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Crítica | “Interior” – Carne Doce

por Handerson Ornelas
449 views (a partir de agosto de 2020)

A capa do quarto álbum do Carne Doce – um dos grupos mais sensacionais da nova cena musical brasileira – parece já servir de metáfora para seu próprio som. Intitulado Interior, o novo trabalho da banda goiana estampa em sua capa a imagem do pequi, fruta característica do centro-oeste brasileiro. A particularidade do pequi vem do fato de seu caroço ser recheado de espinhos, sendo necessário cuidado ao roer a fruta. Os paralelos com a temática e a sonoridade da banda podem ser inúmeros, mas é interessante notar que para apreciar as várias camadas da música feita pelo grupo é necessário disciplina e atenção, da mesma forma que saborear o fruto citado.

Interior parece reunir todas as facetas do Carne Doce até agora, fundindo tudo que o grupo já experimentou nos três discos anteriores e gerando uma obra madura e segura de si. É interessante notar como o swing de Tônus deixou marcas profundas no grupo, sendo perceptível um ritmo mais funkeado surgir em diversos momentos da obra, como nos sintetizadores de Fake, o ótimo groove dançante de Garoto ou o maravilhoso feito de fundir a guitarra a lá Nile Rodgers com uma sonoridade nortista a fim de gerar a excelente faixa Saudade.

Apesar de ganhar um certo estigma “indie rock“, é fascinante como Carne Doce faz uma música de extrema personalidade sem perder uma identidade essencialmente brasileira. Sempre foi algo notório nas obras da banda, mas é interessante como o novo disco parece assumir um fortíssimo tom regional, incorporando em cada nota o clima seco, ensolarado e árido do centro-oeste brasileiro. Na brilhante voz e autêntica interpretação de Salma Jô é possível observar vislumbres de Elis e Gal Costa, enquanto por vezes a guitarra referencia sonoridades de raízes sertanejas (como nas faixas Sonho e Temporal, para citar algumas).

Apesar de Interior soar ensolarado e de apelo levemente mais popular, com guitarras vibrantes sobrepondo instrumentais menos experimentais e mais atmosféricos, as canções permanecem incorporando um olhar um tanto melancólico da vida. Exemplos disso são as faixas Passarin – que exala uma bela efemeridade nos vocais de Salma, no ritmo lento e no sábio uso do espaço entre as notas – e A Partida, canção que recaptura memórias nostálgicas através de um arranjo e letra de cortar o coração. Até mesmo as composições que apresentam sonoridade mais despojada e certo bom humor, como a excelente Hater, inserem uma certa melancolia através da hipnotizante sonoridade da guitarra e o ar soturno das (ótimas) linhas de baixo.

Banda afinadíssima, letras inspiradas e um vocal de interpretação exemplar. Pela quarta vez a Carne Doce acerta em cheio fazendo um rock alternativo de enorme frescor e autenticidade. Extremamente longe de cair nos clichês e tendências da típica música indie importada de fora, Salma e sua trupe reafirmam em Interior uma música alternativa que reconhece sua brasilidade em cada nota.

Aumenta!: Saudade
Diminui!: De Graça

Interior
Artista: Carne Doce
País: Brasil
Lançamento: 18 de setembro de 2020
Gravadora: Independente
Estilo: rock alternativo

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2 comentários

Kevin Rick 6 de dezembro de 2020 - 10:54

Como goiano do pé-rachado e comedor de pequi, fiquei louco para ler a crítica assim que foi publicada. Acabei me contendo até conseguir ouvir todo o álbum, e simplesmente adorei! Muito se fala sobre como o Sertanejo evoca a identidade goiana, mas, para mim, este álbum demonstra como transpor o regionalismo brasileiro, mais especificamente o goiano, em forma de música, assim como você disse na crítica.

A melodia é melancólica, mas existe um certo teor sublime nas faixas. Algo muito remanescente da tranquilizante identidade local.

Bela crítica e ótimo álbum! Poder ver um texto sobre uma banda de rock local no site deixou este goiano extremamente feliz! Aliás, sua descrição insana do pequi e da regionalização dos roedores da fruta me leva a pergunta: você é goiano? Hahaha

Abraços!

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Carlos Faria 27 de novembro de 2020 - 19:34

Para mim, o melhor disco deles, do ano e banda com calibre para já ser clássica.

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