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Crítica | Incêndios

por Ritter Fan
1600 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5

Imagine a seguinte situação: sua mãe, que sempre tratou você e sua irmã gêmea de maneira distante, acaba de morrer. Ela trabalhava há anos como secretária para um notário canadense, cuja esposa se afeiçoou a vocês e os trata como seus próprios filhos. O notário chama você e sua irmã para conversar e revela que sua mãe deixou um testamento que determina como ela deve ser enterrada e deixa três envelopes, um para você entregar para seu pai e outro para sua irmã entregar para o outro irmão de vocês. O terceiro envelope é para vocês dois abrirem somente quando os dois outros tiverem sido entregues.

Agora imaginem que vocês tenham certeza que o pai de vocês já morreu e que vocês nunca ouviram falar de um terceiro irmão. Qual seria sua reação?

É assim que começa o magnífico Incêndios, filme canadense de 2010 falado em francês que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011. Jeanne (Mélissa Désourmeaux-Poulin) e Simon Marwan (Maxim Gaudette) são irmãos gêmeos que recebem esse testamento da mãe e reagem imediatamente de maneiras diversas. Jeanne quer seguir os desejos de sua mãe e parte para o Líbano para investigar o paradeiro de seu pai morto e de seu irmão misterioso. Simon permanece no Canadá, querendo basicamente fechar essa porta em sua vida, enterrar sua mãe da maneira convencional apesar de ela ter expressamente pedido para ser enterrada em túmulo sem lápide, nua e de costas para o mundo.

Em sua superfície, Incêndios é quase um filme de detetive, mas só mesmo em sua superfície. Nawal Marwan (Lubna Azabal), a mãe dos jovens, era uma mulher reservada, com um passado misterioso que se confunde fortemente com a história conturbada de seu próprio país, o Líbano, bem no início da década de 70. O envio dos filhos em uma missão de aparência detetivesca tem como objetivo mostrar a eles essa vida, fazê-los se acharem e se descobrirem, voltando às suas raízes.

Nessa investigação, nós, espectadores, somos brindados com dois pontos de vista, o dos jovens hoje em dia e o de Marwan desde quando era uma jovem cristã no Líbano que se apaixonou – e engravidou – de um muçulmano, desgraçando a si mesma e a toda família. Somos mantidos no presente e remetidos ao passado em um bela montagem que em nenhum momento parece forçada.

A trama é cheia de revelações que são feitas de maneira integrada à história que está sendo contada e na medida em que vemos a guerra civil instalar-se no Líbano. Em determinado momento, percebemos que Marwan é uma espécie de “resumo” do inferno por que passou – e ainda passa, na verdade – seu país. Por isso, podemos facilmente perdoar os atalhos que o diretor e roteirista Denis Villeneuve (diretor do também excelente Os Suspeitos), baseado na peça homônima de Wajdi Mouawad, toma em determinados pontos, como o grande número de coincidências que impulsionam a história e a inclusão do notário Jean Lebel (Rémy Girard) e sua conveniente rede de contatos pelo mundo para apressar a resolução da narrativa.

Lubna Azabal, atriz belga, revela uma dedicação ao seu complicado papel que ela, mesmo não estando presente na trama durante todo o tempo, sustenta o filme juntamente com o trabalho do diretor. É brilhante – e atordoante – ver a transformação de seu personagem ao longo das décadas.

E o final do filme é desesperador e doloroso, em um momento daqueles de dar nó no coração. Acho que foi a melhor revelação de um segredo que já vi em uma obra cinematográfica, ajudada pela intensa atuação de Maxim Gaudette e, principalmente, de Mélissa Désourmeaux-Poulin. Fiquei tão desorientado no cinema que, instintivamente, procurei por um “controle remoto” inexistente para ver a cena novamente. Inacreditável.

Mas o filme não é o seu final. Não estou falando aqui de tramas cuidadosamente construídas apenas para a grande revelação final como nos filmes de M. Night Shyamalan. Incêndios é um primor de roteiro, de direção e de fotografia e o momento final é apenas a cereja no bolo, uma espécie de coroação da complexidade do Líbano, onde mudanças de aliança, mortes, perdas e guerra foram constantes durante muitas décadas.

Incêndios é um filme imperdível, ponto final.

Publicado originalmente em 22 de abril de 2014.

Incêndios (Incendies) — Canadá/França, 2010
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Denis Villeneuve, Valérie Beaugrand-Champagne (consultora), baseado em peça de Wajdi Mouawad
Elenco: Mélissa Désourmeaux-Poulin, Lubna Azabal, Maxim Gaudette, Rémy Girard
Duração: 139 min.

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26 comentários

Vinicius Maestá 28 de julho de 2020 - 06:44

Acabei desvendando o segredo antes de sua revelação, mas não teve jeito, a cena em que a teoria se confirmou me deixou em choque e um tanto sem ar. Ninguém é capaz de suportar o peso daquele famigerado momento.

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planocritico 28 de julho de 2020 - 15:29

Não mesmo. Aquilo ali foi uma porrada…

Abs,
Ritter.

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Matheus Vieira 25 de maio de 2020 - 23:23

Eu realmente não faço ideia de como passei tanto tempo sem assistir esse filme. A perfeição não basta para caracterizar essa obra prima não apenas da História do cinema, mas da História da Arte.

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planocritico 26 de maio de 2020 - 14:59

Que legal que você amou o filme! É uma maravilha mesmo!

Abs,
Ritter.

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Sóstenes - Toty 22 de maio de 2020 - 00:13

Acabei de assistir. ESPLÊNDIDO, Villeneuve tá se tornando meu diretor predileto.

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planocritico 22 de maio de 2020 - 00:37

Ele é um diretor fantástico. Não tem nada sequer mediano!

Abs,
Ritter.

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Daniel Duarte 29 de março de 2020 - 13:19

Agora que terminei de ver o filme posso ver que lá no começo do filme o Simon tinha razão. Ainda achei ele de uma insensibilidade com o pedido do testamento, mas… O Simon tinha razão!

Esse diretor é incrível, Denis Villeneuve é foda!!!

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planocritico 29 de março de 2020 - 14:54

Um dos grandes diretores da atualidade!

Abs,
Ritter.

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JC 18 de março de 2020 - 17:38

Rapaz……………….demorei de ver esse filme, o coronga vírus me ajudou nessa.
Tirando atraso de um monte de coisa….

Cacetada, o que foi aquele grito ? Quase caí pra trás, até que foi caindo a ficha, aí eu quase gritei junto.

Pqp.

Filme maravlhoso. Mas pesado, me lembrou Old Boy.

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planocritico 19 de março de 2020 - 02:54

Esse momento foi um dos mais chocantes momentos cinematográficos que vi na vida… Só de lembrar já dá calafrios…

Abs,
Ritter.

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planocritico 18 de dezembro de 2018 - 01:57

Cara, eu ADORO o Villeneuve. Ele só tem filmaço! Divirta-se!

Abs,
Ritter.

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Daniel Silveira 17 de dezembro de 2018 - 06:13

Um filme real!Estou assistindo os filmes desse maravilhoso diretor!Eu assisti enemy e achei incrível,impressionante a direção e a fotografia e o desenrolar de suas tramas,bem como o roteiro!Agora partirei para Os suspeitos e A chegada!

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planocritico 22 de outubro de 2018 - 10:08

Volto e meia eu me pego pensativo, relembrando esse filme. Ele me marcou fundo. É realmente uma aula de cinema!

Abs,
Ritter.

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Anônimo 21 de outubro de 2018 - 03:54
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Rodrigo 14 de janeiro de 2018 - 02:50

Acabei de assistir e não tô sabendo como reagir…tô abalado, triste, desalentado…uma facada direto no coração…

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planocritico 14 de janeiro de 2018 - 08:11

Então o filme cumpriu sua missão!

Abs,
Ritter.

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Marta Souza 29 de setembro de 2017 - 20:11

Esse filme é de tirar o fôlego

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planocritico 29 de setembro de 2017 - 20:50

E de partir o coração em pedacinhos…

Abs,
Ritter.

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Anônimo 13 de fevereiro de 2017 - 18:41
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Lucas Casagrande 13 de fevereiro de 2017 - 18:41

Maravilhoso esse filme, uma aula de cinema

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planocritico 14 de fevereiro de 2017 - 01:52

Concordo!

– Ritter.

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planocritico 14 de fevereiro de 2017 - 01:52

Concordo!

– Ritter.

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André 26 de abril de 2015 - 01:25

Acabei de assistir o filme, e que filme fantástico. Sem palavras para descrever o que acabei de presenciar, são filmes como este que me fazem continuar assistindo a sétima arte. Muito impactante, e como o amigo disse abaixo depois de Prisoners fui atrás conhecer a obra do diretor. E assim como Prisoners esse é um filme ambicioso e muito bem feito, já tinha assistido a seu último filme Enemy que muita gente não gostou mas que achei muito bom. Toda a mitologia do filme que criaram e seu desenvolvimento foi algo muito pensado. Nenhum dos três filmes dele são comerciais digamos assim, são filmes feitos para te fazer pensar, e infelizmente hoje o público não quer pensar ao ir ao cinema.

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planocritico 26 de abril de 2015 - 14:26

@disqus_zhnW2Xl61y:disqus, é um soco no estômago esse filme. Fiquei realmente embasbacado no cinema. Vi também a peça de teatro aqui no RJ com a Marieta Severo e o efeito foi o mesmo.

Sobre a filmografia do diretor, concordo!

Abs,
Ritter.

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Rafael Gardiolo 13 de junho de 2014 - 02:55

Correndo atrás, depois de Prisoners o que vier do Villeneuve eu vejo. Ele e o John Hillcoat são diretores que passei recentemente a olhar mais de perto.

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planocritico 13 de junho de 2014 - 20:05

Corra atrás mesmo! Esse filme é imperdível. Depois me conte o que achou. Abs, Ritter.

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