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Crítica | Injustiça: Deuses Entre Nós

Deuses tenham misericórdia!

por Ritter Fan
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Apesar de normalmente gostar muito de cenários alternativos na linha de Elseworlds ou O que Aconteceria Se…, nunca joguei Injustice ou li sua adaptação em quadrinhos, mas isso não é nem de longe necessário para constatar que o longa animado que tenta levar a história para as telinhas fracassa fragorosamente por ser muito claramente uma colcha de retalhos de elementos existentes (ou não) nas obras em que se baseou que esvazia completamente a excelente premissa, os clássicos personagens e os acontecimentos, privilegiando aquela violência extrema, mas vazia de conteúdo, que às vezes é infelizmente tão festejada por aí. É como passear por redes sociais: vemos uma profusão de manchetes chamativas, imagens interessantes e clipes contagiantes, sem jamais nos aprofundarmos em alguma coisa.

No longa, passado em um universo paralelo, o Coringa (Kevin Pollak) e a Arlequina (Gillian Jacobs) matam Jimmy Olsen (Zach Callison) e Lois Lane (Laura Bailey) grávida do Superman (Justin Hartley), além de explodirem Metrópolis, levando o Azulão em uma espiral de violência, autoritarismo e loucura que só uma pessoa pode impedir, seu amigo sempre preparado Batman (Anson Mount). Não é uma base narrativa fora do comum, convenhamos, mas ela é, se vista isoladamente, absolutamente fascinante que permitiria um belo estudo de versões alternativas de personagens icônicos da DC Comics sem economizar na ação, isso, claro, se o roteiro de Ernie Altbacker não fosse como a bolsa mágica de Mary Poppins, de onde tudo pode sair.

Porque sim, tudo sai do roteiro de Altbacker, que parece ter escrito seu texto em um afã enlouquecido de condensar todo o material base em meros 78 minutos. O objetivo pareceu ser trazer o maior número possível de super-heróis, mesmo que alguns só apareçam por alguns breves segundos, outros tenham como função morrer das maneiras mais horríveis e alguns sortudos – bem poucos – além de Batman e Superman, lógico, e, com boa vontade, a Mulher-Maravilha (Janet Varney) ganhem tempo suficiente de tela para que consigam cumprir suas funções que, invariavelmente, são tiradas da cartola ou ganhem construções pateticamente didáticas, do tipo “ah, se apareceu isso agora por dois segundos, quer dizer que será importante para a vitória do Morcegão”.

A direção de Matt Peters atira para todos os lados na tentativa de fazer o roteiro funcionar narrativamente. Seu esforço é até louvável, pois não tinha cineasta capaz de lidar com tanta coisa e tantos personagens em tão pouco tempo. O resultado é um longa que funciona muito bem por algo como 20 ou 25 minutos, mas que, depois, começa a desmoronar sob o peso de seus múltiplos personagens, linhas narrativas e pancadaria, não havendo espaço algum para qualquer tipo de desenvolvimento para além do básico que pode ser resumido a “Superman invencível cada vez mais louco”, “Batman sempre um passo a frente” e, interessantemente, “Mulher-Maravilha como influencer de kryptoniano enlutado”. Para ser justo, há uma tentativa de estabelecimento de drama e conflito entre Damian Wayne (também Zach Callison) e Dick Grayson (Derek Phillips), mas o que resulta daí parece corajoso por um piscar de olhos, somente para descambar para o completamente ridículo logo em seguida.

E, como se não bastasse esse despejo aleatório de super-heróis na base de 20 por minuto, o design dos personagens é, para não ficar fazendo rodeios desnecessários, feio demais. Não me interessa se porventura há fidelidade em relação ao game ou às HQs, pois, na animação, parece que entramos em uma máquina do tempo e voltamos à década de 90, em que todo personagem dos quadrinhos, para fazer sucesso, precisava de músculos em cima de músculos, uniformes diferentões que basicamente exigia ou armaduras, ou penteados estranhos, ou barbas por fazer, ou armas exageradas ou logotipos afixados em todo lugar ou, claro, uma combinação disso tudo. Sem dúvida alguma que Rob Liefeld ficaria orgulhoso em ver o Batman parecendo uma versão com esteroides do RoboCop ou o Lanterna Verde (Brian T. Delaney) que acabou de sair de um ensaio de escola de samba. A própria animação é dura, automática, sem qualquer tentativa maior de dar dinamismo e vivacidade à pancadaria.

E provavelmente porque os diálogos são rasos como o proverbial pires, praticamente formados de uma interminável sucessão de frases de efeito que são mais engraçadas do que realmente eficientes, as vozes originais cortam um dobrado para não ficarem péssimas. O Superman de Hartley até passa, talvez, mas o Batman de Mount parece mais uma paródia da voz gutural do personagem, daquelas que cansamos de ver em esquetes de programas humorísticos. Só não é o fim do mundo, porque a ação corre solta e não dá tempo para que algo mais inteligente que um be-a-bá saia dos lábios (des)animados dos personagens.

Tudo que Injustiça: Deuses Entre Nós tem realmente de bom para além de sua premissa irresistível fica concentrado no primeiro terço da projeção, com os dois terços seguintes fazendo todo o esforço possível para estragar o pouco que havia sido construído ao focar na violência sem freios sem qualquer tentativa de se desenvolver uma história coesa. Não queria usar trocadilhos infames, mas a animação definitivamente é uma injustiça com os grandes heróis que retrata e com sua promessa de uma intrigante realidade paralela.

Injustiça: Deuses Entre Nós (Injustice – EUA, 19 de outubro de 2021)
Direção: Matt Peters
Roteiro: Ernie Altbacker
Elenco: Justin Hartley, Anson Mount, Janet Varney, Laura Bailey, Zach Callison, Brian T. Delaney, Brandon Micheal Hall, Andrew Morgado, Edwin Hodge, Oliver Hudson, Gillian Jacobs, Yuri Lowenthal, Derek Phillips, Kevin Pollak, , Anika Noni Rose, Reid Scott, Faran Tahir, Fred Tatasciore
Duração: 78 min.

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