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Crítica | Industry – 3ª Temporada

Todo mundo tem um preço.

por Ritter Fan
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  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas. 

Como afirmei na crítica da primeira temporada de Industry, o episódio inaugural da série é uma aula magna de como fazer episódios inaugurais de série. É uma sinfonia perfeita que apresenta os personagens e suas motivações, contextualiza os aspectos mais importantes deles e do lugar onde trabalham, o todo poderoso banco de investimentos Pierpoint & Co., e coloca todas as peças no tabuleiro para o jogo começar, isso sem recorrer a diálogos didáticos e sem atenuar o uso do jargão própria da área. Apesar de ter considerado a segunda temporada melhor do que a primeira como um todo, esse primeiro episódio não teve rival. Ou pelo menos não teve até eu conferir a terceira temporada, ainda que a comparação seja injusta, já que um episódio de começo de série é, para mim, muito mais complexo e desafiador do que um episódio de começo de temporada.

No entanto, assim como aconteceu com Iniciação, tive uma experiência que poderia chamar até de transcendental com Deus Ajuda Quem Cedo Madruga (o original, Il Mattino ha L’Oro in Bocca, que significa a mesma coisa, tem muito mais significado e até um esperto jogo de palavras – “ouro na boca” – no contexto do episódio por ser em italiano, pelo que a tradução não me pareceu exatamente necessária), pois, novamente, senti-me diante de outra obra-prima e uma perfeita maneira de se começar uma temporada, algo que se materializa não só com um salto temporal semelhante ao anterior, como não fazendo como séries “normais” fazem, que é simplesmente dar continuidade direta ao que veio antes. O roteiro de Mickey Down e Konrad Kay, dirigido por Isabella Eklöf, coloca o espectador diante de uma quase confusa – pelo frenesi e horror todo – sequência de Yasmin (Marisa Abela) vendo seu pai transando com uma jovem garçonete grávida em seu barco há algumas semanas que leva a história para uma narrativa de escândalo de fraude financeira no presente que faz de Yasmin o centro das atenções de paparazzi em razão do que parece ser a fuga de seu pai e, sem perder tempo, em uma narrativa sobre um IPO particularmente rápido e aparentemente supervalorizado da empresa de energia verde Lumi que a Pierpoint timoneia, tendo como figura central o bilionário Henry Muck (Kit Harington) que tanto Yasmin quanto Robert (Harry Lawtey) assessoram, com Eric Tao (Ken Leung) sendo finalmente alçado à sócio do banco.

O que esse episódio faz, muito inteligentemente, como Iniciação fez, é construir todo um novo status quo que não exatamente decorre do final da temporada anterior (e não, isso não é de forma alguma demérito, já que existe um esforço grande e muito bem vindo de tornar autossuficiente cada temporada) e que não pega na mão do espectador para explicar tudo em detalhes, pois não tem nada mais irritante do que isso. No entanto, quando ele acabou e, no dia seguinte, comecei o segundo e cheguei ao fim dele, reparei que mais uma vez tinha visto uma obra-prima. Tentei o terceiro e bingo, lá estava a obra-prima novamente, revelando que eu estava diante de uma verdadeira trilogia de episódios inaugurais que competem bravamente entre si como alguns dos melhores que já vi em séries e muito raramente um seguido do outro. Entre a introdução da inteligente nova operadora Sweetpea Golightly (Miriam Petche) que é também influencer no TikTok e, pasmem (eu fiquei pasmado!), dona de uma conta no OnlyFans que ela não esconde de ninguém e do nervoso novo operador Anraj Chabra (Irfan Shamji) ambos inicialmente parecendo personagens “de enfeite”, mas que vão aos poucos cavando seus respectivos espaços e as maquinações de Harper (Myha’la Herrold), agora uma mera secretária de luxo na FutureDawn, para novamente abrir espaço para sua ambição, há muito material para ser trabalhado, com o foco, nesse começo, permanecendo nos comentários ácidos sobre a chamada “moda” das posturas ambiental e socialmente responsáveis das corporações que, na verdade, é muito mais um comentário sobre a monetização daquilo que realmente deveria ser algo nobre, e que permanece presente na narrativa da temporada como um todo. E isso sem falar na relação edipiana de Robert com Nicole (Sarah Parish) que leva à chocante morte da bilionária por overdose bem ao seu lado, levando-o, aturdido, a dizer para Eric que “perdeu um cliente” quando seu chefe pergunta o que aconteceu, ganhando como resposta algo como um “só isso, besteira”, um diálogo que resume tudo o que Industry quer dizer.

Mas há muito o que desempacotar só nesses três primeiros episódios, com a certeira escalação de Kit Harington como um bilionário da nobreza britânica que parece ter o coração no lugar certo e que realmente quer fazer o que há de melhor para o povo. Digo que a escalação foi certeira porque o ator é muito limitado, para não dizer ruim mesmo, e em nenhum momento seu Henry Muck convence sequer por um  segundo que ele não é mais um ricaço querendo embolsar dinheiro em cima de uma iniciativa que, se levada a sério, tenderia a reverter parte do dano causado por nós mesmos ao longo dos últimos 100 e tantos anos. Trata-se de um personagem que é quase uma paródia, ainda que, no mundo real, personagens que antes considerávamos como paródia mostraram-se como muito verdadeiros, infelizmente. No lado de Yasmin, ao contrário, Marisa Abela dá um show ao nos convencer da suprema ambiguidade da personagem que é inclementemente perseguida por fotógrafos e que tem sua imagem jogada na lata do lixo e sua vida virada do avesso em razão de um pai que, como descobrimos ao longo dos episódios, mais precisamente no último, efetivamente abusou dela quando criança. Mas Yasmin não se conhece e não quer se conhecer. Quando a personagem se aproxima dessa evolução, ela conscientemente retrocede, como é negar o amor de Robert e acabar com Henry por pura comodidade ou, mais cruelmente ainda, demitir sua secretária particular que era a mulher grávida que ela viu transando com o pai depois que a jovem oferece todo o seu apoio e desnuda seu passado.

Curiosamente, Harper fica em uma espécie de segundo plano, mas não como coadjuvante efetiva e sim como uma protagonista de tempo de tela reduzido que tem participações fundamentais ao longo da temporada a partir do momento em que ela força a construção de um fundo privado com Petra Koenig (Sarah Goldberg), sócia de Anna Gearing (Elena Saurel), em uma estratégia que trai a FutureDawn e que precipita o fim da Pierpoint. Harper é o exato oposto de Yasmin: ela sabe muito bem o que é o que ela pretende fazer, talvez a mais honestamente desonesta personagem de toda a série, já que é a única que sempre aceita responsabilidade pelo que faz. E a forma como a temporada lida com ela, criando conexões, estabelecendo uma rede de informações e fazendo tudo aquilo que a beneficia pessoalmente, doa a quem doer, a transforma em uma fantástica vilã em uma série que só tem vilões, por assim dizer, ou, pelo menos, uma multitude de jovens personagens com grande potencial que preferem mergulhar de cabeça na sujeira de um jogo financeiro sem escrúpulos ou qualquer resquício de moralidade. Harper é a personagem por quem odiamos torcer, mas que não conseguimos simplesmente não torcer.

Espetacularmente, porém, depois da trilogia inicial de episódios da temporada, eis que vem Natal com Neve, focado exclusivamente em Rishi Ramdani (Sagar Radia), uma escolha da produção que me deixou coçando a cabeça até eu me entregar por completo ao furacão autodestrutivo que vi passar na tela e que ganha uma finalização, no derradeiro episódio da temporada, que, confesso, não gostei muito, pois o tiro na cabeça de sua esposa simplesmente não combina com a série. Seja como for, considero esse um detalhe – chocante, mas um detalhe mesmo assim – já que a abordagem de Rishi no quarto episódio não só abriu espaço para o ator mostrar a que veio, como conta uma história de vício e irresponsabilidade que é melhor do que muitos filmes sobre o assunto, o que contribui para trazer camadas humanas, ainda que podres, para um personagem que começou, na primeira temporada, quase como um figurante em uma narrativa que é a versão radical de tudo o que vemos todos os demais passando, de uma forma ou de outra. Nada mal para uma série que parecia ser sobre jovens tentando vencer na vida, mas que diversificou seu portifólio – como diriam os financistas – e abraçou de A a Z sem perder ritmo, chegando até mesmo ao alto escalão da Pierpoint.

Os dois episódios seguintes, Homem de Negócios e Nikki Beach, ou Muitos Jeitos de Perder, ao mesmo tempo vêm para criar um epílogo acridoce para a história do IPO da Lumi, como para acrescentar camadas ao passado recente de Yasmin e o que aconteceu no barco batizado com seu nome. É podridão em cima de podridão, de um lado um jogo doente que mistura o público e o privado como vemos acontecer todos os dias ao nosso redor (e que está acontecendo com força agora aqui no Brasil com o escândalo envolvendo um certo banco) e, de outro, uma espécie de retirada de máscara de Yasmin. E isso sem falar no aprofundamento do jogo implacável de Harper que, obtendo informação confidencial no banheiro da Pierpoint, aponta suas armas ao seu antigo empregador em uma cruzada que é parte para ganhar dinheiro e parte como vingança ou, talvez melhor dizendo, ganhar dinheiro vingando-se, que provavelmente tem um gosto especial para pessoas como ela.

Os únicos dois episódios não dirigidos por profissionais da área são, não coincidentemente, os únicos dois que considero menos do que perfeitos. Os criadores da série, não satisfeitos em comandar a produção e escrever sete dos oito roteiros, resolveram arregaçar as mangas para também dirigir o penúltimo e último capítulos da temporada e a mistura de acumulação de cargos e inexperiência na cadeira se fizeram sentir no ritmo excessivamente lento para o fechamento da história. Mas não se enganem, pois são dois ótimos roteiros, com atuações excepcionais, especialmente de Ken Leung que vive Eric também fazendo seu jogo, só que no alto escalão da Pierpoint, que, porém, tendem, por vezes, a caminhar de lado, a tergiversar quando deveriam usar o taco de beisebol do personagem com todo o vigor. Todas as linhas narrativas ganham finais digníssimos, porém, com exceção do já citado assassinato da esposa de Rishi, valendo especial destaque para o casal-que-não-é-casal Yasmin e Robert, com Robert, talvez o único personagem por quem era possível nutrir simpatia, perdendo o último resquício de sua moralidade ao basicamente fazer para a nova empresa em que começa a trabalhar aquilo que a Pierpoint fez para a Lumi. Mas vamos combinar que ele “perdeu” uma cliente e também Yasmin, que era quem mais se aproximava de seu amor em uma mesma temporada, não é mesmo?

Se a série acabasse aqui, ela acabaria muito bem. Sei bem que há uma quarta temporada recém-encerrada e uma quinta que será a derradeira (cinco temporadas é sempre uma quantidade boa de temporadas, diria), mas quero apenas dizer que o terceiro ano acaba tão bem, mas tão bem que ele poderia muito bem ser o final da criação de Down e Kay, pois tudo o que precisa ficar amarrado fica amarrado e tudo o que pode ficar aberto ou ambíguo fica dessa forma, já que não se deve esperar finais definitivos para todos em séries de cunho realista. Industry chega ao seu ponto alto aqui – se é o mais alto, ainda não posso dizer – e se aproxima do tipo de excelência que sua irmã mais velha Succession teve. No final das contas, talvez os doentios e degenerados sejamos nós, que vemos e gostamos de uma série que mostra o pior da humanidade e que nós sabemos ser desconfortavelmente muito próxima da realidade…

Industry – 3ª Temporada (Idem – EUA/Reino Unido, de 11 de agosto a 29 de setembro de 2024)
Criação: Mickey Down, Konrad Kay
Direção: Isabella Eklöf, Zoé Wittock, Mickey Down, Konrad Kay
Roteiro: Mickey Down, Konrad Kay, Joseph Charlton
Elenco: Myha’la Herrold, Marisa Abela, Harry Lawtey, Ken Leung, Kit Harington, Sagar Radia, Indy Lewis, Trevor White, Adam Levy, Faith Alabi, Elena Saurel, Irfan Shamji, Sarah Goldberg, Miriam Petche, Andrew Havill, Roger Barclay, Fiona Button, Eliot Salt, Georgina Rich, Tom Stourton, Fady Elsayed, Gustav Lindh, Joel Kim Booster, Asim Chaudhry, Harry Hadden-Paton, Conor MacNeill, Sarah Parish
Duração: 479 min. (oito episódios)

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