Crítica | Imagine Shazam de Stan Lee

PLANO CRITICO IMAGINE SHAZAM DE STAN LEE

A série Just Imagine, da DC Comics, foi uma iniciativa bastante curiosa. Nela, Stan Lee foi o convidado de honra da casa para reimaginar a origem de diversos personagens, sagas e/ou equipes num execício que durou 12 edições. Aqui em Shazam, temos duas histórias ligadas ao personagem, sendo uma principal (roteiro solo de Lee) e uma secundária, um pequeno conto intitulado On the Street, que mostra a origem do Capitão Marvel sob uma perspectiva urbana e realista, desta vez, com roteiro de Lee ao lado de Michael Uslan.

A criação aqui é inicialmente estranha, mas chamativa, daquelas que o leitor não sabe para onde está indo, não gosta exatamente do que está acontecendo, mas não consegue parar de ler. E um ponto muito curioso é que há um certo tempero de Etrigan (na versão original do Rei Kirby) nessa costura narrativa adotada por Stan Lee, com início da saga na Idade Média, envolvendo Morgana Le Fey, o Mago Merlim e uma possessão monstruosa, que é a verdadeira face o Shazam dessa Terra-901 (depois Terra-27, depois Terra 6) onde os personagens dessa saga se encontram.

A premissa, como expus no início do texto, é estranha, mas nos mantém interessados. As sequências entre Morgana e Merlin só funcionam mesmo através da fantástica arte de Gary Frank e o roteiro não tem lá muitas coisas que nos façam dizer “oooooh“. A narração é outra parte que não ajuda (a pior coisa da revista, para dizer a verdade) e só se torna realmente interessante quando passamos para os dias atuais e nos vemos na Índia, ao lado dos agentes da Interpol Carla Noral e Robert Rogers, que estão à caça de uma arma apocalíptica e de seu criador, o criminoso Gunga Khan. O clichê escorre pelas páginas mas, nesse caso, estamos falando de um bom clichê, ao menos na ideia geral para a concepção da história, algo no qual Stan Lee era um verdadeiro gênio: conceber narrativas. Porém, quando falamos de colocar essas grandes ideias no papel, especialmente em tramas mais complexas — exceto quando escrevia para o Surfista Prateado, por algum motivo cósmico — o autor realmente tinha dificuldades.

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Apesar dos pesares, este Shazam de Stan Lee é bem divertido (quando transformado). Os dilemas que a versão original do personagem tem (e que depois seriam retrabalhados em origens pós-Crise) são novamente colocados pelo autor nesta revisão, e é preciso elogiar a boa relação com as palavras finais do mago de Merlim e a forma como ele consegue fixar a capacidade de transformação no corpo do franzino (e de frágil libido) Robert Rogers. Agora notem que eu disse que o personagem é divertido quando transformado. Isso porque a versão ‘civil’ do Shazam e sua relação com a parceira de trabalho, Carla Noral, é a coisa mais sem graça, forçada e em alguns pontos… questionáveis desta one-shot.

Não gosto muito do ritmo e nem das conversas durante o enfrentamento no covil do vilão, mas é uma cena de pancadaria e, querendo ou não, fica difícil para o leitor não ter o mínimo de empatia diante desse tipo de situação, uma vez que pancadaria é uma principais das graças de se ler quadrinhos de super-heróis. A parte inconciliável, porém, está logo na sequência, quando o texto cria o seu caminho de encerramento com diálogos e abertura para um tipo de continuação possível, momentos que infelizmente não se encaixam bem na história e terminam mal uma trama que, de coisas boas, teve apenas alguns pedaços.

Já o conto On The Street, que se passa em Nova Délhi, tem um charme maior. Nele, conhecemos a trágica história do pequeno Billy Marvel, que perdeu os pais (Fred e Mary — observem os nomes!) e que faz um amiguinho, Zubin, que terá um papel de grande afeto na história. Basicamente, Lee e Uslan (roteiro) e Kano (arte), nos mostram como alguém em um cotidiano paupérrimo pode encontrar um caminho para também se tornar um herói, mesmo não tendo super-poderes. É uma história curta e fofa que mesmo tendo muitos problemas — ou seja, conveniências em demasia –, consegue ser mais atrativa do que a aventura principal do volume, com o Shazam-Monstro. Pois é.

Just Imagine Vol.1: Shazam (EUA, maio de 2002)
Roteiro: Stan Lee (com Michael Uslan na história secundária)
Arte: Gary Frank (história principal) e Kano (história secundária)
Arte-final: Sandra Hope (história principal) e Kano (história secundária)
Cores: Chris Chuckry (história principal) e Alex Sinclair (história secundária)
Letras: Bill Oakley
Capa: Gary Frank, Sandra Hope, Alex Sinclair
Editoria: Ivan Cohen, Mike Carlin
52 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.