Crítica | “i,i” – Bon Iver

Well, it’s all fine and we’re all fine anyway

Há poucas bandas da atual geração com uma discografia tão perfeita e exploratória quanto os americanos do Bon Iver. O grupo capitaneado por Justin Vernon, que outrora já foi rotulado como indie folk, chegou a um ponto em que produz uma música repleta de vibrações e ruídos praticamente irrotuláveis. Se trata de um amálgama experimental de influências do folk, pop e rock onde o resultado final é catártico. O quarto e recém-lançado álbum, i,i, é o fim de uma tetralogia onde cada disco corresponde a uma estação, iniciando com o inverno na estreia de For Emma, Forever Ago e finalizando, agora, com o outono de i,i.

As referências relativas a estações presentes em cada álbum é uma questão de detalhe e simples atmosfera sonora. Provavelmente a característica mais marcante do outono vista aqui é o tema da mudança. Essencialmente, dentro das letras complexas e vagas de Vernon, o que fica nítido é justamente os conflitos transicionais da vida, das mudanças inevitáveis. Afinal, o que é o outono se não uma estação de transição e preparatória para o inverno? A queda das folhas simbolizando o fim de um ciclo e início de outro. Não é a toa que i,i soa como um misto perfeito das três obras anteriores, do folk intimista dos dois primeiros álbuns e do experimentalismo eletrônico de 22, Million.

O ar experimental cheio de ruídos e efeitos das primeiras faixas retoma o percurso de onde parou o excelente disco anterior, até que, aos poucos, camadas melódicas de arranjos instrumentais complexos vão sendo introduzidas. Entre o fim de Holyfields e o início de Hey Ma já é perceptível estarmos diante de um feito magnífico em termos de produção. O disco mantém, do início ao fim, um nível elevadíssimo de qualidade na produção. A voz de Vernon soa melhor do que nunca, extremamente bem mixada e trabalhada de mil formas diferentes, com efeitos/tunes que por vezes fragilizam, multiplicam ou fortalecem sua voz, dando várias facetas emocionais de interpretação.

Vale ressaltar os ápices de catarse emocional criadas pelo disco. Naeem é forte candidata a uma das melhores canções do ano. Aqui, Justin Vernon entrega uma de suas melhores performances, cantando cada verso quase como se estivesse expulsando sentimentos dentro de si. Entre os repetidos acordes de violão entram belos arranjos de vozes e um instrumental que cresce de forma lindíssima até criar um ambiente musical riquíssimo, uma atmosfera angelical e paradisíaca. O mesmo vale para Sh’Diah, que executa a mesma façanha, mas quase como um contraponto. Enquanto Naeem apresenta um arranjo mais festivo, Sh’Diah entrega uma viagem introspectiva e contemplativa com influências de dream pop e jazz.

Entre as letras nebulosas para interpretação, o instrumental de Bon Iver é o que realmente dita os sentimentos e interpretações do álbum. E, a julgar pelos belos arranjos contemplativos inseridos aqui, Vernon sugere à audiência tentar ser um pouco mais otimista e olhar para o lado positivo em meio aos conflitos e transformações em nossas vidas. “Parte da vida parece boa, não é mesmo?” – afirma em um dos versos do brilhante encerramento de RAbi. Se trata de um ciclo de belas estações chegando ao fim de forma praticamente impecável.

Aumenta!: Naeem
Diminui!:

i,i
Artista: Bon Iver
País: Estados Unidos
Lançamento: 9 de agosto de 2019
Gravadora: Jagjaguwar
Estilo: Indie folk, pop, experimental

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.