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Crítica | Intocável, de Jeffery Deaver

A perniciosidade de influenciadores espancada por Constant Marlowe.

por Ritter Fan
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Um dos mais graves efeitos colaterais das redes sociais é a facilidade e a velocidade com que a vida de uma pessoa pode ser completamente destruída com apenas uma frase ou até uma palavra disseminada por um influenciador, youtuber ou podcaster para seus milhares (às vezes milhões) de seguidores ou idólatras. É como um tsunami instantâneo, nem sempre ou talvez quase nunca baseado na realidade, que, propositalmente ou não, pode colocar de cabeça para baixo a percepção que se tem de alguém, seja esse alguém uma celebridade ou um completo desconhecido. Some-se a isso a discursos de ódio e a pessoas que se valem da radicalização de muitos para se beneficiar e pronto, a tempestade perfeita é formada, tempestade essa que é quase impossível desfazer ou mesmo amainar. Muito provavelmente foi pensando nisso que Jeffery Deaver escreveu o quarto livro protagonizado pela agente especial Constant Marlowe, personagem que criou em 2022 para a quadrilogia de contos interconectados A Boneca Quebrada.

Repetindo o artifício usado em Downstate, Deaver faz com que sua protagonista “tropece” sem querer em um caso novo enquanto está de passagem na cidade universitária de Prescott, em Illinois. Seu faro a faz perceber que há algo mais profundo no breve conflito verbal que testemunha entre uma jovem e um homem que está próximo dela e Marlowe, então, parte para investigar, logo estabelecendo uma conexão próxima com a mulher em questão, que se chama Kathleen Delaine, filha de um juiz local. Kathleen, depois de tentar ajudar o time de futebol americano de sua faculdade delatando os traumas que o esporte causa no cérebro de seus colegas, transformar-se, da noite para o dia, na “mulher que transou com o time inteiro” graças a um anônimo que entrega uma fotografia descontextualizada que um influenciador da “machosfera” mostra em seu videocast. Se o influenciador é obviamente conhecido, a pessoa que perniciosamente levou Kathleen ao conhecimento dele, mentindo pelos cotovelos, não é e é nele que Marlowe inicialmente mira seus esforços.

Obviamente, se você leu alguma coisa que Jeffery Deaver escreveu desde sua estreia literária em 1988, você sabe que, normalmente, nada é o que parece, com o autor refestelando-se em construir as mais variadas reviravoltas e distribuir uma quantidade generosa de pistas falsas. E Intocável não é diferente, claro. O que, porém, é definitivamente diferente é que essa novela é a primeira com Constant Marlowe que seu passado de ex-pugilista profissional que ela costuma usar como arma para subjugar seus oponentes em literais “lutas de rua” fica no banco de reservas e suas habilidades como detetive são colocadas mais diretamente no centro do palco. Não é que Deaver esqueça desse passado, claro, pois Marlowe sem o boxe não é Marlowe, mas ele, aqui, sabe que esse instrumento narrativo tem aplicações limitadas e o espaço para ele na estrutura da nova história é reduzido. Considerando a discreta quantidade de páginas da novela e o passo acelerado da história, essa foi definitivamente uma ótima escolha do autor, privilegiando o cérebro e não os punhos de sua protagonista em uma história que começa mínima, mas que ganha proporções bem maiores e inesperadas.

Além disso, mesmo considerando que todas as histórias anteriores com a protagonista sejam no mínimo boas, essa é, talvez, a mais satisfatória, no sentido de abrir um sorriso no rosto do leitor quando ela acaba diante da forma como influenciadores de má fé são expostos e tratados. Não é, de forma alguma, uma história genial, que vai mudar a vida de alguém, mas é uma leitura gostosa, rápida e que realmente traz aquele momento que queremos muito ler – e, mais ainda, ver acontecer no mundo real – diante do bombardeio incessante de informações falsas a que  somos alvo direto ou indireto todos os dias graças à praga que é a corrupção das redes sociais por pessoas doentes e, também, por corporações corruptas. No quarto livro estrelado por Constant Marlowe, a agente especial serve como um avatar vingativo de todos nós que não aguentamos mais as manipulações insidiosas a que somos sujeitos diariamente e só por essa característica Intocável já merece ser conferido!

Intocável (Untouchable – EUA, 2026)
Autoria: Jeffery Deaver
Editora original: Amazon Original Stories
Data original de publicação: 17 de fevereiro de 2026
Páginas: 137

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