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Crítica | Invencível – Vol. 10: Quem é o Chefe?

por Kevin Rick
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Quem é o Chefe?

Apesar de estar fazendo uma releitura de Invencível, eu não tenho uma memória completa da cadeia de eventos da série, especialmente nesta metade inicial. Dessa forma, fiquei bastante surpreso com a abordagem de Kirkman em Quem é o Chefe?. Não é uma surpresa em relação ao teor da narrativa, que é Invencível na veia, mas sim do momento que o autor resolveu abrir a discussão do “certo ou errado?” com mais enfoque. Pela construção dos últimos dois volumes, Meu Marciano Favorito e Fora Deste Mundo, a decisão narrativa esperada seria o início da Guerra Viltrumita, ou talvez mais algumas elaborações para o combate contra o Viltrum, contudo, Kirkman decide tomar seu tempo para iniciar um debate de conceitos relacionados ao papel do herói neste universo. E pensando em como tal concepção de limites em combate é um dos cernes de qualquer guerra, faz bastante sentido um volume focado no assunto.

Na trama, ainda falando do ideal acima, Kirkman divide o debate em dois arcos muito bem construídos, tanto individualmente quanto em conjunto, dialogando com a mesma temática sobre o limite das ações de quem protege os inocentes. O primeiro é em relação a Cecil, o parceiro e benfeitor governamental do protagonista, que vinha, obviamente, abrigando os vilões D.A. Sinclair, junto de seu exército de mortos-vivos, e Darkwing, um vigilante assassino capturado pelo Mark, para seus próprios interesses de manter a Terra protegida. Traição, decepção e desconfiança são alguns dos sentimentos levados à Mark, e a forma como o roteiro constrói a rasteira do mentor no protagonista merece atenção especial, já que, mesmo compartilhando da raiva do Mark, existe uma pontinha de entendimento pelos ideais do Cecil. O Universo heróico de Invencível não é preto no branco. Tudo é cinza e nublado, e a responsabilidade de Mark encontra-se no equilíbrio de tudo isso, ao mesmo tempo que sua característica fúria se torna um elemento comum na série.

Quem é o Chefe?

Mas é na segunda parte do volume que vemos a excelência da escrita de Kirkman, trazendo essa discussão para o relacionamento entre Mark e Oliver, após o novo sidekick assassinar dois vilões, ainda que de forma “acidental”, sem demonstrar qualquer tipo de remorso pelo ato. É interessante notar como não tivemos muitas interações entre os irmãos até aqui, e o fato dos primeiros momentos mais intimistas da dupla já serem de altercação e desavença, transformam o arco de Oliver, meio antagônico e amoroso, em uma intrigante linha de desenvolvimento da série, e para o próprio Mark, que assume uma figura de mentor, irmão mais velho, e até paterna, mas que aparenta ser de total desinteresse do roxinho. Aliás, o confronto ideológico dos dois desdobram curiosos pensamentos do Mark em relação à filosofia Viltrumita e de Nolan, outra elaboração narrativa importantíssima para a possível – e inevitável – guerra.

Além disso, o núcleo entre Mark e Eve é a única notícia boa para o protagonista neste volume, e confesso ter adorado todos os momentos românticos e de cumplicidade da dupla. Mesmo sendo uma HQ, a forma como Kirkman escreve os dois transpõe bastante química, tornando seu namoro não apenas narrativamente orgânico, mas até uma leitura aconchegante e de estampar sorrisos bobos. Por fim, Quem é o Chefe? é um excelente volume na série, pois estabelece elementos, que mesmo sendo explorados anteriormente, recebem um cuidado especial aqui, concebendo intrigantes discussões ideológicas para o protagonista com muita violência.

Invencível – Vol. 10: Quem é o Chefe? (Invincible – Vol. 10: Who’s the Boss?) – EUA, 2008

Contendo: Invencível #48 a 53
Roteiro: Robert Kirkman
Arte: Ryan Ottley
Colorista: Bill Crabtree, FCO Plascencia
Letras: Rus Wooton
Editora original: Image Comics
Data original de publicação: fevereiro de 2008 a outubro de 2008
Páginas: 171

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2 comentários

Starr-Lord 28 de fevereiro de 2021 - 21:02

Esse volume ficou na minha memória e eu acho que o motivo para isso é que gosto muito do Oliver Grayson, acho que já disse isso uma vez, mas vou ressaltar. Acho muito interessante ver os contrastes dele com o Mark, porque o caçula é mais frio e possui uma conexão menor com a humanidade e isso é até refletido no nome dele, já que, enquanto que alguns assistentes são mais conectados com o nome do mentor, como Flash e Kid Flash, Mulher-Maravilha e Moça-Maravilha, ainda que não seja uma regra, só ver o caso Batman e Robin, o roxo utiliza um Kid, mas não Kid Invencível, e sim Kid Omni-Man, dando uma pista sutil que, assim como o pai no início, sua moralidade não é como a do Mark.

Eu também gosto muito da discussão sobre moralidade aqui. É um tema que, quando bem feito, felizmente o caso nesse volume, torna a leitura muito interessante e como você mesmo disse, o leitor compartilha da raiva do Mark, mas entende o Cecil. Lembro muito o quão estranho achei o traje azul na minha primeira leitura, mas isso é só chatice minha, pois gosto muito do trabalho de cores, um baita contraste com os elementos mais sombrios e eu amo as grandes sequências de ação cheias de personagens ilustradas pelo Ottley, ele dá um jeito de fazer um caos organizado sensacional.

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Kevin Rick 2 de março de 2021 - 11:10

Ótima análise da nomeação do personagem, é uma tremenda pista para o estilo de pensamento do Oliver mesmo. Sobre o traje, o original tem um lugar especial no meu coração, mas gosto bastante do azul também. E como você disse, o Ottley é sensacional. Ainda quero ver ele e o Kirkman em outra empreitada futuramente hehe

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