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Crítica | Invencível – 4X01 a 04: Tornando o Mundo Melhor / Vou Te Mostrar o Lugar / Preciso Tomar Um Ar / Lamento

Mark quer matar todo mundo!

por Kevin Rick
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos episódios da série.

Acabei me atrapalhando com as críticas semanais da série na semana de estreia, até porque não faz sentido nenhum esse modelo de lançar quatro episódios de uma vez, mas mesmo com o atraso, cá estamos de volta com o nosso espaço para falar sobre a história caótica e traumatizante de Mark e companhia. Vamos lá!

 

4X01
Tornando o Mundo Melhor

A quarta temporada de Invencível começa de maneira curiosa, porque, ao mesmo tempo em que tenta reorganizar o tabuleiro depois do caos absoluto deixado por Angstrom Levy e Conquest, também já mergulha de cabeça naquilo que a série faz de melhor: transformar trauma em motor dramático. Tornando o Mundo Melhor tem uma estrutura quase de retomada operacional, recolocando Mark, Eve, Cecil e os Guardiões em movimento, mas sem fingir que os eventos recentes não deixaram marcas profundas. Pelo contrário, o episódio parece interessado justamente em mostrar que, daqui para frente, nenhuma batalha será apenas uma batalha. Tudo agora vem contaminado por culpa, exaustão e pela sensação de que Mark já não consegue mais habitar o heroísmo com a mesma inocência de antes. É um começo menos explosivo do que poderia parecer no papel, mas dramaticamente bastante consistente.

O elemento mais interessante do capítulo está na maneira como ele amarra ameaças distintas sob um mesmo eixo temático, como o problema de decidir quem merece ser salvo, até onde vai a responsabilidade moral de alguém com tanto poder e o que acontece quando a urgência exige uma resposta que destrói qualquer conforto ético, todos questionamentos perfeitos para o centro temático da série. A presença de Dinosaurus já serve como um ótimo prenúncio disso, não apenas por apresentar uma figura fascinante em sua dualidade entre força bruta e falta de controle, mas porque ela espelha diretamente o estado psicológico do próprio Mark, que segue se percebendo como alguém cada vez mais próximo do desastre. A invasão dos Sequids, por sua vez, retoma um dos conceitos mais interessantes da série e o devolve em uma chave mais madura, em que a solução tecnológica divide espaço com uma decisão brutal que Mark toma no fim. É significativo que o episódio termine não com triunfo, mas com mais uma morte nas costas do protagonista.

Também gosto de como o texto trabalha Eve sem transformá-la em mero apoio emocional. A instabilidade de seus poderes durante a luta contra Universa adiciona uma camada importante de vulnerabilidade para uma personagem que, por vezes, corre o risco de parecer “resolvida” demais dentro da dinâmica da série. Aqui, porém, ela volta a ser alguém atravessada por inseguranças, desgastes e limitações físicas, o que torna ainda mais eficaz o desconforto do jantar com os pais, em mais uma ótima cena doméstica da obra. Como em muitos dos melhores momentos de Invencível, o episódio entende que cenas de mesa, de conversa truncada e de embaraço familiar podem dizer tanto sobre seus personagens quanto uma sequência de destruição em massa. E esse equilíbrio continua sendo um dos maiores trunfos da produção.

Se tenho alguma ressalva, ela passa mais por um certo excesso de informação do que por problemas mais graves. O episódio quer apresentar novas ameaças, reacender núcleos antigos, reconfigurar equipes e ainda plantar ganchos futuros, o que por vezes deixa a narrativa com aquela sensação de prólogo expandido ou de muita coisa apresentada sem necessidade (o próprio Dinosaurus parece mal colocado aqui, anda que qualquer leitor dos quadrinhos tenha ciência da sua importância). Ainda assim, o saldo é bastante positivo, sobretudo porque tudo gira em torno de uma pergunta muito clara: que tipo de herói Mark consegue ser agora? Ao matar Rus Livingston, o capítulo deixa evidente que a temporada não pretende aliviar o peso sobre os ombros do protagonista. E, honestamente, é exatamente aí que Invencível costuma encontrar sua melhor forma.

 

4X02
Vou Te Mostrar o Lugar

Se o episódio de estreia tem a função de recolocar a Terra em movimento, Vou Te Mostrar o Lugar amplia o escopo da temporada de maneira bastante eficiente ao voltar seus olhos para o universo político e histórico dos Viltrumitas. É um capítulo claramente mais expositivo, mas daqueles em que a exposição vem carregada de peso dramático e de contexto suficiente para fazer a mitologia da série parecer maior, mais antiga e mais trágica. Nolan assume o centro da narrativa e isso, por si só, já fortalece o episódio, porque poucos personagens em Invencível carregam tantas contradições interessantes quanto ele. Fiquei positivamente surpreso com as cenas de flashback – que, aliás, não existem nos quadrinhos -, revelando sua juventude, seu processo brutal de formação e a devastação causada pelo vírus, momentos que agregam bastante à construção do personagem, em um excelente exemplo de que adaptações devem, sim, adicionar, alterar e somar ao material de origem.

O mais interessante é que o episódio evita transformar a história dos Viltrumitas em mero lore decorativo. Tudo que é revelado aqui tem função dramática e política muito concreta, seja para redimensionar o peso simbólico de Nolan, seja para complexificar o tabuleiro em torno de Thragg, Thaedus e da Coalisão dos Planetas. A revelação de que Thaedus criou o próprio vírus que devastou sua raça é particularmente boa porque reintroduz, em escala galáctica, um dos dilemas morais preferidos da série: até onde se pode ir em nome de um bem maior? Mais uma vez, Invencível recusa respostas simples. O personagem pode ser visto como salvador ou monstro, estrategista ou genocida, e o episódio é esperto ao não insistir em nenhuma dessas chaves de maneira definitiva. Nolan, inclusive, funciona como espelho perfeito desse desconforto moral, porque sua reação é de indignação, mas também de reconhecimento da lógica cruel que sustenta aquele universo.

Há ainda algo de muito eficaz no contraste entre a dimensão épica do episódio, inserindo a obra no eixo mais do gênero sci-fi que deve tomar conta do restante da obra, e a intimidade emocional que continua acompanhando Nolan e Allen. A parceria dos dois segue rendendo muito bem, equilibrando informação, humor e tensão, e Seth Rogen continua sabendo explorar o carisma meio absurdo de Allen sem esvaziar a seriedade da trama. Gosto especialmente de como o texto deixa subentendido que toda essa engrenagem militar, científica e diplomática pode, no fim das contas, desembocar novamente em Mark. Há uma espécie de fatalismo na promessa de que o garoto será convocado como “último recurso”, como se a série estivesse anunciando que todo o horror cósmico eventualmente vai desabar, mais uma vez, sobre alguém que ainda está tentando entender o próprio lugar no mundo.

Talvez o único ponto que impeça o episódio de soar mais arrebatador esteja no fato de ele funcionar muito como peça de preparação. É um capítulo menos guiado por clímax e mais por revelações e reposicionamentos, o que pode dar a impressão de pausa estratégica em vez de avanço imediato. Ainda assim, é uma pausa muito bem construída, daquelas que enriquecem retrospectivamente tudo que já vimos e preparam com inteligência o que ainda está por vir.

 

4X03
Preciso Tomar Um Ar

Depois de um episódio mais concentrado na dimensão cósmica da história, Preciso Tomar Um Ar retorna à fragmentação típica de Invencível, reunindo múltiplos núcleos e ameaças simultâneas em um capítulo que, curiosamente, funciona melhor como acúmulo temático do que como linha narrativa coesa. Digo isso sem necessariamente tratar como defeito, porque a série, mesmo nem sempre circulando por tramas paralelas da melhor maneira, sabe como, no final, que os núcleos conversem entre si em torno de um mesmo eixo dramático. E aqui esse eixo é bastante claro: culpa, perda de controle e a dificuldade crescente de distinguir intenção, consequência e julgamento. Mark continua abalado pela morte de Rus, Eve perde domínio sobre os próprios poderes, Oliver é empurrado para uma missão grande demais para sua maturidade e até Robô e Garota-Monstro se veem diante de uma decisão que reabre, por outros meios, o debate sobre métodos extremos.

O núcleo de Titã, Liu e Oliver talvez seja o que melhor sintetiza isso. Gosto de como a série volta a esse submundo urbano e mafioso sem abandonar a lógica moral que vem corroendo Mark desde a temporada passada. Ao mesmo tempo, o episódio encontra bons paralelos no restante da narrativa. O retorno dos Flaxans, por exemplo, funciona quase como uma ameaça “tradicional” de super-herói, mas o texto usa essa familiaridade justamente para contrastá-la com a descoberta mais perturbadora do capítulo: Robô e Garota-Monstro encontram uma civilização altamente avançada e perigosíssima, antes de ficarem presos naquele mundo. É uma boa virada porque retira os Flaxans do lugar de piada recorrente e os reposiciona como um problema mais sério, com implicações que claramente vão ultrapassar esse episódio. E, em meio a tudo isso, Eve segue atravessando sua própria crise, o que ajuda a manter vivo o interesse da série por vulnerabilidades íntimas dentro de um cenário cada vez mais caótico.

O grande gancho, claro, é a revelação da gravidez de Eve, que tem tudo para reorganizar completamente o arco do casal. Confesso que esse tipo de desfecho corre sempre o risco de soar como mecanismo dramático fácil, mas, no contexto específico de Invencível, ele surge num momento muito apropriado: Mark está emocionalmente descentrado, moralmente confuso e cada vez mais incapaz de separar heroísmo de brutalidade. Introduzir a perspectiva da paternidade em meio a esse cenário parece menos um choque artificial e mais uma intensificação natural da tragédia íntima do personagem. Preciso Tomar Um Ar pode até parecer espalhado demais em alguns momentos, mas encontra unidade justamente nessa sensação de que todos, por razões diferentes, estão perdendo o controle. E a série, como sempre, sabe transformar esse descontrole em ótimo entretenimento.

 

4X04
Lamento

Entre os quatro episódios iniciais, Lamento é facilmente o mais estranho, e digo isso quase como elogio. Há algo de deliciosamente deslocado na forma como a temporada, em vez de seguir uma linha mais previsível depois do gancho envolvendo Eve, gravidez e o retorno iminente de Nolan, resolve empurrar Mark para uma aventura infernal envolvendo Damien Darkblood, Ka-Hor, Satanás, coroas flamejantes e uma guerra no próprio Inferno. Claro que há um nível aqui de desvio gratuito e de mais uma trama solta numa narrativa já engasgada de núcleos paralelos, mas dentro da proposta mais protocolar do capítulo, dá para se divertir com a fantasia demoníaca e o espetáculo sobrenatural, sendo que a pequena “aventura” continua trabalhando o esgotamento moral de Mark e sua necessidade desesperada de encontrar algum sentido para a violência que o cerca.

É muito bom, nesse sentido, que o texto comece por Art. A conversa entre os dois, acompanhada do retorno do uniforme antigo, tem uma força emocional simples, mas muito eficaz, porque devolve a Mark uma espécie de memória afetiva de quem ele era antes do acúmulo quase insuportável de tragédias e decisões extremas. A aventura no Inferno então entra como uma extensão quase alegórica desse estado interno do protagonista. Não chega a ser um episódio particularmente profundo em sua mitologia demoníaca — e nem acho que precise ser —, mas tem inteligência suficiente para transformar a descida de Mark a esse cenário grotesco em mais uma prova de resistência física e emocional. Além disso, Darkblood volta muito bem ao jogo, recuperando um personagem cuja presença sempre teve um potencial excêntrico interessante dentro do universo da série, ainda que pareça um pastiche de Hellboy e Constantine.

No fim, Lamento se desvia da trama principal, e mesmo não sendo um episódio exatamente memorável, é um daqueles capítulos que reforçam a elasticidade tonal de Invencível sem comprometer sua identidade dramática. O retorno de Nolan e Allen no encerramento, justamente quando Eve se prepara para contar a Mark sobre a gravidez, fecha o episódio com um timing perversamente bom, interrompendo qualquer possibilidade de respiração emocional e recolocando o peso do universo sobre o protagonista. Depois de flertar com ficção científica militar, crime urbano e horror demoníaco em apenas quatro episódios, a temporada mostra que continua confortável em sua própria desordem, para bem ou para mal.

Invencível – 4X01 a 04: Tornando o Mundo Melhor / Vou Te Mostrar o Lugar / Preciso Tomar Um Ar / Lamento (Invincible – 4X01 a 04: Making the World a Better Place / I’ll Give You the Grand Tour / I Gotta Get Some Air / Hurm) – EUA, 2026
Criado por: Robert Kirkman, Cory Walker, Ryan Ottley
Direção: Sol Choi, Jason Zurek, Stephanie Gonzaga, Ian Abando
Roteiro: Simon Racioppa, Helen Leigh, Ross Stracke, Robert Kirkman
Elenco: Steven Yeun, Sandra Oh, J.K. Simmons, Jason Mantzoukas, Gillian Jacobs, Zazie Beetz, Walton Goggins, Grey Griffin, Chris Diamantopoulos, Khary Payton, Jay Pharoah, Andrew Rannells, Ross Marquand, Seth Rogen, Sterling K. Brown, Eric Bauza, Clancy Brown, Cliff Curtis, Shantel VanSanten, Reginald VelJohnson, Luke Macfarlane, Calista Flockhart
Duração: Aprox. 50 min. cada episódio

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