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Crítica | Industry – 4ª Temporada

Novo ano, nova abordagem, novos personagens, mesma podridão.

por Ritter Fan
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  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas. 

Industry acabou na magnífica terceira temporada. Não, calma, melhor refazer a frase: Industry acabou como a conhecíamos na temporada anterior, pois o quarto ano é uma outra série bem diferente nos mais diversos sentidos que mantém apenas dois de seus protagonistas originais – Harper e Yasmin – e um coadjuvante da primeira temporada elevado a protagonista na segunda, Eric Tao, que passa a abordar o podre mundo das finanças a partir das entranhas de uma corporação e não mais pelo viés de um banco de investimento ou de gestores de fundos milionários. É uma virada de chave que era definitivamente necessária para a série continuar sem se repetir, especialmente depois que as três primeiras temporadas fecharam o que podemos chamar de um arco macro, mas que carrega consigo o ônus de um quase recomeço, de uma rearrumação de tabuleiro com o jogo em andamento que pode ter o condão de causar espécie até mesmo aos espectadores mais vidrados na criação de Mickey Down e Konrad Kay. É, em resumo, uma escolha ousada que, apesar de não resultar em uma temporada no nível estratosférico do ano anterior, consegue continuar sendo televisão do mais alto gabarito.

O primeiro episódio da temporada, revelada como sendo a penúltima, não tem a qualidade do que vimos na primeira e na terceira temporada, muito porque a direção ficou por conta dos showrunners que, como mencionei na crítica anterior, não tem a bagagem necessária nessa cadeira para comandar um início tão disruptivo e, por isso mesmo, tão importante. Iniciando a história com foco em dois personagens novos, a acompanhante transformada em secretária executiva da Tender Hayley Clay (Kiernan Shipka, que eu quase não acreditei ser a atriz que conheci como Sally, a filha de Don Draper em Mad Men) e o jornalista James Dycker (Charlie Heaton, um dos atores que mais naturalmente consegue encarnar uma pessoa que não toma banho há semanas) encontrando-se não sem querer em uma boate, tudo parece ser feito milimetricamente para o espectador duvidar que está realmente assistindo Industry, o que é uma jogada ótima, mas que acaba se perdendo quando a história efetivamente mergulha na empresa intermediadora de pagamentos online que é o foco da temporada, com o derramamento quase sufocante de uma quantidade enorme de informações novas bem no estilo não-didático da série, mas que, aqui, acaba gerando confusão.

Tudo bem que, na medida em que o episódio inaugural avança e vemos Harper (Myha’la Herrold) gerindo um fundo focado em shorts na Mostyn Asset Management ao lado de Sweetpea Golightly (Miriam Petche) e de Kwabena Bannerman (Toheeb Jimoh), um novo jovem personagem que faz uma trinca inseparável com as duas durante a temporada, e percebemos sua insatisfação com a constante gestão superior que ela sofre, a ambientação mais familiar vai aos poucos abrindo espaço para a aclimatação, algo que fica ainda melhor com a entrada (e, depois, poderosa saída) de Rishi Ramdani (Sagar Radia) como um “extrator” de informações confidenciais para Harper e de Eric (Ken Leung), aposentado, mas muito claramente querendo voltar à ativa, o que não demora a acontecer com o canto da sereia da pupila que ele traiu e que lhe deu uma enorme rasteira como vingança e que é a única pessoa por quem ele sente orgulho, o que é por si só um horror considerando que ele tem duas filhas. Em paralelo, vemos Yasmin (Marisa Abela)) em sua função de “esposa de lorde inglês” dando uma festa em que Harper conhece o enigmático Whitney Halberstram (Max Minghella) que se revela como o grande vilão em uma série que, como sabemos, só tem vilões. É um começo frenético, mas bagunçado, que passa a sensação de que não há nada em que o espectador possa se segurar firmemente, mas, por outro lado, é inegável que, mesmo de maneira cambaleante, Down e Kay conseguem abrir as comportas para o que querem fazer.

E o que eles querem fazer? Por um lado, a resposta é muito simples, pois eles continuam a jornada da podridão humana dentro do jogo financeiro em que nenhuma das partes envolvidas – empresas privadas, bancos, gestores e governo – é inocente e que a palavra de ordem é manipulação, algo que é aumentado ao volume 11 na medida em que a temporada progride, com os roteiros dando uma aula sinistra e angustiante de como “nada” gera dinheiro às expensas da moralidade dos manipuladores e da vida dos manipulados. A diferença, aqui, é apenas o de enfoque e é quando percebemos isso que a resposta à pergunta que fiz começa a ficar um pouco mais complicada. Não só vemos como o estoico Halberstram joga o seu jogo de longo prazo que, mais tarde, descobrimos ser parte de uma rede de espionagem russa(!!!), como também vemos Harper e seu novo fundo SternTao mergulhar de cabeça em espionagem financeira, com direito à viagem investigativa até Acra, em Gana, na tentativa de confirmar a fraude que ela sabe que a Tender é. No entanto, Harper obviamente não age pela bondade de seu coração, mas sim única e exclusivamente pelo vil metal. Sua missão de derrubar as ações da Tender não tem relação com o bem que isso pode fazer às pessoas, mas sim aos dólares e libras que ela ganhará com isso.

Para complicar ainda mais a questão, há todo o lado jornalístico da narrativa que, claro, é naturalmente chegado à investigação e que tem objetivo semelhante ao de Harper, pelo que Dycker acaba sendo cooptado por ela. E, como se isso não bastasse, há o foco – já anunciado no ótimo segundo episódio que é integralmente dedicado a isso – em Sir Henry Muck (Kit Harington que se liberta de suas limitações dramáticas e entrega uma baita atuação do começo ao fim), sua depressão, pensamentos suicidas que se conectam com o suicídio de seu pai aos 40 anos e a tentativa de Yasmin de fazer seu marido sair desse buraco sem fundo encontrando para ele um objetivo de vida que, claro, acaba sendo justamente a Tender, em que ele entra como CEO no mesmo espírito de “legimitidade inocente” de quando ele tentou fazer o IPO da Lumini, mas que acaba não passando de um peão na mão do misterioso Halberstram. Talvez sejam muitos assuntos aparentemente díspares para serem abordados em uma temporada só, mas a grande verdade é que a convergência não demora a acontecer, com direito até mesmo a espaço para Down e Kay polvilharem a ameaça do neonazismo na narrativa, algo que vem insidiosamente impregnando a história até desaguar no jantar patrocinado por Yasmin que deixa Harper horrorizada – genuinamente horrorizada – no destruidor episódio final.

O quarto ano de Industry, talvez o que mais recorra à musicalidade pop para colorir sua narrativa, o que, confesso, não gosto muito, é uma espécie de ralo audiovisual para aonde congrega toda a sujeira da humanidade em quantidade tão grande que o cano entope e nada mais desce. E eu afirmo isso não negativamente, vale dizer. Muito ao contrário até. Pode ser que, no frigir dos ovos, a temporada como um todo não consiga manejar tão bem os assuntos quanto a anterior – a comparação chega a ser até injusta, porém -, mas a corajosa troca de ponto de vista, a adição de assuntos na crista da modernidade como a pornografia online como parte indelével da vida daqueles que nasceram com ela amplamente disponível, os meios digitais de pagamento como plataformas de fraudes gigantescas e toda a máquina pública sendo livremente usada pela iniciativa privada para seu bel prazer de forma que o dinheiro criado a partir do nada possa ser concentrado nas mãos de quem já tem tudo, resultam em uma jornada hipnotizante e extenuante que ressignifica Harper e Yasmin e abre ainda mais nossos olhos para o mundo à nossa volta. Bem… abre nossos olhos se, claro, quisermos enxergar… Seja como for, que venha o último ano da série!

Industry – 4ª Temporada (Idem – EUA/Reino Unido, de 11 de janeiro a 1º de março de 2026)
Criação: Mickey Down, Konrad Kay
Direção: Mickey Down, Konrad Kay, Michelle Savill, Luke Snellin
Roteiro: Mickey Down, Konrad Kay, Joseph Charlton
Elenco: Myha’la Herrold, Marisa Abela, Ken Leung, Kit Harington, Miriam Petche, Toheeb Jimoh, Charlie Heaton, Max Minghella, Andrew Havill, Sagar Radia, Kiernan Shipka, Kal Penn, Roger Barclay, Conor MacNeill, Adam Levy, Irfan Shamji, Edward Holcroft, Amy James-Kelly, Claire Forlani, Jack Farthing, Susanne Wuest, Stephen Campbell Moore, Pip Torrens
Duração: 475 min. (oito episódios)

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