Crítica | Invasão de Privacidade (1993)

Psicose e Janela Indiscreta parecem os filmes mais referenciados de Alfred Hitchcock, ao menos diante do feixe de produção de suspense hollywoodiano da década de 1990. Invasão de Privacidade, como o próprio título traz, emula, muito mal por sinal, alguns traços do legado inventivo do mestre do suspense. Sharon Stone, anteriormente perigosa no desempenho de um personagem que tinha em sua concepção os enigmas e dubiedades de Kim Novak em Um Corpo Que Cai, além de outras referências de cunho noir, recebe aqui um roteiro medíocre para dar conta, o que resultado num desempenho pouco inspirado, tal como as cenas de sexo, supostamente avassaladoras, mas tão tediosas quanto os coitos interrompidos dos filmes da saga francesa Emanuelle. O elo com Hitchcock aqui se estabelece com a atmosfera de suspense, perigo e mistério, com alguns elementos de Janela Indiscreta. E só.

Desconcertante perceber como uma história aparentemente simples, mas com potencial se bem executada, ganha nas mãos de Phillip Noyce um tratamento pouco interessante. Parcialmente culpado, o cineasta alega problemas de bastidores com os cortes solicitados pelos produtores, grupo de pessoas que não se importa muito com a qualidade estética e dramática de uma obra, mas com o fluxo financeiro oriundo de narrativas palatáveis e de fácil consumo para o maior número de pessoas. Com a diminuição da faixa etária, mais pessoas podiam contemplar o tórrido e misterioso relacionamento da personagem de Sharon Stone e de seu vizinho voyeur.

Na produção, a atriz interpreta Carly Norris, uma mulher solteira que se muda para um prédio com moradores cheios de vizinhos com segredos minimamente obscuros. Lá, ela será alvo do interesse emocional de Jack Landsford (Tom Berenger). A platinada também deixará Zeke Williams (William Baldwin), fascinado e excitado. Ambos entrarão num jogo de sedução, mas é óbvio o interesse sexual de Norris, protagonista de cenas tórridas de sexo, excluídas da edição final para possibilitar o menor número de cortes da censura, tendo em vista alcançar plateias mais amplas. O que o diretor, em seu pedido de desculpas sobre o filme, um herdeiro mal criado de Hitchcock, esqueceu de dizer é que a produção é sobre voyeurismo, não necessariamente sobre cenas de sexo.

Guiado pelo roteiro de Joe Eszterhas, dramaturgo inspirado no livro de Ira Levin, Invasão de Privacidade traz, em seus 107 minutos, a contemplação de Norris diante do espaço misterioso que habita. Bem sucedida financeiramente, ela se envolve com a atmosfera sombria do prédio, principalmente pelo fato da moradora anterior de seu apartamento ter se matado. A abertura das janelas indiscretas da trama se iniciam quando sabemos que o personagem de William Baldwin é um homem de caráter duvidoso, interessado em observar os moradores por meio de um circuito de câmeras desconhecido pelas pessoas que são radiografadas em seu cotidiano. O que há por detrás deste homem interessado no comportamento alheio?

Saberemos mais adiante que o seu foco é observar os hábitos das mulheres que deseja, tendo em vista conquista-las com os seus truques, afinal, ele sabe exatamente “do que as mulheres gostam”. Se fosse apenas uma atmosfera de amor e desejo, tudo bem, mas a coisa começa a ficar complicada quando alguns assassinatos ocorrem, todos interligados ao personagem de Sharon Stone. Enquanto os caras rivalizam por ela, a “donzela” teme a morte. Em seu percurso narrativo, Invasão de Privacidade dialoga com Hitchcock na tentativa de criar suspense diante de situações complexas. Há alguém sendo observada por outro, sem a devida autorização. Temos também o observador que não consegue conter seus impulsos, pois o voyeurismo parece uma válvula de escape para algo que lhe falta em demasia.

Com os seus conflitos internos e externos, bem como as suas respectivas necessidades dramáticas expostas, o que faltou ao filme foi uma boa execução. A malícia, o forte anseio pela intimidade do outro, a curiosidade mórbida, dentre outros temas, justifica a produção de um ensaio ou artigo jornalístico, não um filme de quase duas horas. A tentativa de criar mistério encontra eco com a personagem morta anteriormente, uma espécie de cópia de Carly Norris. Se num filme de Hitchcock essa espécie de “Rebecca” ganharia delineamento adequado até o desfecho, com os meios de produção do australiano Phillip Noyce, nos deparamos com a abertura da porta do suspense, mas sem nenhum degrau avançado, pois cada oportunidade de ampliar as possibilidades narrativas vai de encontro ao filme óbvio que os realizadores pretendiam entregar ao público.

Com direção de fotografia assinada por Vilmos Zsigmond, Invasão de Privacidade não é um filme que oferta arroubos estéticos, mas cumpre ao menos a sua função industrial automática de narrar por meio da imagem e do som. Os enquadramentos e movimentos acompanham a obviedade do roteiro, pouco inspirado no material ponto de partida. Joe Eszterhas já havia emulado Alfred Hitchcock noutra oportunidade, isto é, se aqui há traços de Janela Indiscreta, em Instinto Selvagem tínhamos uma leitura mais inspirada de determinados elementos de Um Corpo Que Cai. Aqui, parece que há a troca do binóculo de James Stewart pelas câmeras sofisticadas do personagem de Baldwin, caminhante nos cenários gerenciados por Lisa Fischer, adornados pelos adereços da direção de arte de Peter Smith, partes integrantes do design de produção de Paul Sylbert.

Juntos, tais setores são captados pelas câmeras de Zsigmond, também contemplativa dos figurinos de Deborah Lynn Scott, profissional que teve pouco a fazer, afinal, boa parte das cenas os personagens estão seminus. Assim, haja habilidade para lidar com roupas íntimas. O picotador de todo processo é o castrador William Hoy, editor que precisou seguir as ordens do diretor e dos produtores no reajuste das tais cenas tórridas. Lançado em 1993, Invasão de Privacidade antecipou à febre dos reality shows e o desejo fervente de participar da vida alheia, por meio da observação, editada por sinal, coisa que alguns espectadores sequem conseguem perceber, numa ilusória construção narrativa editada para contemplação. Duplo voyeur, ele vê a vida dos “outros”, manipulada por “outros”. Bizarro, mas um falso hitchcockiano.

Invasão de Privacidade (Sliver/Estados Unidos, 1993)
Direção: Phillip Noyce
Roteiro: Joe Eszterhas
Elenco: Sharon Stone, Tom Berenger, William Baldwin, C.C. H. Pounder, Colleen Camp, Martin Landau, Nina Foch, Polly Walker
Duração: 107 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.