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Crítica | Interlúdio de Amor

por Ritter Fan
261 views (a partir de agosto de 2020)

Primeiro filme dirigido por Clint Eastwood sem que ele mesmo participasse do elenco (a não ser em uma figuração não creditada de segundos como um homem apoiado no corrimão de um píer), Interlúdio de Amor é, provavelmente, uma de suas obras menos conhecidas, até porque ela ficou em um limbo muito longo desde seu lançamento nos cinemas em 1973, sem que fosse lançada em vídeo doméstico até 1998. Mas o filme, junto com o papel de Eastwood em O Estranho que Nós Amamos, fez parte do projeto pessoal do cineasta de afastar-se de sua fama de anti-herói silencioso.

Afinal, no começo da década de 70, soaria improvável para qualquer cinéfilo que Eastwood estivesse envolvido em um filme romântico sobre o amor entre um solteirão convicto de meia-idade e uma jovem hippie de 17 anos, mas é alvissareiro notar como o então ainda novato diretor soube lidar bem com o tema, colocando na lata um filme sensível, com personagens bem construídos em uma narrativa engajante a partir de roteiro original de Jo Heims, que também escrevera o de Perversa Paixão, estreia dele na direção dois anos antes.

Não há mistério na estrutura narrativa. William Holden, que foi escalado no lugar do próprio Eastwood, que se considerou novo demais para o papel, vive Frank Harmon, um corretor de imóveis carrancudo e frio que, depois de seu divórcio, não quer mais nenhum tipo de relação amorosa duradoura. Um belo dia, pelas forças do destino, ele esbarra em Edith Alice “Breezy” Breezerman e uma conexão hesitante, mas imediata, começa, logo desenvolvendo-se em um romance. Como se poderia esperar, a jovem, interpretada por Kay Lenz em seu primeiro papel de relevo, é o exato oposto de Harmon, literalmente encarnando a vontade de viver como se não houvesse amanhã e o amor puro e sem barreiras.

Sem dúvida há toneladas de clichês na própria sinopse da história, mas o que importa, como sempre digo, é como esses clichês são levados a cabo e, em Interlúdio do Amor, eles estão muito claramente a serviço de uma história cheia de coração que tem a barreira de gerações como pano de fundo, mas que tem mesmo como objetivo falar sobre a importância de se tirar o máximo proveito da vida enquanto ainda é possível. Mesmo que o final coloque essa mensagem exageradamente em primeiro plano, tornando-o levemente brega de tão didático, a jornada de redescoberta do amor por Harmon é emotiva e hipnotizante, com Holden, que sempre manteve aquela carapaça de herói invencível (como Eastwood, aliás), convencendo muito bem na medida em que Lenz e sua Breezy vai encontrando seu espaço e perfurando suas defesas de maneira muito semelhante ao que vemos acontecer entre os clássicos personagens de Audrey Hepburn e Rex Harrison em My Fair Lady.

A direção de Eastwood é muito hábil em criar cenas de intimidade – não necessariamente relacionadas com o sexo – que respeitam a diferença das idades sem tornar estranha ou desconfortável a conexão entre Breezy e Frank. Ao contrário, há uma naturalidade muito grande nas sequências, com uma fotografia cada vez mais quente de Frank Stanley (que voltaria a trabalhar com o ator Eastwood no mesmo ano em Magnum 44 e, depois, com o diretor e ator Eastwood em Escalado para Morrer) que sinaliza, com cores cada vez mais alegres, as barreiras emocionais de Frank ruindo na medida em que Breezy torna-se cada vez mais contagiante em sua inocência e joie de vivre. Igualmente, a bela trilha sonora do prolífico Michel Legrand, que também criou a melodia da canção-tema, “Breezy’s Song”, ajuda no envolvimento do espectador na evolução do protagonista.

Os anos 70 foram cruciais para Clint Eastwood, pois sua carreira de ator não só entraria em outra fase, como ele estrearia com força na direção, abrindo caminho para um cada vez mais impressionante diversificação de carreira. Interlúdio de Amor passa muito longe de ser uma de suas obras mais reconhecíveis ou estimadas, mas seu terceiro trabalho como diretor aqui nessa pequena fita de baixo orçamento e fora de sua zona de conforto já deixa evidente o tino do cineasta para capitanear futuras obras-primas dos mais diferentes gêneros.

Interlúdio de Amor (Breezy, EUA – 1973)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Jo Heims
Elenco: William Holden, Kay Lenz, Roger C. Carmel, Marj Dusay, Joan Hotchkis , Jamie Smith-Jackson, Norman Bartold, Lynn Borden, Shelley Morrison, Dennis Olivieri, Eugene Peterson, Lew Brown
Duração: 106 min.

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4 comentários

Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 7 de junho de 2020 - 13:19

O “engraçado” é que ele sair de um par romântico com um alouca de pedra no Perversa Paixão e dirige essa história bonita aqui. Uma das coisas que me chamou a atenção é a maneira bem honesta como ele trabalha o personagem de William Holden, deixando claro que a burrice que é não aproveitar as belezas e oportunidades que a vida nos traz.

É aquela história, se a gente não fizer as coisas por medo de se machucar ou de tropeçar ou perder o que conseguimos, a gente nunca mais faz nada. O que não é um convite ao louco impulso, mas aqui não se trata de impulso. É tudo muito sutil, muito bonito. Gosto do filme um tantinho a menos que você, mas é realmente um bom filme. Um Eastwood diferente…

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planocritico 7 de junho de 2020 - 15:29

Eu fiquei realmente impressionado com o Holden aqui. Aquela aura de durão que ele sempre teve é dissipada de maneira muito eficiente. Clintão já mostrando sua capacidade de abordar todo tipo de história!

Só de curiosidade, qual nota você daria? 3,5? 3?

Abs,
Ritter.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 7 de junho de 2020 - 16:32

Minha nota é 3,5.

E eu tava lembrando aqui daquela conversa do personagem do Holden com aquele amigo dele na sauna. O nível de amargura dessa cena é lancinante…

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planocritico 7 de junho de 2020 - 16:53

Uma baita cena mesmo. Simples e muito eficiente.

Abs,
Ritter.

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