- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.
Assim como os jovens protagonistas de Industry deixaram para trás a precariedade de seus empregos quando foram efetivados na Pierpoint ao final da primeira temporada, a série como um todo deixou para trás os tiques narrativos que conservava e chega à completa maturidade em seu segundo ano, oferecendo uma passagem temporal interna que é igual à externa, com Harper Stern (Myha’la Herrold), Yasmin Kara-Hanani (Marisa Abela) e Robert Spearing (Harry Lawtey) como operadores de terceiro ano no cobiçado banco de investimento de Londres. Nas águas de teste do ano inaugural ficaram a tensão criada pelo destino imediato dos recém-formados e com ela toda e qualquer artificialidade narrativa que isso pode trazer e, também, a falta de desenvolvimento dos personagens coadjuvantes, com Eric Tao (Ken Leung), Rishi Ramdani (Sagar Radia) e até mesmo Kenny Kilbane (Conor MacNeill) ganhando destaque e até mesmo protagonismo no caso de Eric Tao, além da introdução de novos e importantes personagens para a temporada, notadamente o inseguro Daniel Van Deventer, conhecido como DVD (Alex Alomar Akpobome), que se torna elemento de conexão (e ameaça) entre a Pierpoint de Nova York e a de Londres, com a ameaça de uma das duas desaparecer em um mundo pós-COVID, ainda que ele, infelizmente, me parecça um “personagem de uso único” que é introduzido e descartado em apenas uma temporada, e a sedutoramente misteriosa Celeste Pacquet (Katrine De Candole), gestora de patrimônio da Pierpoint, que atrai Yasmin – de todo jeito – para seu departamento.
Mas a graduação da série não se dá apenas em razão do lado profissional da narrativa, que, vale dizer, continua lá, firme e forte, mas sim da exploração de camadas pessoais para cada personagem, finalmente trazendo a complexidade necessária para torná-los indivíduos realmente completos que vão além da ambição e perseguição do sucesso a qualquer custo. Os roteiros da temporada não quebram expectativas, porém. E isso é um aspecto muito positivo, já que não há tentativa de mudar radicalmente os personagens, de introduzir novos elementos que pegam o espectador de surpresa. Muito ao contrário, o que há é a evolução do que já existia, o que fica ainda mais evidente com os personagens que antes só funcionavam como arquétipos, como era o caso de Eric Tao, agora sendo esculpido e desenvolvido em detalhes pela narrativa precisa de Mickey Down e Konrad Kay e tornando-se tão importante quanto a trinca central, de certa forma representando o “fim de jogo”, o futuro daqueles jovens. No entanto, o lado familiar de Harper, Yasmin e Robert são abordados com vigor na temporada, com a primeira finalmente localizando o irmão em Berlim e chocando-se com algumas verdades duras, a segunda fazendo descobertas estarrecedoras sobre seu pai que a fazem repensar até mesmo que ela é e o último tendo seu passado traumático revirado com um reencontro frio com seu pai em Oxford.
E o melhor é que cada linha narrativa é espertamente costurada ao todo, jamais parecendo uma sidequest sem consequência para a história macro. Ações, aqui, têm consequências e, fico feliz em dizer, até mesmo as ações pretéritas, da primeira temporada, ecoam aqui, como é o caso da reincidência do comportamento inapropriado (para usar um eufemismo) da importante cliente Nicole Craig (Sarah Parish) que tenta com a temporariamente contratada Venetia Berens (Indy Lewis) o mesmo que tentou com Harper e que conseguiu com Robert, algo que acaba tragando Yasmin e até DVD para o imbróglio, cada um lidando com a situação de seu jeito. O mesmo pode ser tido da relação entre Yasmin e seu superior Kenny que é transportada da primeira temporada para a segunda com muita eficiência para reiterar o ponto do abuso de poder. A perpetuação das engrenagens de uma máquina avassaladora e influente é outro ponto positivo de Industry, que não doura a pílula e sequer tenta soluções mágicas. A manipulação é a palavra chave nesse mundo em que o lobo é o lobo do homem o tempo todo, algo que fica ironicamente evidente não apenas no ambiente da Pierpoint, o que é óbvio, mas também fora de lá, no emprego que Augustus “Gus” Sackey (David Jonsson) consegue com Aurore Adekunle (Faith Alabi), política que faz parte do comitê de saúde do governo e que é um lobo em pele de cordeiro capaz de um jogo muito bem jogado com visão ampla do tabuleiro e o uso inclemente de um inocente Gus, mesmo que, no final das contas, por mais importante que ele possa ser à temporada, tenha ficado aquela incômoda impressão de que Jonsson foi muito subutilizado.
Dentro da ciranda financeira – e o tema principal é a comoditização e privatização da saúde pública nas garras de gigantes do mercado – somos apresentados ao esquivo bilionário Jesse Bloom (Jay Duplass em uma atuação fascinante que parece mesclar uma série de personagens reais desse patamar de riqueza que conhecemos por aí) como a mais recente conquista de Harper em um trabalho quase detetivesco dela para transpor as barreiras que, de caça, torna-se o caçador, mostrando seus dentes na medida em que a temporada evolui para o jogo que furtivo e inclemente que acontece nos bastidores do mundo e que nos afeta como um tsunami, mesmo que não saibamos exatamente a causa para a chegada da gigantesca onda. A forma como os roteiros conectam Jesse a Harper e então o filho dele Leo (Sonny Poon Tip) com Gus para levar à esperta e diabólica reviravolta final é excelente, ainda que tenhamos que aceitar algumas conveniências aqui e ali da mesma maneira que todos os personagens acham que os fins sempre justificam os meios. E o mesmo vale para a conexão entre Harper e Eric, um se vendo no outro e um maquinando contra – às vezes a favor também – o outro para levar a série ao cliffhanger em que o passado de Harper retorna para mordê-la, cortesia de seu chefe e mentor que ela mesma mordera anteriormente sem dó, nem piedade.
Fazendo ótimo uso dos 10 minutos extas em média que cada um dos oito episódios ganhou, o segundo ano de Industry é televisão de primeira que mostra potencial para crescer ainda mais, realmente merecendo o destaque que a série vem vagarosamente angariando apesar de sua bem vinda recusa em reduzir o tom quase explícito de algumas cenas de sexo – elas precisam ser assim, dada a intensidade da vida desses jovens – e a maneira como não tem vergonha alguma em usar o jargão da indústria financeira como sua gíria, o que também reputo essencial, até porque não é algo difícil de entender pelo menos em linhas gerais. Com o desenvolvimento dos três personagens principais e a elevação de outros ao time central com o mesmo tipo de cuidado, a criação da dupla Down e Kay não parece ter pudor de chocar, pois esse mundo muito particular em que a série está inserida é, por natureza, chocante e estarrecedor, especialmente para quem está de fora dele e ainda mais especialmente para quem sofre em razão de decisões tomadas em escalões tão inacreditavelmente altos dessa perversa engrenagem privada que afeta sobremaneira a engrenagem pública e, sim, molda o mundo em que vivemos.
Industry – 2ª Temporada (Idem – EUA/Reino Unido, de 1º de agosto a 19 de setembro de 2022)
Criação: Mickey Down, Konrad Kay
Direção: Birgitte Stærmose, Isabella Eklöf, Caleb Femi
Roteiro: Mickey Down, Konrad Kay, Matthew Barry, Zara Meerza, Joseph Charlton
Elenco: Myha’la Herrold, Marisa Abela, Harry Lawtey, David Jonsson, Ken Leung, Sarah Parish, Andrew Buchan, Sagar Radia, Alex Alomar Akpobome, Katrine De Candole, Indy Lewis, Jay Duplass, Adam Levy, Sonny Poon Tip, Faith Alabi, Caoilfhionn Dunne, Conor MacNeill
Duração: 469 min. (oito episódios)
