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Crítica | Invencível – Vol. 3: Perfeitos Estranhos

por Kevin Rick
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Se Oito é Demais marca o início da transformação completa do tom de Invencível, o terceiro volume, Perfeitos Estranhos, é a encarnação total do sádico olhar de Robert Kirkman para o gênero de super-heróis. O otimismo outrora responsável por ditar a narrativa de Mark é desprezado, desmemoriado e negligenciado. A estupenda vida do protagonista precipita no abismo desalumiado, divergindo o enredo da habitual paródica aventura semanal do herói adolescente. Considerando como o quadrinho começou a se tornar uma leitura repetitiva no início do segundo volume, a modificação temática não é apenas bem-vinda, como também é necessária. Kirkman prospera no humor que ao mesmo tempo paga homenagem e tira sarro das convenções do gênero, mas o esgotamento criativo das piadas se torna claro no estilo de escrita cético do autor.

Não é que Kirkman não saiba ser otimista, pois ele definitivamente sabe, mas suas histórias florescem no vislumbre pessimista das relações humanas. Sua magnum opus sobre um apocalipse zumbi evoca todos esses elementos brilhantemente, mas até mesmo outros recentes quadrinhos assinados por ele, Oblivion Song (também pós-apocalíptico) e Die!Die!Die!, mantém essa linha narrativa que conversa sobre a ambivalência moral do homem. Justamente por isso que Invencível, neste arco, mostra-se a obra mais interessante dentro dos padrões de escrita do autor – veja que disse interessante, já que o título de melhor criação de Kirkman é, sem sombra de dúvidas, de The Walking Dead –, pois, apesar de sua visão sombria para a jornada que começa a ser elaborada para Mark, ele continua brincando com os clichês e inserindo o humor tão característico dos outros volumes. A positividade não é mais o cerne da obra, mas oposto à coleção de criações do autor, a atmosfera de esperança não é rarefeita.

A chocante reviravolta de eventos na história se dá pela revelação que Omni-man está longe de ser o bom samaritano que todos imaginavam. Ele não apenas assassinou os Guardiões do Globo, como já havia sido mostrado – e que poderia muito bem ser uma tentativa de impacto vazio, expondo um vilão metamorfo ou algo do tipo, mas aí não seria Kirkman -, mas o Superman de bigode também está numa missão interplanetária de conquista universal, infiltrando-se na Terra para assimilar nossa cultura, fraquezas e costumes, iniciando a apoderação do planeta azul para o Império Viltrumita. É interessante notar como Omni-man era uma amálgama dos estereótipos heroicos, mas o roteiro desconstrói o personagem não em prol da surpresa pela surpresa, mas inicia a elaboração de antagonista sofrendo uma crise de identidade, com dúbios sentimentos relacionados ao dever para seu planeta natal ou para sua família. Em um curto espaço de tempo, o pai de Mark transforma-se no personagem mais interessante e profundamente trágico da obra.

Perfeitos Estranhos

Todo o cunho adolescente do quadrinho é preservado nos momentos que antecedem a luta com seu pai. A revelação do passado e da verdadeira natureza de Nolan atua como a quebra da realidade de Mark, fazendo até mesmo um paralelo com a vida real sobre as dificuldades que acompanham o caminho para o mundo adulto. Os diálogos pós recobramento de consciência evidenciam a distinta visão do protagonista do cenário real, com dantes adversidades realçando a sublime vivência que não retornará. O amadurecimento imprevisto do roteiro força Mark a entender as atribulações do fardo heroico, antes exposto como fantástico. O arco de desenvolvimento de Mark toma novos ares felizmente bem articulados.

Há também a notável substituição do artista. Cory Walker deixa a obra, dando espaço para o magnífico Ryan Ottley. A arte simplória de Cory funcionava na temática descontraída proposta anteriormente, mas na nova série de acontecimentos deste arco, duvido que o trabalho de Cory complementaria tão bem a trama de Kirkman como a de Ryan. E o timing não poderia ser mais perfeito, iniciando na última edição do volume anterior, e elevando o novo teor visceral de Perfeitos Estranhos. O traço de Ryan é um pouco cartunesco, mas o artista sabe expressar violência como poucos, casando perfeitamente com as cores vivas de Crabtree e a dualidade do quadrinho proposta por Kirkman.

Invencível mostra ao que veio, transitando para novas áreas, revigorando o gênero, mas mantendo o charme do primeiro volume. A cadeia de eventos evidenciam que esta história está longe da descontração, e que as aventuras de Mark serão mais hercúleas do que o esperado. Kirkman compõe o terreno para uma das mais sangrentas e divertidíssimas obras de heróis. As adversidades de Mark finalmente começaram.

Invencível – Vol. 3: Perfeitos Estranhos (Invincible – Vol. 3: Perfect Strangers) – EUA, 2004
Contendo: Invencível #9 a 13
Roteiro: Robert Kirkman
Arte: Ryan Ottley
Colorista: Bill Crabtree
Letras: Robert Kirkman
Editora original: Image Comics
Data original de publicação: Fevereiro a maio de 2004
Editora no Brasil: HQM
Data de publicação no Brasil: janeiro de 2007
Páginas: 140

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