Crítica | Ilha do Medo

Ilha do Medo é um belo exercício estilístico de Martin Scorsese que reúne, em um conjunto nem sempre harmônico, a estética visual e narrativa de Alfred Hitchcock, o tipo de mistério que é marca registrada de M. Night Shyamalan e a atmosfera dos filmes noir dos anos 40. Com Leonardo DiCaprio e Mark Ruffalo como protagonistas e a ameaçadora ilha do título que abriga um manicômio judiciário como um opressivo cenário de pesadelo.

Baseado em romance de Dennis Lehane, autor de outras obras literárias que resultaram em adaptações cinematográficas de bom calibre como Sobre Meninos e Lobos, Ilha do Medo é um thriller policial de tom extremamente macabro a ponto de por vezes ser até difícil de assistir, mas que desafia, sob o disfarce de um suspense, nossa percepção da realidade. Em 1954, os policiais federais Teddy Daniels (DiCaprio) e Chuck Aule (Ruffalo) partem para investigar o misterioso desaparecimento de Rachel Solando, uma detenta/paciente da unidade psiquiátrica de uma ilha – na verdade um grande rochedo, uma versão “bombada” da famosa Alcatraz – na costa de Massachusetts, encontrando um ambiente hostil tanto por parte dos psiquiatras, os Drs. John Cawley e Jeremiah Naehring, vividos por Ben Kingsley e Max von Sydow, quanto por parte dos agentes carcerários e dos criminosos ali internados. E isso sem contar com a violência da natureza em si, com uma tempestade fortíssima que não demora a começar e que reflete toda a confusão mental de Teddy que já começa com seu desconforto no ferry a caminho da ilha e que só vai se agravando.

Scorsese mantém o espectador constantemente desconfortável e tenso, por vezes até desnorteado, emulando com sua câmera que abusa dos close-ups e com a fotografia de Robert Richardson (vindo de uma parceria com o diretor em Cassino, O Aviador e Shine a Light) todo o estado de espírito cada vez mais complexo e estranho de Teddy, que conta com terríveis flashbacks para a Segunda Guerra Mundial, na liberação do campo de extermínio de Dachau e visões de sua esposa (Michelle Williams) falecida em um incêndio. Ao mesmo tempo, as tomadas internas e externas gradativamente ganham mais complexidade e características labirínticas que tornam o complexo da ilha, inicialmente visto com uma câmera benevolente e uma paleta de cores mais clara e até colorida, cada vez mais sombrio e opressivo, por vezes até mesmo aterrador como nas escarpas perto do farol e especialmente na Ala C, dedicada aos criminosos mais perigosos.

Além disso, o roteiro de Laeta Kalogridis, em seu quarto longa, polvilha a obra de pistas visuais para a grande revelação final que Scorsese materializa de maneira desconcertante no filme, jogando com percepções, com memória e com o estranhamento profundo que a produção causa. No entanto, esse mesmo roteiro é marcado por um grande desequilíbrio. Se toda a construção do mistério funciona bem – mas talvez mais graças ao visual da obra -, o mesmo não se pode dizer de seu desfecho, que parece mais uma corrida para se chegar à reviravolta “shyamalanesca”. Não é nem uma questão de que a lógica se perca ou que os eventos do final traiam o que veio antes, mas sim que Scorsese não consegue, eficientemente, manter o ritmo cadenciado dos dois terços iniciais, com a montagem de Thelma Schoonmaker, sua parceira profissional de longa data perdendo-se no vai-e-vem, na intensificação da ação e na relativa burocracia da “explicação”.

Por outro lado, Leonardo DiCaprio e Mark Ruffalo estão excelentes em seus respectivos papeis, o primeiro entrando em uma espiral desesperadora e o outro sendo a literal calma antes, durante e depois da tempestade, em atuações antitéticas, mas complementares que ajudam na conexão do espectador com o visual macabro de um Scorsese aparentemente se divertindo na direção. Da mesma forma, Ben Kingsley e Max von Sydow, apesar de terem participações relativamente breves, trazem todo o necessário tom de ameaça que se espera pela construção narrativa, algo que é amplificado sobremaneira pela trilha sonora que, curiosamente, não é original do filme, mas sim uma curadoria de Robbie Roberson, também colaborador de longa data de Scorsese, que reúne desde Gustav Mahler até Brian Eno em um mix eclético, mas que assombra tanto quanto algumas grandes trilhas de Bernard Herrmann, por exemplo.

Como a ilha do título, o suspense psicológico de Martin Scorsese tanto afasta quanto atrai o espectador com uma eficiente mistura de atmosfera lúgubre com curiosidade mórbida e atuações e atmosferas hitchcockianas até a raiz do cabelo. Não é nem de longe uma obra-prima do diretor, mas Ilha do Medo definitivamente é um filme que fisga o espectador do começo ao fim, mesmo que o começo sejam bem melhor do que o fim.

Ilha do Medo (Shutter Island, EUA – 2010)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Laeta Kalogridis (baseado em romance de Dennis Lehane)
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine, John Carroll Lynch, Elias Koteas, Ruby Jerins, Robin Bartlett, Christopher Denham
Duração: 138 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.