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Crítica | Inimigos Pelo Destino

por Michel Gutwilen
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SPOILERS!

Inimigos do Destino se inicia com o rompimento de uma fronteira invisível: um restaurante chinês sendo construído em Little Italy, bairro vizinho ao de Chinatown. A placa D’onofrios Bakers dá lugar a Canton Garden. Nesta sequência, Ferrara direciona a câmera para dois pontos de vista distintos: o dono asiático abraçado com sua família celebrando aquela conquista pessoal. Porém, os moradores não estão felizes. Eles estão atrás dos vidros de suas lojas (mais uma fronteira) e não abrem um sorriso. O diretor faz questão do uso de closes-ups nos rostos dos ítalos-americanos que servem tanto como um mapeamento demográfico da população local quanto um indicador de suas faces descontentes.

Eis que a sequência seguinte é um grande contraste frente ao que foi visto anteriormente. O jovem Tony (Richard Panebianco) chega na boate — não antes de passar por uma briga acontecendo em uma viela — ocupada pelos jovens e o ambiente é uma total miscigenação. Ítalo-americanos, skinheads, negros e asiáticos. Obviamente que a integração cultural seria possível de se identificar apenas pelos figurantes em cena, mas Ferrara, como um bom autor, sabe o que fazer com sua mise-en-scène. Se a montagem na sequência inicial realçava as fronteiras de mundos intransponíveis, como se o plano que mostrava a família chinesa fosse um mundo próprio e o que focava nos italianos fosse outro, ela agora aproxima tais universos. Quando o cineasta usa da montagem para explorar os mais diversos biotipos dos jovens, estão todos em sincronia ao ritmo da música, fazendo parte da mesma dança. Todos estão abarcados pelo plano geral e, quando vão sendo mostrados em close-up pela montagem, não há a ideia de contraposição, mas de continuação. De mesmo modo, Tony e Tye (Sari Chang), a garota chinesa que ele se apaixona, nunca estão sozinhos na ambientação, mas pelo contrário, estão até muitas vezes escondidos no plano geral atrás dos outros dançantes, como parte integrante daquele ecossistema.

É possível pensar em dois pontos fundamentais de Inimigos do Destino pelo paralelismo entre as duas sequências: 1) enquanto os mais velhos carregam a xenofobia, os jovens aproximam os povos; 2) enquanto a cena introdutória dos mais velhos envolve o ambiente de trabalho; Tony e Tye são introduzidos no momento de lazer. Como uma moderna atualização de Romeu e Julieta, esses dois, que só queriam se amar, sofrerão as consequências das guerras de suas famílias por conta da tradição.

Nas duas famílias, há versões paralelas entre seus respectivos membros, de modo que o roteiro de Nicholas St. John não cria só vilões de um lado nem mocinhos do outro, sendo cada família um espelho da outra. Em ambas existe o patriarca mais velho que preza pela negociação e a calma; o irmão mais velho que não sabe lidar com a miscigenação (pois já foram inseridos nos negócios da família marcados pela inimizade), mas demonstram uma certa humanidade; e o amigo vilanesco (o ruivo e o primo) que desrespeita qualquer ética naquele confronto.

Consciente da tragédia shakespeariana que é o roteiro, Ferrara realça tal ambientação fantasiosa nos momentos de romance entre os dois. Seja a chuva que cai enquanto Tony vai na janela de Faye, ou nas cenas da boate e a de sexo que, marcadas por pequenas elipses e uma maior calma da câmera, soam mais como um delírio do que o mundo real. Neste sentido, curioso é o próprio fato de que o casal não é exatamente protagonista, se considerarmos o tempo de tela. Além de lutarem contra suas famílias para selarem este amor proibido, é como se eles tivessem que lutar por um espaço de interesse diante da própria narrativa no meio da intensa guerra de gangues. Uma batalha contra forças mundanas e superiores. Neste caso, significativo para o filme e sua atração à violência diante do sentimentalismo é o momento da morte de Alby (James Russo): menos preocupada do que acompanhar o homem falecendo nos braços da mãe, mais interessante para a câmera é ir atrás da perseguição dos homens.   

Não resta dúvidas que a cena do funeral de Alby é a mais impactante de Inimigos do Destino. É através da encenação de Ferrara que o sentimento de inutilidade daquela guerra travada até então é potencializado. Neste ambiente, é a primeira vez que vemos diversas pessoas que não fazem parte do mundo das gangues. Idosos frágeis, mulheres (antigas namoradas?), há todo um leque de ignorados pela narrativa que estão de luto. Afinal, enquanto os personagens deste conto de fadas brincam de guerra, os figurantes (as verdadeiras pessoas deste mundo) que sofrem. Assim, a trilha sonora que até então seguia empolgadamente o ritmo de frenesi da narrativa se cala e dá lugar a um insuportável barulho de choro que vai progressivamente se tornando angustiante e ensurdecedor. Se até então toda a violência seguia uma estilização, as consequências se mostram cruas e nos trazem de volta ao mundo da realidade por meio daqueles lamentos.

Não só a guerra de gangues segue uma desconexão com a realidade (confrontos em ruas vazias, becos escuros, tiros que nunca acertam ninguém), mas o próprio romance entre Tony e Faye também. Da atração magnética na pista de dança, passando pelo encontro por acaso na estação de metrô, até a trágica sequência final, o destino está agindo diante deles, seja para o bem ou para o mal, conforme a própria tradução brasileira do título indica. Se encontram porque o destino permitiu, mas são mortos por estarem no lugar errado e na hora errada. Se são inimigos pelo destino, são amantes por escolha e assim selaram este pacto até a inevitável morte.

Inimigos pelo Destino (China Girl, 1987) — EUA
Direção: Abel Ferrara
Roteiro: Nicholas St. John
Elenco: James Russo, Richard Panebianco, David Caruso, Sari Chang, Russel Wong, Judith Malina, Joey Chin, James Hong, Robert Miano, Paul Hipp, Lum Chang Pang
Duração: 90 mins.

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