Crítica | Infiltrado na Klan, de Ron Stallworth

Conciso e guiado por um relato desconcertante, Infiltrado na Klan é um livro de escrita simples, construção calculada de tensão e boa organização dos relatos memorialísticos narrados por meio de um discurso humorado e crítico, sem deixar de perder a sua seriedade. O projeto editorial da versão brasileira é do grupo SEOMAN, por meio do selo Pensamento Cultrix, editado por Denise de Carvalho Rocha em 207 páginas, traduzido por Jacqueline Damásio Valpassos. Na linha das publicações que inspiraram filmes, o livro traz o pôster oficial da produção de Spike Lee, estampado na capa provavelmente para atrair mais leitores. Com fotos de arquivo de Ron Stallworth no centro, impressas em papel especial, Infiltrado na Klan segue o padrão das publicações de caráter biográfico, com imagens que reforçam as afirmações explanadas pela memória do escritor, território repleto de lembranças narradas com humor, mas que abordam uma história séria demarcada pelo horror do racismo ainda pungente na contemporaneidade.

Além da nota introdutória do autor, o livro traz 11 capítulos, um epílogo e os agradecimentos. Logo na nota introdutória, Ron Stallworth demonstra como os membros da Klu Klux Klan não enxergam as pessoas negras como “humanos”, tomados pelo que ele vai chamar mais adiante de ódio racial. Antes de adentrar o primeiro capítulo, duas citações ilustram o texto em tom de epígrafe. A primeira, de Robert Kennedy, diz que “cada vez que um homem defende um ideal, ou age para melhorar o destino dos outros, ou ataca a injustiça, ele transmite uma pequena onda de esperança”. Na segunda, encorajadora e pertinente para as discussões do livro, é da escritora Alice Walker, firme ao afirmar que “a maneira mais comum de pessoas desistirem de sua força é pensando que não têm nenhuma”. Robert Kennedy, irmão mais novo de JFK, conhecido por Bobby Kennedy, teve contribuição no que tange às lutas pelos direitos civis dos afro-americanos. Walker, escritora mais reconhecida pelo romance A Cor Púrpura, negra e ativista, contribuiu para a “causa” do seu povo, sendo então, excelente escolha para ilustrar a passagem do leitor pelo tenebroso caso narrado ao longo do livro.

Em Um Telefonema da Klan, o autor narra o começo da jornada, em outubro de 1978. Sem figuras de linguagem desnecessárias, mas com um texto coeso, direto e firme, ele nos conta que as suas funções enquanto primeiro detetive negro da história do Departamento de Polícia de Colorado Springs era fazer uma análise dos jornais diários e mapear possíveis atividades subversivas que pediam investigação. A “segurança e o bem-estar dos cidadãos” sempre em primeiro lugar, reitera, alegando que o anúncio responsável a saltar-lhe os olhos no primeiro instante foi um discreto chamado para pessoas interessadas em ingressar na KKK.  Inicialmente acreditava ser algo para pregar peças, uma brincadeira cretina em torno do racismo, por isso enviou o contato, sem esperar que logo mais, recebesse uma ligação. Na linha, o responsável descrevia a necessidade de trazer mais integrantes para o grupo, principalmente por conta da proximidade do Natal, época que se fazia necessário organizar um “natal branco”, sem “crioulos”, feito para gente branca carente. Outra tarefa da agenda era queimar quatro cruzes, tendo em vista “anunciar a presença” dos integrantes da Klan.

No segundo capítulo, Jackie Robson e os Panteras Negras, Ron Stallworth se descreve diante do leitor, ao contar que desde jovem nunca teve interesse em ser policial, ao contrário, pensava na carreira de professor de Educação Física. Numa conversa em seu departamento, os superiores hierárquicos fazem algumas entrevistas com perguntas bem peculiares e politicamente incorretas se pensadas no contemporâneo, num reforço das possíveis situações racistas que ele sofreria por trabalhar naquele espaço e ser pioneiro em seu posto, no que diz respeito às origens. Leia-se: o primeiro negro daquele departamento repleto de gente branca preconceituosa. Ainda nesse capítulo, somos apresentados ao dublê de Stallworth na futura missão contra a Klan, conhecemos em detalhes a pequena batalha do agente por um uniforme que desse conta do seu visual, em especial, capilar, pois o quepe não se encaixava em sua cabeça por conta do estilo de seu penteado politizado, além da sua cobertura policial para a visita de Stokely Carmichael, líder dos Panteras Negras, mais tarde conhecido como Kwame Ture, um ativista contemporâneo à Malcolm X e Martin Luther King Jr.

Em Eu Sou a Voz, Você é o Rosto, Stallworth narra como fez tudo errado em seus primeiros passos da investigação. Utilizou o nome verdadeiro, não foi cuidadoso com outros dados, em suma, cometeu as trapalhadas típicas de um iniciante. É quando o autor também retrata um diálogo preconceituoso sobre os estereótipos da maneira como um negro “fala”, proveniente no imaginário dos brancos por conta dos filmes e outros materiais midiáticos que reforçavam essas imagens cristalizadas, tratadas por Homi Bhabha, filósofo dos Estudos Culturais, como “repetições demoníacas”, em seu obrigatório e elucidativo O Local da Cultura. Terceiro capítulo do livro, é o trecho que concentra-se nos preparativos para o primeiro encontro do dublê de Stallworth, infiltrado no perigoso âmbito da Klan, preparativos para Meu Novo Amigo David, capítulo seguinte.

O registro biográfico de Stallworth trabalha bem os elementos de tensão, em especial, na condução de Chuck no recinto para encontrar Ken, intermediário na cidade para a chegada de David Duke. Com um transmissor que só emite, mas não recebe mensagens, o colaborador passou por momentos de apreensão num ambiente a ser tateado, sem saber necessariamente as probabilidades de conflito ou qualquer ameaça oriunda de “não se sabe de onde”. Constantemente tratados como A Organização ou A Causa, os tema da Klan é debatido em diversas perspectivas. Discute-se a presença midiática do grupo, a ameaça dos “crioulos”, pessoas que segundo Ken, “roubam das pessoas brancas no Natal”, tal como os judeus, “povo que enxerga na época o momento ideal para ganhar dinheiro em cima da população branca”, numa explicação racista para o natal exclusivo para a sua “gente”. Há, ainda, nas observações de Stallworth, a afirmação de David Duke, o Grande Mago da KKK, sobre o separatismo e a superioridade dos brancos. Em seus discursos, ele pregava que os negros deveriam voltar para a África, ou então, não se importaria de dividir o país, mas manter a convivência dos povos completamente separadas, sem sequer imaginar casamentos inter-raciais e afins.

Em o Bombeiro e o Fogo (Do Inferno), Stallworth conta que Fred Wilkens, colaborador e Grande Dragão da KKK no Colorado tinha um histórico heroico por salvar uma pessoa negra de um incêndio, o que cobria a sua aura com um manto de bondade midiática. Em seus discursos, tratava sempre da “supremacia branca”, da “separação das raças para o benefício mútuo” e dos problemas acerca da população negra na sociedade branca, haja vista a necessidade de supostamente desnivelar a educação para atendê-los, além da maior taxa de criminalidade, deterioração dos valores brancos e emissão dos valores recolhidos em impostos para atender os programas de assistência social, em relatos que lidos atualmente, nos remetem ao Brasil de 2019. Definindo-se como alguém que não odeia os demais, mas “ama a sua própria raça”, Fred Wilkens é personagem-chave desta trajetória insana no mundo do preconceito retratado pelo livro.

Próximo ao desfecho elucidativo, Stallworth conta as motivações dos trajes utilizados pelos membros da Klan, os capuzes pontiagudos com furos nos olhos. Os escravos recém-libertos, ainda com seus laços supersticiosos, eram assustados por aquelas imagens que se passavam por espíritos dos brancos mortos nos combates da Guerra Civil Americana, numa aplicação de baixo nível do que podemos chamar de terrorismo doméstico. Em algumas situações, os cavalos também eram cobertos com mantos brancos, para aumentar ainda mais a força da representação macabra. A queima das cruzes, também parte do esquema ritualístico, era uma ação dedicada ao processo de reiteração dos ideais e da fé cristã.

O sexto capítulo, intitulado Parte da Nossa Posse, traz Stallworth diante de uma pesquisa sobre a presença da Klan como grupo doutrinador em penitenciárias, além de uma radiografia da Posse Comitatus, grupo com ideias que coadunavam com os princípios da KKK, mas que trafegavam por caminhos ligados às ações violentas. Espécie de milícia, os membros do grupo acreditavam piamente na ZOG, sigla em inglês para o Governo de Ocupação Sionista, uma conspiração judaica que supostamente comandava os Estados Unidos na época, algo parecido com a paranoia em torno da URSAL, termo utilizado nos debates entre os presidenciáveis nas eleições brasileiras em 2018. Crentes na presença demoníaca dos judeus a comandar o país nos bastidores da política, os membros da “Posse” eram pessoas guiadas cegamente pelo ódio, sempre armados e na defensiva, indo de encontro aos que confrontavam os seus ideais.

É também o capítulo de análise do impacto de O Nascimento de Uma Nação, clássico de 1915 lançado pelo cineasta D. W. Griffith, produção tratada como uma das responsáveis por reforçar o poder da Klan no imaginário popular das primeiras décadas do século XX, narrativa exibida constantemente nas reuniões e rituais do grupo. Filme com potencial propagandístico para o grupo, O Nascimento de Uma Nação é citado diversas vezes nos capítulos seguintes, pois era um material que se fazia presente no processo de doutrinação do ódio e do preconceito. Há, num determinado trecho, a construção de elementos de tensão que provavelmente ajudaram Spike Lee na construção de sua narrativa, tal como o trecho em que um dos envolvidos na investigação assina incorretamente um documento de filiação (com o seu nome verdadeiro) e quase não consegue eliminar a “prova do crime” diante do representante da Klan, situação que colocaria todo o investimento até então a se perder.

No sétimo capítulo, KKKolorado, Ron Stallworth é convidado a participar da cerimônia de queima das cruzes, como já sabemos, símbolo que representa a presença da Klan, ato que nas palavras dos seus seguidores, “se trata de uma experiência religiosa profundamente comovente”. Intrigado com a sua investigação, o nosso narrador personagem revela um agente cheio de boas histórias que teria participado da captura e resolução do aterrador caso de assassinato envolvendo ativistas pelos direitos civis, mortos no Mississipi, em 1964, trama que inspirou o filme Mississipi em Chamas, de Alan Parker. Dentre outros fatos, esse contato o levou a outro contato que por sua vez, concedeu-lhe um dossiê repleto de dados históricos da KKK, inclusive um curioso envolvendo Benjamin Stapleton, prefeito de Denver entre 1923 e 1931. Conhecido por ser o homem que encabeçou o audacioso projeto do Aeroporto Municipal de Denver, espaço que depois teve o seu nome modificado, em homenagem ao político, Stapleton era um influente representante da Klan no local e as ressonâncias de suas ações eram tão vastas que em determinados documentos, o nome próprio “Colorado” era grafada com “K”.

Em Iniciação, Stallworth recebe é incumbido de ajudar no carregamento do material para a produção das cruzes que serão queimadas, inclusive uma com cerca de nove metros, criada para sublinhar a presença da Klan em Denver. Ao passo que avança em seu oitavo capítulo, o autor desfere golpes fortíssimos aos membros da KKK, comparados ao personagem Dennis, O Pimentinha, tamanha a postura infantil de algumas ações oriundas de pessoas adultas. É o trecho do livro onde o autor-personagem narra com humor a chegada do seu cartão de membro da Klan, documento que no verso trazia seis itens do Código Pessoal, dentre eles, “trabalhar incansavelmente pela preservação, proteção e avanço da raça branca”, “manter em segredo todos os membros e rituais da Klan” e “nunca discutir assuntos da Klan com qualquer policial à paisana em nível estadual, local ou nacional”, esse último, lido à gargalhadas junto ao colega de departamento, haja vista a ironia da situação.

No tenso e divertido nono capítulo, Duke do Colorado, somos apresentados ao episódio da fotografia que Ron Stallworth tira praticamente à força com o Mago Duke, mesmo contra à sua vontade, num episódio hilariante envolvendo o disfarçado Chuck. É um trecho importante do livro, pois o capítulo também fala sobre George Rockwell, um veterano da Segunda Guerra que tinha ideias próximas com a KKK e também estava presente na visita do Grande Mago, personagem que de grande não tinha nada, haja vista o nível intelectual baixíssimo. Ron Stallworth critica as contradições de gente como Rockwell, homem estadunidense com ideias nacionalistas, mas que simpatiza com a linha de pensamento nazista de Adolf Hitler, um inimigo de sua nação.

A Fortaleza das Montanhas Rochosas, Ron Stallworth conta como se sentiu uma criança ao visitar uma loja de doces depois que um membro de seu departamento o levou até outro representante de ordem nacional, preocupado com a presença de determinados nomes da lista de envolvidos na Klan. A visita ao NORAD, setor parte do Comando de Defesa Aeroespacial Estadunidense. Lá, sem saber exatamente o que aconteceria, Stallworth viveu momentos de tensão, mas depois percebeu que fora convocado apenas para prestar declarações.

Em Por Água Abaixo, Ron Stallworth é mais uma vez escalado para ser o guarda-costas de uma visita importante em Colorado Springs. Ele foi incumbido de fiscalizar possíveis ameaças ao Dr. Ralph David Abernathy, homem conhecido por ser o braço direito de Martin Luther King Jr. A sua visita à cidade envolvia o julgamento de um jovem de 15 anos acusado de matar o homem branco em sua caminhonete enquanto voltava para casa após a jornada de trabalho. De acordo com os manifestantes da Igreja Episcopal, o julgamento do rapaz como adulto. A questão que incomodou Stallworth é que o jovem alegou ter matado o homem apenas para saber como seria tirar a vida de alguém. Não era legítima defesa, tampouco ódio por qualquer outra razão. Indignado, revelou discretamente os planos da Igreja, interessadas em usar a presença de Abernathy para uma causa sem a devida justificativa, situação que causou problemas na relação do policial entre alguns pares, inclusive a sua tia, revoltada por conta do sobrinho dedo-duro.

O Epílogo fecha as cortinas de uma sedutora história, interrompida em abril de 1979. Compreendemos que seria bem mais interessante dar continuidade, mas Ron Stallworth sequer sabia como poderia continuar a enganar o Grande Duke e seus seguidores, numa situação que talvez se tornasse insustentável futuramente. Como ele apontou, gostaria de ter feito mais, no entanto, o fato de ter interferido no terrorismo doméstico da Klan já havia sido um passo bastante avançado em sua postura enquanto cidadão negro politizado.

Ao longo do percurso de leitura e ao passo que encerramos a leitura, percebemos como ainda é muito comum a presença de pessoas que acreditam piamente na supremacia da raça branca, em detrimento das demais, ainda pior, tentando constantemente justificar algo que é humanamente sem justificativa. Após o desfecho da aventureira investigação, Ron Stallworth manteve sigilo sobre todos os procedimentos, tendo em vista proteger a sua identidade e integridade. Apenas em 2006, durante uma entrevista concedida a um jornal, contou em detalhes a história e alegou que havia gente das Forças Armadas envolvidas em ações da Klan. Assustador, não é mesmo? Foi depois da confirmação de sua aposentadoria que Stallworth decidiu divulgar a história, estruturada em 2014 para o formato livro, material que chegou até o cineasta Jordan Peele, ciente do conteúdo ideal para alguém do perfil de Spike Lee.

Diante da análise, podemos observar que Infiltrado na Klan é um livro com potencial para transitar entre outros suportes narrativos, tal como o cinema e a televisão. Spike Lee, ganhador do Oscar na categoria Melhor Roteiro Adaptado. Assim, o cineasta interpretou o livro memorialístico de Ron Stallworth e apresentou uma história inesquecível sobre temas que gostaríamos de esquecer, mas que a mídia constantemente nos reforça a presença gritante, às vezes, a onipresença velada, gravitantes em torno de um tema hediondamente atual. Com adição de personagens e ajustes para a concepção da trama no suporte audiovisual, Infiltrado na Klan é um livro que teve o privilégio de ser transformado num filme politicamente inspirador.

Infiltrado na Klan (Estados Unidos, 2014)
Autor: Ron Stallworth
Editora no Brasil: SEOMAN
Tradução: Jacqueline Damásio Valpassos
Páginas: 207

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.