A Ilíada, atribuída ao poeta grego Homero, possui uma estrutura intrinsecamente visual e dinâmica, o que a torna um material assertivo para a transposição para as histórias em quadrinhos. A narrativa é centrada em ações épicas, duelos coreografados e uma iconografia rica que define deuses e heróis, elementos que encontram no suporte gráfico o meio ideal para a expansão da sua estrutura grandiosa. Ao traduzir o poema para as HQs, o tradutor-roteirista pode utilizar a justaposição de quadros para ditar o ritmo das batalhas e a escala monumental do cerco a Troia, transformando os epítetos homéricos em motivos visuais recorrentes que auxiliam na caracterização imediata dos personagens para o leitor contemporâneo. Além do aspecto estético, a tradução para o formato de gráfico permite uma mediação cultural que aproxima o rigor do texto clássico de uma linguagem mais acessível e cinematográfica. A alternância entre o diálogo direto possibilita preservar a solenidade dos discursos heroicos, mesmo que superficialmente, quando comparado ao material ponto de partida, enquanto se explora a subjetividade emocional de figuras como Aquiles e Heitor através de expressões faciais e enquadramentos.
Assim, essa tradução intersemiótica não apenas simplifica o acesso ao mito, mas revitaliza a obra ao oferecer uma interpretação que respeita a oralidade original da epopeia, utilizando o fluxo das páginas para guiar o público por uma experiência sensorial que o texto escrito, isoladamente, pode demorar mais a evocar. Funciona como uma espécie de democratização da literatura clássica para leigos e leitores de níveis de formação literárias diferentes. É o que se percebe nessa tradução da Ilíada em quadrinhos, publicação que une o talento do experiente roteirista Diego Agrimbau, que atua no mercado desde 1990, com passagens por grandes editoras europeias, latino-americanas e gigantes dos EUA, como a DC Comics (Vertigo) e a Heavy Metal, ao tom versátil do ilustrador David Marcelo Zamora. Enquanto Agrimbau traz sua bagagem narrativa e acadêmica, iniciada na docência em 2005, Zamora contribui com sua expertise visual desenvolvida em agências de publicidade, animações para cinema e TV, ilustrações infantis e design para videogames, garantindo uma estética dinâmica e detalhada para o clássico épico.

Em suas 80 páginas, veiculadas no Brasil pela Editora Principis, os personagens aparecem, tal como na tradução da Odisseia, publicada posteriormente, desenhados por Smilton de maneira pouco densa, com traços mais suavizados, em um texto de Diego Agrimbau que demonstra o desenvolvimento do conflito, emulando os pontos habituais que outras traduções usam como foco, em especial, a Guerra de Troia, numa abordagem que evita a violência explícita em suas cores. Os personagens, em sua maioria, homens torneados e com perfil imponente, representam a força dos combatentes de um dos conflitos bélicos mais conhecidos da ficção, tema que ainda gera pesquisas científicas e, entre o século XIX e o XX, foi alvo de buscas obcecadas pela comprovação de sua veracidade, sendo algo que supostamente teria acontecido. E, mais adiante, transformado em poesia por Homero, uma figura que também gera debates calorosos sobre a sua existência, em suma, um assunto que engendra conversas em diversas vertentes.

Provavelmente lida em sua maior parte, pelo público juvenil, algo que a própria edição delineia em sua embalagem, essa versão em quadrinhos da jornada de Aquiles pode servir de entretenimento, mas também permitir reflexões. Uma delas é sobre a ira de Aquiles, motor central da Ilíada, assunto que ensina ao público jovem que emoções intensas e descontroladas podem isolar o indivíduo e gerar consequências destrutivas para todos ao redor. Em uma realidade marcada pela instantaneidade das redes sociais, onde o “cancelamento” e o ódio digital se assemelham à fúria do herói grego, a obra nos convida a refletir sobre como o orgulho ferido pode cegar o julgamento. Aprender com Aquiles é entender que a verdadeira força não reside na explosão da raiva, mas na capacidade de processar a dor sem permitir que ela se transforme em violência ou indiferença com o próximo.
Além disso, o mito destaca a importância da empatia e do diálogo como únicos caminhos para a superação de conflitos, conforme visto no encontro final entre Aquiles e Príamo. Para o jovem de hoje, essa narrativa reforça que a vulnerabilidade e o reconhecimento da humanidade no “outro”, mesmo naquele que consideramos um adversário, são atos de coragem maiores que qualquer vitória militar. A história nos desafia a abandonar a busca por uma justiça baseada na vingança própria, incentivando uma convivência mais equilibrada e pautada no respeito às fragilidades comuns a todos os seres humanos. Esse é um tema muito profícuo para debates, não é a toa que a ira desse ícone da mitologia permanece como um dos motes favoritos do cinema e da ficção por oferecer um arco dramático visceral de fúria, luto e redenção. Essa intensidade emocional, extraída da épica grega, permite que produções contemporâneas explorem a complexidade humana através de conflitos grandiosos e heróis profundamente falíveis. Em linhas gerais, uma tradução artisticamente acima da média.
Ilíada: Clássicos em Quadrinhos (Argentina/Maio de 2020)
Roteiro: Diego Agrimbau
Arte: Smilton
Tradução: Paloma Bianca Alves Barbieri
Editora no Brasil: Editora Principis/ HQ Latin Books
80 páginas
