Crítica | Instinto Selvagem

Loiras fatais e perigosas se estabeleceram, segundo a teoria e a história do cinema, na era das produções noir, tipo de filme conhecido por seu estilo peculiar: iluminação low-key, jogos de espelhos, sombras e mistérios, homens derrotados e mulheres que representavam a metáfora de um mundo patriarcal relativamente modificado por conta dos conflitos bélicos que assolaram a humanidade na primeira metade do século XX. Em Instinto Selvagem, Michael Douglas resgata alguns elementos do homem noir, supostamente enfeitiçado por uma loira fatal, fanática por jogos perigosos, geralmente envoltos por uma atmosfera de sangue, sexo e perversão, palavras-chave complexas numa era conhecida de rigor quando o assunto envolvia “relações sexuais”, haja vista o impacto da AIDS na década de 1980.

Tal como Odisseu, seduzido pelo canto das sereias, Nick Curran (Michael Douglas) é um detetive estadunidense durão, mas derrotado pelo poder de persuasão da femme fatale Catherine Trammel (Sharon Stone), uma “viúva negra vadia” que coloca a sua masculinidade em xeque. O excelente roteiro de Joe Eszterhas cria um personagem esférico, traumatizado por uma tragédia ocorrida num passado recente, envolvendo turistas feridos numa ação policial ineficaz, situação que o deixou neurótico e desconfiado. O mesmo acontece com a personagem fria e calculista representada por Sharon Stone, personificação da dubiedade e da incerteza, manipuladora dos conflitos externos e internos que envolvem Nick. A cena de abertura é bastante emblemática e pontual. Ela estabelece a linha narrativa que nos guiará até o fim, por meio de uma trama que unificada bem o sexo e a morte como partes distintas que formam uma unidade temática. O picador de gelo é a arma do crime. Nick é designado para a investigação e logo se percebe atraído pela suposta responsável pelo crime, Catherine Trammel.

Todas as suspeitas giram em torno da personagem. Escritora fascinante, sensual e enigmática, adornada por muita ambiguidade, os seus livros deixam pistas que nos leva a crer que ela cometeu os crimes que começam a ser investigados, mas por conta da obviedade da situação, a misteriosa loira possui um álibi, constantemente reiterado pela narrativa que alega ser muito difícil alguém cometer crimes exatamente como estão descritos em seus livros bastante populares. Isso seria suicídio social em seu estado mais puro. Mas, será que Trammel não está interessada em levar uma vida de perigos, guiada por jogos perigosos, sensuais e mortais?

Ela é a liberdade feminina em cena. Fala sobre sexo abertamente, sem medo de ser julgada, expõe os seus desejos sexuais, o que deixa os homens numa redoma de desconforto, desacostumados com comportamentos femininos libertários, oriundos de discursos feministas libertadores. Ousada e inteligente, ela coloca todos dentro da sua teia perigosa, numa demonstração da facilidade de manipular os homens que a interrogam, machistas que logo apresentam os seus pontos fracos quando o “jogo” sai de uma zona para outra, justamente no momento em que os supostamente espertos acreditam que ela não passa de uma “vadia” interessada em relações sexuais exuberantes.

Ao comandar as situações, Trammel empodera a mulher por meio de metáforas constantes, indo muito além da famosa cena de cruzada de pernas sem calcinha, tema repetidamente abordado quando as críticas mais atuais resolvem tirar o filme do arquivo dos anos 1990 para análise, um problema da crítica cultural que às vezes se detém mais ao release e as fofocas de bastidores, em detrimento da boa análise. Construído com complexidade, camada que está por debaixo do inteligente apelo popular criado pelos próprios realizadores, Instinto Selvagem vai além das trivialidades do sexo apenas como diversão, numa travessia profundamente psicológica e narrativamente sofisticada.

Ainda sobre o roteiro, cabe ressaltar que o material dramatúrgico também investe em bons coadjuvantes. Beth (Jeanne Tripplehorn), psicóloga de Nick e colega de “Ensino Médio” de Trammel, sempre alerta o detetive sobre os perigos de manter contato com a loira, mas há brechas em sua fala e comportamento que nos leva a compreender que as informações não estão devidamente estabelecidas neste jogo perigoso, o que leva o anti-herói a um estado de paranoia constante.  A boa condução narrativa de Instinto Selvagem pode ser atribuída aos desempenhos de Sharon Stone e Michael Douglas no âmbito da atuação, ao equilíbrio e destreza do cineasta Paul Verhoeven na direção, mas devemos ficar bem atentos ao trabalho desenvolvido por Jan De Bont na direção de fotografia e Jerry Goldsmith na condução musical, em especial, do tema principal.

No caso da fotografia, temos uma eficiente câmera que coreografa em torno do elenco e dos espaços, movendo-se de uma maneira que evita a edição constante, num acompanhamento inteligente que não quebra a linha de tensão da história. Estilo que nos remete ao que Orson Welles utilizou em A Marca de Maldade e Fellini em A Doce Vida, as imagens em Instinto Selvagem possuem muitas referências ao estilo Hitchcock de narrar. A câmera, muitas vezes livre, flutua e permite uma ambientação bastante peculiar.

A iluminação proposta pelo diretor de fotografia também é outro caso especial, principalmente nos momentos de apresentação da personagem Catherine Trammel, com espelhos expostos em trechos do plano de fundo, tendo em vista tornar mais “brilhante” a aparição da personagem, principalmente em sua primeira cena. É na iluminação também que a narrativa simboliza quando as coisas estão dúbias ou erradas demais, com cenas de luz trêmula nos indicando que “há algo de podre no reino amoral de Trammel” em São Francisco.

Não é preciso muito esforço para que possamos perceber a “presença” de Hitchcock em Instinto Selvagem, um suspense com roteiro calculado, o que nos remete a ideia de planejamento narrativo discutida por Edgar Allan Poe em A Filosofia da Composição. Roteiro, caros leitores, é fruto de boas ideias e de genialidade, mas também é parte de um planejamento envolvendo muito suor, leitura e escrita, ou seja, trabalho. Os figurinos de Trammel, criados por Ellen Mirojnick, nos remete aos trajes de Kim Novak em Um Corpo Que Cai, uma das personagens mais ambíguas do “mestre do suspense”.

Há também um interessante contraste entre os tons vermelhos e brancos, além da cuidadosa ambientação do design de produção de Terence Marsh. A narrativa também, pois no clássico temos um detetive com passado confuso, transtornado pela obsessão por uma mulher em São Francisco. Curioso observar que dentro deste universo de gravitações em torno de Hitchcock, há ainda a participação de Sharon Stone em Invasão de Privacidade, espécie de releitura de Janela Indiscreta.  Pode ser coincidência, mas é uma comprovação da eficácia do cineasta décadas depois de seus filmes mais prestigiados.

Ainda sobre as relações com Hitchcock, há um interessante jogo com o plano de fundo. O oceano como contraste, a fumaça como segundo plano, além da cuidadosa ambientação, elementos que se relacionam com a eficiente montagem de Frank J. Urioste, repleta de sofisticadas transições com raccords e a já apontada composição musical de Goldsmith, um mestre do arranjo para filmes atmosféricos, haja vista os excelentes trabalhos em A Profecia e Alien – O Oitavo Passageiro. O tema principal e as demais faixas da trilha sonora mesclam a sensualidade e o mistério característicos da produção, num diálogo que reforça a simbiose perfeita entre sons e imagens.

A trilha foi utilizada, inclusive, na continuação, lançada em 2006. O filme naufragou nas intenções, conseguiu captar apenas alguns elementos do primeiro e enterrou de vez a ideia de Instinto Selvagem como possível franquia. Basta esperar para ver se alguém não se interessará em transformar a produção numa série de TV. Quem sabe? E você, caro leitor, acha uma boa ideia?

Instinto Selvagem — (Basic Instinct) Estados Unidos, 1992.
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro:  Gary L. Goldman, Joe Eszterhas
Elenco:  Sharon Stone, George Dzundza, Jeanne Tripplehorn, Leilani Sarelle, Michael Douglas, Denis Arndt
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.