Crítica | Inquietude (1998)

Inquietude é um filme improvável, dentre os muitos filmes improváveis dirigidos por Manoel de Oliveira. A película é uma adaptação de três histórias sem conexão alguma e basicamente está marcada pelo discurso sobre o envelhecimento e o legado que alguém pode deixar para o mundo; os caminhos mais absurdos do amor e do grande sonho de uma vida inteira; e sobre o isolamento, a transformação e a diferença de alguém em seu meio cotidiano e social.

Aqui está o tríptico dramático composto pela peça de teatro Os Imortais, de Prista Monteiro; o romance Suzy, de Antonio Patrício; e a transformação peculiar da narrativa folclórica Mãe de Um Rio, sob a pena de Agustina Bessa-Luis, que já figurara em outros momentos da filmografia de Oliveira, vide, por exemplo, Francisca (1981), Party (1996) e Vale Abraão (1997). Em cada uma dessas adaptações o diretor procurou seguir certos indícios narrativos típicos de sua fonte original, desse modo, encontramos a clara marcação teatral, o conhecido modelo de adaptação meio fantasiosa para uma obra dos anos 1930 e um arranjo que passeia entre o mistério, o mundo dos sonhos e a realidade.

No primeiro bloco temos uma surpresa cômica que fala sobre a memória, a vida e as conquistas de alguém que conseguiu grande importância e fama por sua produção científica. Pai e filho falando sobre a velhice, sobre as realizações pessoais, sobre o que ficou do passado idealizado e o que ainda é possível viver, mesmo “depois de uma certa idade“. Notem que o mesmo teor da morte que se mostra nesse segmento — uma morte que podemos ampliar para vários tipos, inclusive o metafórico — se estende para os outros dois blocos; o da prostituta morrendo e o da jovem para a qual é passada a “maternidade de um rio”. Como levantei antes, cada um desses atos possui um estilo estético específico, sendo o primeiro o mais teatral dos três, com exageros marcantes na atuação, na fotografia e no modo de o diretor guiar o ritmo interno das cenas.

Nos outros dois segmentos, essa abordagem muda fortemente. O filme torna-se cada vez mais realista, mais cru, marcado pela elogiável escolha de paleta de cores do fotógrafo Renato Berta (de Adeus, Meninos, O Somma Luce e Amante Por Um Dia, só para citar alguns de seus trabalhos fora da filmografia de Oliveira) e uma trilha sonora que acompanha esses momentos com uma tendência a nos levar para um mundo de sonhos e, logo adiante, nos trazer novamente para a realidade, sempre com um toque romântico e um pouco desalentado. Inquietude mostra três realidades onde sonhos internos e desejos incontroláveis manifestam-se e deixam boquiabertos espectadores e indivíduos ao redor daqueles que sonham e desejam. O momento onde aquilo que inquieta alguém ganha vida e acaba destruindo algo à sua volta.

Inquietude (Portugal, França, Espanha, Suíça, 1998)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira (baseado em obras de Agustina Bessa-Luís, Prista Monteiro e António Patrício).
Elenco: Luís Miguel Cintra, José Pinto, Isabel Ruth, Leonor Silveira, Diogo Dória, Rita Blanco, Irene Papas, Afonso Araújo, Leonor Araújo, Leonor Baldaque, Fernando Bento, David Cardoso, Alexandre Melo, João Costa Menezes, Clara Nogueira, Ricardo Trêpa, Agui Pinto, António Reis, Adelaide Teixeira
Duração: 110 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.