Crítica | Instagram Is (2013)

É de uma estranheza hedionda observar que em 2019, ainda não temos um documentário, produção ficcional ou seriada engajada na análise dos impactos do Instagram no tecido social da humanidade. Por ser uma das redes sociais mais badaladas da contemporaneidade, acredito que alguém ainda não teve o financiamento ou ousadia de adentrar numa análise microscópica deste lugar repleto de complexidade e que funciona de maneira paradoxal em nossas vidas, pois ao passo que surgiu como rede social para as pessoas expressarem a criatividade de maneira espontânea, o espaço de postagens e breves comentários também deu lugar para discussões sobre política e cultura, além de ter sido avaliado como a rede social mais nociva para a saúde, conforme estudo da Associação de Saúde Pública do Reino Unido, em parceria com o Movimento de Saúde Jovem.

Diante do exposto, indago o leitor acerca das motivações que não permitiram a existência de produções que reflitam o Instagram como ponto nevrálgico de sua narrativa, tendo como parâmetro a seguinte afirmação: não é possível refletir sobre algo tão cheio de complexidades com base apenas no documentário Instagram Is, escrito, dirigido e fotografado por Paul Tellefsen. Em seus 25 minutos, a produção lançada em 2003 analisa a rede social com base em seu ponto de vista positivo. Allison Anderson, Kyle Steed e Brenton Little são alguns dos diversos entrevistados, usuários que ganham maior tempo de projeção por conta dos seus perfis exemplares, isto é, com grande quantidade de seguidores.

Eles, juntamente com outros transeuntes, expressam palavras-chave e expressões de otimismo, acompanhadas pela trilha sonora original de Tyler Linahan: diário pessoal, lugar para criar e se expressar, espaço para compartilhar inspirações, rede para compartilhar seus momentos, ideias e ambiente ideal para as pessoas que desejam “ficar juntas”. A abordagem positiva inclusive abre espaço para retratar um jovem que vive a sua primeira experiência com o Instagram durante a captação de imagens do documentário. Criado para expressar emoções supostamente genuínas, por meio de ângulos inusitados, a rede social em questão é o lugar ideal para que se espalhe o que Pierre Levy chamou de “senso de propósito”, isto é, o local para compartilhamento coletivo de subjetividades.

Assim, injusto analisar o documentário de Paul Tellefsen como algo que deixa a desejar. É preciso se dar conta da época e a proposta do trabalho. O realizador demonstra uma reflexão focada no lado bacana da rede social, algo que inclusive precisamos nos apegar para não aderir ao pensamento negativo totalizante, pois sabemos que o problema não é a rede em si, mas a forma como nós, seres humanos, a utilizamos. Desta forma, se Instagram Is não se preocupa em demonstrar outras esferas da rede social que retrata, permite, por sua vez, que façamos nós mesmos as nossas próprias inserções após a contemplação do documentário.

Local de excelência para a construção de subjetividades, o Instagram permite a construção e expressão de impressões sobre temas gerais de nossas vidas. Com número de usuários na casa dos bilhões, o aplicativo desenvolvido em outubro de 2010 por Kevin Systrom e Mike Krieger tem como proposta a veiculação de vídeos curtos e fotos com breves comentários, hastags e filtros. Inicialmente criado para tablets e smartphones do sistema operacional IOS, desenvolvido pela Apple Inc. Em abril de 2012, foi estendido para o Android, numa pesquisa erguida juntamente com o Google. Com acompanhamento estatístico das postagens, tem como proposta central a realização de fotos reais, do mundo real e em movimento.

Alguns anos depois de seu lançamento, acompanhamos o uso com base na necessidade do usuário. Há perfis com fotos de paisagens, momentos de viagem, perfis de pesquisadores que debatem de maneira breve algo sobre sua linha de trabalho, além de ser um espaço para negócios. As celebridades “permitem” que os seus fãs acompanhem seus trabalhos diariamente, usuários comuns postam suas horas na academia, momentos de lazer na praia e pratos de refeições. Em suma: é o espaço para múltiplas possibilidades para os usuários. O documentário de Tellefsen foca neste aspecto: apresentar usuários e por meio de estratégias metalinguísticas bem interessantes, ir e voltar entre os enquadramentos e as fotos dos entrevistados.

Conferir Instagram Is hoje, diante da ausência de produções que apresentem a rede social de maneira mais complexa permite que observemos o curto filme de Tellefsen como algo que fica apenas na superfície. Não deixa de ser válido como um ponto de vista específico, mas enquanto ainda não houver outras produções sobre o tema, será “aquele filme” que fala do Instagram de maneira exclusivamente otimista e razoável. A taxa de depressão e ansiedade aumentou 70% de acordo com os estudos da instituição inglesa descrita na abertura do texto. Ansiosos, deprimidos e sem sono, tais jovens estão entre os maiores usuários da rede social. O compartilhamento de fotos e o medo de ser indesejado traz a insônia que se tornou um dos esquemas devastadores da juventude que se encaixa em tal pesquisa.

Recentemente, inclusive, alguns debates acerca do Instagram tomaram os noticiários. Uma delas foi sobre o debate entre a permanência ou não do comando “curtir” na rede social, mecanismo que segundo estudos, provoca a baixo-estima que tem deixado muitos jovens com problemas de saúde mental, afinal, a rede é uma das alegorias da nossa sociedade contemporânea: doente, enferma e sem sinal de recuperação. Instagram Is poderia ganhar uma continuação crítica com os mesmos recursos estéticos do filme de Tellefsen, repleta de filtros, edição com idas e vindas na interface da rede social, dentre outras escolhas narrativas instigantes e mais atuais.

Instagram Is – Estados Unidos, 2013
Direção: Paul Tellefsen
Roteiro: Paul Tellefsen
Elenco: Paul Tellefsen, Allison Anderson, Kyle Steed, Brenton Little
Duração: 25 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.