Crítica | Incidente em Antares, de Érico Veríssimo

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__ Coronel, o senhor esquece que estamos numa democracia.

__ Democracia qual nada, governador! O que temos no Brasil é uma merdocracia.

__ Alô?! A ligação está péssima.

__ Eu disse que estamos numa mer-do-cra-ci-a, entendeu?

É por causa dessa obra-prima da nossa literatura que até hoje eu olho com desconfiança para um coreto de praça… Último livro do grande escritor gaúcho Érico Veríssimo, originalmente publicado em 1971, Incidente em Antares é uma daquelas realizações atemporais, que simula um ideal de Brasil num microcosmo (na pequena Antares, cidade fictícia situada ao norte de São Borja, RS, às margens do rio Uruguai) e que através da comédia, das tragédias sociais e políticas, da violência e do “jeitinho brasileiro” nada cordial, por sinal, traz à reflexão um fato angustiante: pouca coisa realmente muda por aqui.

O panorama crítico que Veríssimo dá ao seu Brasil contemporâneo também espelha elementos de sua infância e juventude e pode ser visto como um igual retrato do nosso Brasil atual, basta apenas renomear os indivíduos e as estruturas de poder para entendermos a alegoria exposta no volume, mesclando comédia, violência e tragédias sociais ou políticas em uma prosa original, de maior aproximação com a realidade. Isso não impede, porém, de o autor usar doses de realismo mágico para temperar a trama, seja na primeira parte da obra (a linear e mais claramente novelista parte do livro, chamada Antares) e a segunda parte, chamada O Incidente, com um evento tragicômico, chocante e pela maneira como é concebido pelo autor, profundamente brasileiro.

A divisão de poder local nas mãos de poderosos, infames e malucos se dá já na apresentação geográfica e histórica que acompanhamos na abertura. Aí conhecemos as famílias-facções que se odeiam profundamente: os Campolargo e os Vacariano. É à roda dessas duas famílias que o mecanismo de funcionamento social se ergue no livro, indo do embasbacamento quase infantil dos trabalhadores de diferentes épocas (pouco a pouco se organizando e tentando encontrar condições melhores de trabalho, culminando na greve geral que dá origem ao “incidente“) até os horrores cometidos pelos poderosos para manterem-se um à frente do outro e, de modo geral, sustentarem o status que possuem há gerações. Mas como é sabido, não existe poder, domínio ou império que dure para sempre. E pelas vias menos óbvias — pelo escárnio dos mortos apodrecendo e denunciando a podridão dos vivos — é que a primeira grande perspectiva de mudança está lançada nesse Universo, para no fim, varrer-se como se nada tivesse acontecido… uma realidade que infelizmente destrói povos inteiros: a frágil memória histórica.

No decorrer do livro observamos que o autor vai mudando de abordagem, entregando variações de uma perspectiva da realidade vinda por diferentes personagens (alguns padres, um naturalista francês, dois professores e um jornalista). Essa mudança torna a leitura dinâmica e ao mesmo tempo acrescenta conhecimentos da cidade, da população e de sua existência a partir de distintas áreas do conhecimento e visões de mundo, conversando com os mais diversos tipos de leitores, flertando com o documento histórico e dando ares de “eventos reais” à saga, linha de construção que sempre foi muito cara ao autor e que combina com a pluralidade necessária para um livro como este — e considerando esse aspecto, não consigo deixar de lembrar de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro.

Dona Quitéria sacode a cabeça num movimento afirmativo. Erotildes, Pudim e Menandro a imitam. Barcelona, porém, hesita:

__ Primeiro quero conhecer melhor o plano.

__ Simples. Descemos juntos pela Rua Voluntários da Pátria ruma da Praça da República. Lá nos dispersaremos, cada qual poderá voltar à sua casa… Para isso teremos algumas horas. O essencial (prestem a maior atenção!) é que quando o sino da matriz começar a dar as doze badaladas do meio-dia, haja o que houver, todos devem encaminhar-se para o coreto da praça, sentar-se nos bancos em silêncio e ficar à minha espera.

__ E que é que você vai fazer? – quer saber João Paz.

__ Vou primeiro à minha casa buscar uns papéis importantes… Depois me dirigirei à residência do prefeito para lhe entregar um ultimato verbal… ou nos enterram dentro do prazo máximo de vinte e quatro horas ou nós ficaremos apodrecendo no coreto, o que será para Antares um enorme inconveniente do ponto de vista higiênico, estético… e moral, naturalmente.

Na greve geral de 12 de dezembro de 1963, que abre as portas para a segunda parte do volume, temos como precedente algo digno de nota: sete pessoas morrem na cidade. E claro, como os coveiros estão de braços cruzados, tudo o que se passa a partir da sexta-feira 13 é um verdadeiro pandemônio de revelações e angústia, com a profunda sensação de sujeira e fedor que o leitor consegue abstrair com imensa facilidade da excelente descrição que Veríssimo faz dos mortos apodrecendo. É nesse ponto do livro que todas as informações da primeira parte se justificam, ajudando-nos a reconhecer o contexto dos os segredos trazidos pelo grupo de sete mortos: Quitéria Campolargo (matriarca da cidade, que morreu do coração); Barcelona (sapateiro anarquista, vítima de um ataque cardíaco); Cícero Branco (influente advogado, vítima de um AVC); João Paz (jovem pacifista, torturado até a morte pela polícia); Pudim de Cachaça (bêbado envenenado pela mulher); Menandro Olinda (genial pianista, gravemente deprimido, que se suicidou cortando os pulsos) e por fim, Erotildes, a prostituta, vítima de tuberculose. Ela não foi atendida a tempo pelos médicos.

O exercício do poder e da justiça, a clara divisão entre o “momento da metáfora” e o “momento dos fatos” e uma corajosa exposição da corrupção, mandonismo, paranoia política, autoritarismo, golpismo e baixeza de certos pensamentos políticos e sociais no Brasil — em diversas classes sociais, por pessoas de diferentes idades, gênero e raça — são escancarados em Incidente em Antares, numa grande audácia do autor em colocar fim ao baile de máscaras e enfiar o dedo na ferida em plena Ditadura Militar.

Um livro sobre as muitas caras e sobre os muitos fingimentos dos atores sociais no Brasil que, para nossa grande tristeza, mantêm-se praticamente inalterados até os nossos dias. O retrato de um incidente que parece ser a regra em nosso país. Uma Antares belíssima, cheia de glórias e risos, mas também soterrada pela estupidez e violência daqueles que podem agir sem que a Lei, de fato, chegue a puni-los. Pelo menos no livro a morte tem a sua vingança. Na realidade, resta o vendaval que a cada espaço de tempo leva para longe a memória dos horrores de ontem. E lá está Antares de novo em suas briguinhas de quintal, em sua confecção de novas máscaras para o “novo momento“, para a “nova política“, para o “eterno país do futuro“… A triste sina da nação-mito que sonha com um eterno amanhã de glórias. Enquanto o hoje é mergulhado em fome, dor e sangue.

Incidente em Antares (Brasil, 1971)
Autor: Érico Veríssimo
Edição lida para esta crítica: Companhia das Letras (setembro de 2006)
496 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.