Crítica | Inspire, Expire

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Produção original da Netflix pouco conhecida, Inspire, Expire se contextualiza em torno da situação dos milhares de refugiados africanos na Europa para construir uma história de amizade entre duas mulheres que não poderiam ser mais diferentes entre si, mas que vivenciam situações e sentimentos parecidos naquele momento de suas vidas. Ambientada na Islândia, a narrativa acompanha as mães solteiras Lára (Kristín Þóra Haraldsdóttir), islandesa que se depara com o aluguel por vencer e o desemprego enquanto tenta dar uma vida melhor ao seu filho Eldar (Patrik Nökkvi Pétursson), e Adja (Babetida Sadjo), uma africana de Guiné-Bissau que se vê separada da filha ao ter seu passaporte falso recusado em uma tentativa de ir para o Canadá, passando então a viver em um abrigo para refugiados no gelado país europeu.

Ainda que a temática dos imigrantes africanos seja o pano de fundo mais chamativo do filme, o roteiro escrito por Isold Uggadottir trata principalmente de indivíduos marginalizados na sociedade, que não possuem as devidas chances de levarem suas vidas como realmente gostariam. Especificamente, o longa acompanha duas mulheres totalmente diferentes em suas origens e nos motivos que a levaram até ali, mas que compartilham dos mesmos sentimentos de medo, insegurança, desespero e ainda mais notadamente o amor. Ambas buscam seu lugar no mundo ao lado dos filhos, e é justamente essa semelhança que as une em suas jornadas.

A eficácia da construção das personagens e do universo árduo e rígido de Inspire, Expire reside na maneira sutil e delicada com que Uggadottir os concebe. O simples hesitar de Lára ao enviar uma mensagem para uma antiga parceira indica sua necessidade de afeto oprimida pela realidade que vive, da mesma forma que sua desistência em ligar para a mãe em um momento de dificuldade aponta uma relação possivelmente conturbada. Ainda, o fato da mulher tirar seu piercing no nariz ao se apresentar para um emprego traduz uma sociedade onde o aspecto físico de uma pessoa tem enorme relevância perto das habilidades que possui.

Ainda nesse sentido, mas agora com relação a Adja, a personagem é responsável por protagonizar uma das cenas mais intensas do filme, cuja se passa dentro de um container e retrata as condições precárias com que seres humanos dos mais diversos países africanos devem viajar para ter uma vida mais digna – afinal, o que realmente diferencia aquele container dos navios que carregavam os negros para serem escravizados na América nos tempos de colônia?

Com isso, a película se beneficia ao máximo com as atuações das duas atrizes principais. Babetida Sadjo como Adja surge poderosa e sutil, transmitindo uma apreensão constante apenas com seus olhares desiludidos a respeito do futuro. Assim, as lágrimas que derruba ao longo da projeção surgem naturais, de tal maneira que compreendemos sua causa – o que também é auxiliado por todo o carisma e doçura esbanjados por Sadjo. Já Kristín Þóra Haraldsdóttir como Lára é concebida como uma mulher bem mais dura em suas aparências do que Adja, pois a atriz aposta em feições que dificilmente deixam emoções escaparem – principalmente por tentar manter seu filho afastado de todas as dificuldades que estão passando –, mas quando o faz é hábil ao convencer de sua fragilidade tanto quanto sua dupla de tela. Por fim, vale a pena destacar o trabalho de Patrik Nökkvi Pétursson como o jovem Eldar, que estabelece uma forte dinâmica infantil com a mãe, mas que nunca fica renegado a segundo plano graças ao carisma e a humanidade do garoto.

Porém, é lamentável que o roteiro de Inspire, Expire não se decida muito bem no que quer enfocar. A construção do arco dramático das protagonistas é um tanto irregular, tendo em vista que a primeira metade do filme dá mais atenção a Lára, enquanto que a metade final parece bem mais interessada na resolução da jornada de Adja. Nesse aspecto, o longa falha ao deixar a desejar uma resolução mais bem amarrada para a trajetória da mãe islandesa com seu filho, principalmente devido a todo o tempo que investimos nos dois e também pela conclusão satisfatória fornecida a mulher africana. E esse interesse maior em Adja na segunda metade não apenas compromete a própria Lára, como também acaba por revelar a oportunidade que Uggadottir desperdiça, pois questões interessantes como o dia a dia dos refugiados no abrigo são pouco exploradas na parcela inicial, além de sentirmos que Adja poderia ter ganhado mais atenção desde os momentos iniciais da fita.

Além do mais, a narrativa sofre de alguns excessos por parte da cineasta. Um incidente envolvendo o garoto Eldar e um envelope com drogas pouco serve para os personagens, senão apenas explicitar a bondade da mulher de Guiné-Bissau, o que vai contra toda a delicadeza que funciona tão bem no filme. Também, os planos gerais são usados ao extremo, especialmente os establishing shots, que se tornam repetitivos e desnecessários ao surgirem para ambientar o espectador a um mesmo local várias e várias vezes. Apesar disso, a direção de fotografia de Ita Zbroniec-Zajt compõe praticamente toda a película com uma paleta fria que, mesmo óbvia, funciona ao traduzir a difícil vida das protagonistas.

Jamais abraçando o sentimentalismo, Isold Uggadottir ainda constrói cenas que transmitem a tensão e o nervosismo dos personagens, como é o caso da sequência nos containers e o clímax da narrativa. Inspire, Expire se beneficiaria com um roteiro mais bem estruturado, mas o trabalho da cineasta islandesa retrata bem a dura realidade daquelas mulheres em um contexto urgente e atual; nesse sentido, a apatia que Lára exibe com Adja até certo ponto é análogo a difícil aceitação de imigrantes africanos em países europeus. Assim, o longo evoca em cada um certo sentimento de empatia ao compreender a causa de cada ser humano, seja lá de onde vem e para onde for – um sentimento ausente em uma sociedade cada vez mais individualista e decadente.

Inspire, Expire (Andið eðlilega, Islândia/Suécia/Bélgica, 2018)
Direção: Isold Uggadottir
Roteiro: Isold Uggadottir
Elenco: Kristín Þóra Haraldsdóttir, Babetida Sadjo, Patrik Nökkvi Pétursson, Sveinn Geirsson, Þorsteinn Bachmann, Gunnar Jónsson, Petur Oskar Sigurdsson
Duração: 95 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.