Crítica | Imagine Aquaman de Stan Lee

Sei que Stan Lee merece todo o respeito do mundo por ter feito inestimáveis contribuições para o mundo dos quadrinhos e por ter moldado a Marvel Comics e transformado-a no gigante que ela hoje é. No entanto, como já tive oportunidade de afirmar algumas vezes em outras críticas, sua imaginação fértil e seu tino comercial muito raramente se traduziram em roteiros de qualidade para suas histórias. Com muita boa vontade, Stan Lee foi, no agregado, um escritor não mais do que medíocre e sua incursão na Distinta Concorrência, no famoso projeto Just Imagine… (ou Imagine, como ficou conhecido por aqui), que lhe deu carta branca para recriar os mais icônicos heróis de lá em uma série de publicações one-shot, é uma das provas de minha afirmação, com sua versão do Aquaman conseguindo, ainda por cima, despontar negativamente.

E nem falo aqui somente da falta de criatividade na concepção da história, ainda que ela incomode, mas sim na claudicante progressão narrativa, no mais do que simplista desenvolvimento de seus personagens, na introdução aleatória de uma figura vilanesca e em sua incapacidade de criar diálogos que fujam, mesmo que por um ou dois balões, do óbvio ululante semi-amador. E para aqueles que estiverem revirando os olhos para o que eu escrevo, sugiro que leiam – ou releiam o Aquaman de Stan Lee e compare-o com o próprio Stan Lee escrevendo sua Trilogia de Galactus para notarem a abissal diferença. Seu Aquaman é a burocracia narrativa em sua mais pura forma e que, pior ainda, não resulta sequer em uma leitura minimamente agradável, com a cereja no bolo sendo o revoltante uso da personagem feminina (a namorada do protagonista) como um bibelô/objeto sexual/loira burra do mais baixo nível. E olha que estamos falando de uma HQ de 2002 e não dos anos 60, quando isso poderia de alguma forma ser justificado.

Na história, somos apresentados a Ramon Raymond (a aliteração – lugar comum na série – é uma ótima brincadeira com o que Lee sempre fez com seus personagens), um biólogo marinho preocupado com o meio-ambiente que vive em um barco com sua voluptuosa e apaixonada namorada Amelia, cujas curvas a arte de Scott McDaniel faz questão de salientar com os trajes mais reveladores possíveis. Secretamente, Ramon está nos “finalmentes” de uma experiência que ele nunca explica direito, mas que se resume a injetar DNA de golfinhos nele próprio com o objetivo de respirar embaixo d’água. Dito e feito, basta o rapaz fazer isso, mergulhar e passar por uma também inexplicada “água verde”, para ele transformar-se no literal Aquaman, ou seja, um Homem-Água, não muito diferente do Homem-Areia da Marvel Comics em uma tentativa até válida de Stan Lee de reverter à origem 100% humana do Aquaman da Era de Ouro.

Adaptando-se de maneira meteórica às suas habilidades, Ramon deixa sua namorada no escuro (seria ela burra demais para entender?) e conta seu segredo para o irmão policial Frank que, ato contínuo, em uma sequência completamente aleatória, leva um tiro dos bandidos vingativos que Ramon enfrentara quando primeiro descobre seus poderes. Essa tragédia, que quase imobiliza Frank para sempre, faz com que Ramon dê uma de Peter Parker e coloque o lema “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” em uso, abraçando sua persona de Aquaman. Ao longo da narrativa simplista e cansativa de ler, Lee ainda nos empurra o vilão Reverendo Darrk (comum ao universo Just Imagine…) goela abaixo em outra linha narrativa aleatória de trincar os dentes e que não leva a lugar algum a não ser ao mais do que esperado fim da longa e interminável história que exigiu muita paciência deste crítico.

A arte de McDaniel acompanha a burocracia da narrativa de Lee e jamais tenta parecer mais do que o minimamente necessário para tornar a história legível. Notem que não é uma arte ruim, longe disso, na verdade, mas o trabalho do artista é inerte, básico, o que põe por terra qualquer possibilidade de pelo menos esse one-shot salvar-se pelo visual.  Se pelo menos o Aquaman fosse mais do que a versão derretida do Homem de Gelo, o leitor teria algo a apreciar. Mas nem isso acontece.

A quase heresia que é Stan Lee trabalhar para a DC Comics poderia ter sido algo excepcional. Apesar de a parceria ter resultado em mais de uma dezena de one-shots, nenhum deles foi realmente memorável e Aquaman foi um verdadeiro tiro n’água, daqueles de dar dor no coração pelo potencial que se esvai pelo ralo a cada virada de página.

Imagine Aquaman de Stan Lee (Just Imagine Stan Lee’s Aquaman, EUA – 2002)
Roteiro: Stan Lee
Arte: Scott McDaniel
Arte-final: Klaus Janson
Letras: Bill Oakley
Cores: Guy Major
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: janeiro de 2002
Editora no Brasil: não publicado no Brasil
Páginas: 50

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.