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Crítica | Inimigo do Estado

Will Smith sendo constantemente vigiado e perseguido.

por Kevin Rick
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É sempre curioso quando obras de arte preveem situações sociais anos antes de acontecerem. A experiência com a obra é ressignificada e ganha uma dimensão muito maior em um contexto histórico. Isso acontece quando vemos Inimigo do Estado nos dias de hoje. Dirigida pelo já falecido cineasta Tony Scott, a obra nos apresenta Robert Clayton Dean (Will Smith), um advogado brilhante que acaba no meio de uma conspiração política quando recebe provas de que uma agência governamental de segurança está envolvida no assassinato de um senador. Lançada antes dos invasivos smartphones e drones, ou das informações vazadas por Snowden, e até mesmo pré-11 de setembro, precedendo a aflição com Segurança Nacional estadunidense no século XXI, o longa prenuncia as paranoias da sociedade atual em relação a tecnologia, invasão de privacidade e os receios com a vigilância doméstica.

Isso, no entanto, não quer dizer que o filme só “funciona” para uma audiência atual. Muito pelo contrário, Inimigo do Estado é um produto do seu tempo, com a tecnologia datada, a conspiração estatal que acompanha Hollywood desde tempos imemoriais e a típica hiperatividade de blockbusters dos anos 90 – especialmente energética nas mãos do sempre acelerado Tony Scott. De certa forma, essa situação específica do filme também demonstra como a crítica e a experiência do crítico são produtos do seu tempo (dadas as devidas contextualizações), algo que muitas pessoas falham em perceber. Se eu tivesse assistido o longa em 1998, poderia facilmente ter me interessado pelo thriller e a técnica de Scott, mas o filme certamente não teria ganhado a dimensão pelo contexto de temor tecnológico que vivemos atualmente.

E isso tudo é mérito do roteiro inteligente e da ótima direção de Tony Scott. O cineasta capta a paranoia e a espreita do Estado em cada momento da fita: filmagens de satélites, câmeras de vigilância, dispositivos de escuta, grampos telefônicos, pesquisas de banco de dados, tomadas áreas e constantes zoom-ins em placas de carro, rostos e locações. Existe uma cena em que um agente (interpretado por Jack Black, em início de carreira) está fazendo uma busca no computador, e Scott fica indo e vindo do aparelho para o rosto do personagem para o teclado e assim por diante (cabendo destaque a montagem frenética, sempre com cortes rápidos e abruptos). É uma cena que ilustra como até em momentos ordinários, Scott não se abstém da imagem continuamente vibrante e acelerada, usando e abusando de câmera trêmula e viradas bruscas para criar um thriller totalmente hiperativo, dinamizando o sufocamento da paranoia com seu ritmo agitado.

Também vemos isso na narrativa imparável, saltando de uma fuga para outra sem momentos de respiro. Dean é mais um vírus a ser abatido no sistema do que um ser humano (o tratamento robótico e a falta de empatia da equipe técnica pontua isso muito bem), sempre em movimento e sempre perseguido por cada cantinho artificial do seu ambiente. Essa cadência acaba mudando com a inserção de Edward Lyle (Gene Hackman) na narrativa. Um veterano e especialista no combate tecnológico, o personagem de Hackman é uma espécie de fio condutor para o contra-ataque de Dean, também funcionando como esclarecedor desse ambiente – além de também ser uma ponta metalinguística, fazendo um paralelo com o especialista em escutas que Hackman interpreta em A Conversação. É nesse segundo ato que o filme perde um pouco da força, focando menos no thriller e mais na dinâmica de Dean e Lyle – muito boa, diga-se de passagem -, roubando um pouco da experiência sufocante do longa (mais drama familiar, sequências calmas de conversação e desenvolvimento batido do rebelde vs estado).

Ainda assim, Inimigo do Estado consegue manter o ritmo paranoico intrigante até o desfecho que desnuda a hipocrisia estatal com muita inteligência e ironia. A tal invasão da privacidade em prol da “segurança nacional” é colocada em xeque no ato final que expõe a implosão do Estado, com órgãos e poderes (até criminosos, como no uso da máfia) se engolindo e se esquivando da própria tecnologia, usando segurança para justificar queima de arquivo e controle. A divertida frase da personagem de Regina King declara muito bem o subtexto crítico do filme: “e quem vai monitorar os monitores dos monitores?“. Scott constrói um filme em que a falta de segurança está em todo lugar e a observação é constante. Uma experiência frenética, ágil e sufocante, Inimigo do Estado é, além de tudo, muito relevante para nosso contexto atual.

Inimigo do Estado (Enemy of the State) – EUA, 1998
Direção: Tony Scott
Roteiro: David Marconi / Aaron Sorkin, Henry Bean, Tony Gilroy (sem créditos)
Elenco: Will Smith, Gene Hackman, Jon Voight, Regina King, Loren Dean, Jake Busey, Scott Caan, Barry Pepper, Gabriel Byrne, Anna Gunn, Lisa Bonet, Jack Black
Duração: 132 min.

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