Crítica | Intriga Internacional

Intriga Internacional é o thriller de ação por excelência, um dos melhores filmes “menos complexos” de Alfred Hitchcock e que nasceu de um bloqueio artístico de Ernest Lehman, que ficara encarregado de escrever um roteiro para o cineasta com base em um romance de The Wreck of the Mary Deare, mas sem sucesso. Os dois, então, passaram a jogar ideias para o alto, uma sobre alguma aventura que se passasse no Monte Rushmore, outra sobre uma história verdadeira de invenção de um espião para enganar a inteligência alemã durante a Segunda Guerra Mundial que Hitchcock tinha na cabeça há anos e outra ainda com uma espécie de viagem lisérgica do cineasta que queria ver Cary Grant dentro do nariz de Abraham Lincoln ou o protagonista em um campo aberto sendo “atacado” por um tornado.

Deve ter sido um processo criativo sensacional, daqueles realmente memoráveis como o de Luis Buñuel e  Salvador Dalí trancados em um quarto para bolar o “roteiro” de Um Cão Andaluz, mas que, diferente do curta surrealista, resultou em um filme que surpreendentemente tem começo, meio e fim com razoável lógica, mesmo que tenhamos que aceitar que Roger Thornhill, o personagem que acabaria realmente sendo vivido por Cary Grant, sofra um atentado não com uma arma convencional, mas sim com um biplano fumigador (que foi o que resultou do tal tornado que Hitchcock queria). Com isso, a dupla colocou nas telonas um filme imensamente divertido, mas, em contrapartida, extremamente raso e simples em termos narrativos, como um respiro entre os bem diferentes e bem mais carregados Um Corpo que Cai, lançado no ano anterior e Psicose, no ano posterior.

Partindo de uma premissa idêntica de seus dois O Homem que Sabia Demais, ou seja, uma confusão de identidade que leva o protagonista a uma espiral de envolvimento com uma conspiração, Intriga Internacional coloca o elétrico publicitário Thornhill em uma espécie de road movie digno de James Bond que o leva de Nova York (Manhattan e Long Island) a Chicago, depois a uma área rural em Illinois, em seguida novamente Chicago e, finalmente, a Keystone, Dakota do Sul depois que dois capangas de Phillip Vandamm (James Mason), um espião, o confunde com George Kaplan, um misterioso personagem que eles querem eliminar. Com direito até a uma “Bond Girl”, a bela Eve Kendall (Eva Marie Saint), o filme é muito eficiente em envolver o espectador no drama impossível do protagonista que acaba sendo obrigado a efetivamente assumir a identidade falsa para tentar entender e, depois, desbaratar a gangue que o envolveu na trama.

Inegavelmente, porém, o filme é marcado por “grandes momentos” costurados juntos em um todo que, como disse, surpreende pela coesão, ainda que talvez acabe durante mais tempo do que precisa. Dessa forma, temos a sequência na mansão em Long Island, com direito a mais uma direção por estradas sinuosas por Cary Grant em um filme de Hitchcock (o outro foi Ladrão de Casaca), depois uma tomada de ação nas Nações Unidas (ilegalmente filmada por fora, já que a produção não obteve autorização para usar a locação) que chega a ser hilária, depois o sedutor encontro de Thornhill com Eve no trem para Chicago, seguida, claro, da maravilhosa sequência do avião fumigador que é a marca do filme e que o cineasta maneja com sua usual calma criando um suspense insuportável, chegando na fuga desesperada pelas “cabeças” do Monte Rushmore, lembrando de certa forma o final de Sabotador em outra icônica escultura, a Estátua da Liberdade.

Em meio a tudo isso, somos brindados com a sequência inicial de créditos de Saul Bass que se “transforma” em um prédio novayorkino, uma das mais icônicas da prolífica carreira dele, além da trilha sonora de Bernard Herrmann que magistralmente amplifica as sequências de ação e que já muito claramente contém acordes que inspirariam seu inesquecível trabalho seguinte, em Psicose. Outro elemento importante da obra é como Hitchcock usa uma enorme variedade de filmagens em locação para dar vida ao caráter trotamundos de sua obra, algo que combina muito com a natureza episódica do roteiro.

Com doses exatas de aventura, suspense, romance e humor, Intriga Internacional é sem dúvida uma delícia de se assistir de maneira descompromissada. Um Hitchcock light, mas extremamente competente que transforma Cary Grant em um 007 que passa metade do tempo sem entender exatamente o que está acontecendo, mas sem que ele perca a compostura por um segundo sequer mesmo quando está agachado na terra em meio a um milharal.

Intriga Internacional (North by Northwest, EUA/ Reino Unido – 1959)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Ernest Lehman
Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessie Royce Landis, Leo G. Carroll, Josephine Hutchinson, Philip Ober, Martin Landau, Adam Williams, Edward Platt, Robert Ellenstein
Duração: 136 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.