois pés no mistério da existência e nas muitas camadas que a solidão pode ter. As situações iniciais contextualizam um momento da vida de Niccolò em que o azar e as más notícias parecem frequentes, exceto com relação a Mavi. Ou assim ele esperava que fosse.

O texto não começa buscando entender a mulher (que será, assim como o domínio dos mistérios do Sol, como dito pelo protagonista na sequência final, a resposta para o entendimento de todas as outras coisas), mas expondo os caminhos do homem em torno dessa estrela cheia de libido e que ilumina, aquece e dá sentido à existência, algo que só lhe chegará à compreensão em uma situação de pensamento para um filme de ficção científica, não diretamente para a mulher como objeto de desejo. Niccolò é representado como um caçador de prazeres e de companhia porque a solidão lhe é insuportável, mesmo que ele não assuma isso em nenhum momento.

Ao mesmo tempo que faz a busca de um “rosto certo“, o cineasta faz as suas próprias buscas amorosas, uma dualidade de caminhos que até pode lembrar a de Guido, em Oito e Meio, mas localizada em um patamar diferente. Niccolò leva a vida muito mais a sério, se envolve fácil e não tem facilidade de se desapegar, sofrendo constantemente com os relacionamentos líquidos nos quais se engaja. Nem a ameaça feita por um homem misterioso, nem acontecimentos preocupantes ao seu redor o afastam de Mavi. É preciso ela tomar a iniciativa, por um motivo que o roteiro não nos coloca — e não de uma maneira interessante de fomentar o mistério, o que é uma pena. Em determinado ponto da narrativa, procuramos ver um sentido dramático para a grande quantidade de elipses utilizadas, especialmente nas cenas que mostram os últimos encontros de Niccolò e Mavi e os primeiros encontros entre ele e Ida (Christine Boisson), mas não temos isso, ficando vácuos que afetam, inclusive, os diálogos do segundo relacionamento, ora parecendo urgentes demais, ora demasiadamente vagos. Falta contexto dramático para entendermos este segundo par.

SPOILERS!

Mas se deixa rastros não muito bonitos no enredo, Antonioni nos entrega um espetáculo visual aplaudível. Ao lado do fotógrafo Carlo Di Palma, o diretor relaciona o ambiente sempre quente das mulheres — o tom alaranjado predominante nos takes onde elas são o destaque mostram a confusa tentativa de equilíbrio entre o espírito e a libido, situação condenada a se romper pela chegada da luxúria, seja dos envolvidos na relação, seja de indivíduos fora dela. Este ambiente ambiente também nos traz frutos de fecundidade através das belíssimas cenas de sexo filmadas pelo diretor (destaque para a simples, mas perfeitamente decupada e iluminada cena em que o casal está debaixo de um lençol branco, que sobre e desce revelando os corpos nus se entrelaçando) ou do momento em que Ida recebe a notícia de sua gravidez, em um ambiente formal de hotel, mas com saturação de cor laranja, trilha sonora quase indicando uma canção de ninar e uma simbólica abertura da janela por Niccolò, que se confunde sobre como lidar com aquela situação.

A confusão dos personagens também pode ser ressaltada pela quantidade de cenas em espelhos — uma delas, na casa de Ida, é uma inteligentíssima forma visual de fazer um campo/contracampo no mesmo plano — e Da famosa “sequência da neblina”, onde o diretor consegue angustiar o público a cada segundo, impedindo a visibilidade completa e fazendo um bom jogo de mistério após a neurose da ameaça recebida no início da fita. O desaparecimento e retorno de Mavi naquela ocasião são excelentes jogadas dramáticas, permitindo surgir medo e ao mesmo tempo retirando de cena a possibilidade disso se tornar parte de uma trama clichê de assassinato. A identificação aqui é íntima, quase espiritual, e também dá conta da anunciada “busca por um rosto certo“.

A sequência final volta a mostrar a delicadeza do plano fotográfico de Di Palma e o aproveitamento estupendo do tempo pela montagem, assinada pelo próprio Antonioni. Niccolò chega a uma conclusão incômoda ao pensar na sugestão dada pelo sobrinho, para um filme de ficção científica. E assim como a imaginada nave-asteroide potente que avança em direção ao Sol para estudá-lo, o diretor segue em sua busca íntima para encontrar o fim definitivo de sua solidão e identificar em uma mulher alguém que possa ser um rosto, um corpo e uma ideia; uma imagem, um sentimento e, por fim, a palavra que o satisfaria. Um egoísmo que no fundo é a ânsia de toda a humanidade. O arranhar da superfície daquilo que genericamente se chama… sentido da vida.

Identificação de uma Mulher (Identificazione di una donna) — Itália, França, 1982
Direção: Michelangelo Antonioni
Roteiro: Michelangelo Antonioni, Gérard Brach (com colaboração de Tonino Guerra)
Elenco: Tomas Milian, Daniela Silverio, Christine Boisson, Lara Wendel, Veronica Lazar, Enrica Antonioni, Sandra Monteleoni, Marcel Bozzuffi, Gianpaolo Saccarola, Dado Ruspoli, Arianna De Rosa, Sergio Tardioli, Itaco Nardulli, Paola Dominguín, Pier Francesco Aiello
Duração: 130 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.