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Crítica | Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio

por Iann Jeliel
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Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio

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O destino do invocaverso foi selado com Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio, onde o caminho segue a tendência do que aconteceu com as outras franquias da mente idealizadora de James Wan, Jogos Mortais e Sobrenatural, começando muito bem, dentro de uma proposta de terror comercial, e se perdendo à medida que eram entregues a diretores apadrinhados por Wan que não possuem metade de sua qualidade como diretor. Eu até gosto da sua ideia na teoria, abrir franquias assumidamente populares que utilizam os clichês de terror sem medo para puxar um antigo sentimento no público remetente aos slasher oitentistas, do terror como entretenimento de “galera” – algo ainda mais nítido nessa franquia, que além de estar de acordo com o forte movimento de terror sobrenatural dos anos 2000, pega a tendência dos anos 2010 de conceber um universo cinematográfico interconectado de histórias –, deixando um cenário ideal para ser uma ponte autoral em busca de potenciais novos nomes de bons cineastas de gênero.

Inclusive, nem todos os seus “afilhados” são maus diretores, Leigh Whannell e David F. Sandberg foram ótimos aprendizes, tanto que já conseguiram alavancar suas carreiras e se provar depois dos experimentos em Sobrenatural: A Origem e Annabelle 2: Criação do Mal. Contudo, esse não era o caso de Michael Chaves, apadrinhado por Wan em A Maldição da Chorona, outro dos vários spin-off desse universo Invocação do Mal que na prática colocam essa ideia mais como uma oportunidade caça-níquel de filmes baratos, que geram muito lucro ao carregar o nome da franquia popular. Não sei o que Wan enxergou de potencial nele para entregar a continuidade (que pode ser até um final de trilogia) do título da principal da saga dos Warren, mas fato é que o resultado é no mínimo aquém dos outros dois. Diria que a falta de Wan leva essas franquias ao “lugar comum”, mas estaria sendo injusto, porque no fundo elas sempre foram. Só que existia em sua mão uma certa empolgação e conhecimento no gênero que tornava aqueles elementos, replicados de outros trocentos lugares, icônicos a sua própria forma.

É só pegarmos os vilões marcantes dos dois primeiros, no caso, Annabelle e a Freira Valak, e pensarmos direito que veremos que elas não passam de demônios genéricos. Ele é quem dava personalidade àquelas figuras, ou melhor, a sua boa direção tornava-as assustadoras além da concepção básica, que por mais que tivessem um visual marcante e backgrounds bem-trabalhados, por si só não se sustentavam, como provam seus péssimos spin-off. A primeira grande falta de Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio é a ausência de um vilão marcante como eles, ainda que a elaboração da narrativa tente direcionar a ameaça para um nível mais pessoal a Ed (Patrick Wilson) e Lorraine (Vera Farmiga), logo, a “maior” ameaça que eles enfrentaram. Não se trata de um filme de um dos seus casos, a premissa até se instaura com um – numa primeira cena até promissora, a melhor do filme, diga-se de passagem –, mas logo o desenvolvimento da história fecha-se em um nível intimista ao casal, algo que seria bom se não tivesse acompanhado na mesma estrutura de terror espaçado por blocos e buscasse realmente a angústia dramática e atmosférica da situação dos dois.

A estrutura é mantida porque de alguma forma o filme ainda busca seu caráter popular, mas infelizmente Michael Chaves não consegue balancear as ideias a se complementarem. O terror de blocos acaba deixando os momentos de tensão demasiadamente espaçados pela necessidade de explorar as consequências no sentimento dos personagens. E aí, quando falo em personagens, não são só os Warren, mas também alguns secundários do caso que viria a se tornar secundário de qualquer forma, ou seja, as suas dramáticas acabam preenchendo tempo a mais de tela, prejudicando o desenvolvimento que era para ser importante, tornando o espaço sem terror, insosso e chato. Quando vamos olhar as cenas assustadoras, nenhuma carrega o mínimo de maturação do tempo do susto, aquela famosa enganada dizendo que vai haver um jump-scare, não há e ele aparece em outro momento nos pegando de surpresa, fora que são os poucos que representam realmente alguma ameaça à vida das pessoas envolvidas. São sustos apelativos? Não chegam a tanto, mas são ineficientes pelo momento e onde são inseridos.

Não dá para culpar a história de se passar principalmente num ambiente urbano e em várias locações diferentes, mas esse caráter investigativo amplo buscado sem dúvidas prejudicou ainda mais a eficiência do terror. Quando ela se passava em uma mesma casa assombrada, a concepção do cenário, com o design de produção sempre caprichado, e a exploração gradual dela através da crescente das situações assustadoras aplicavam uma atmosfera quase que automática ao longa, enquanto aqui o filme sente dificuldade em aplicá-la até num ponto uniforme já desenvolvido – no caso, o casal Warren –, quem dirá em fazer intercalações deles interagindo com outros personagens passageiros para buscar a resolução de um mistério, que no fim das contas, nem parece ter os levado a um ápice questionador da posição de demonologistas – graças à total falta de urgência na direção de Chaves no ato final –, sendo mais propício a ser usado como uma nova expansão de um universo já desgastado nesse ponto, e agora, também em seu título principal.

Se apostassem em um drama de tribunal de exorcismo  (tipo O Exorcismo de Emily Rose) – como em algum momento o filme ficou inclinado a fazer, acho que seria uma saída ideal para dar mais sentido a alguns flashbacks indicativos do quanto essa franquia está com falta do que contar –, pelo menos daria para manter o nome Invocação do Mal sem manchas genéricas gritantes na sua fórmula já manjada pelos spin-off. Como não tinha nem isso para dar o mínimo de personalidade a Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio, sobra a decepção de termos mais uma boa e tão promissora franquia com universo compartilhado no terror escanteada à mediocridade que o gênero não merece.

Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio (The Conjuring: The Devil Made Me Do It | EUA, 2021)
Direção: Michael Chaves
Roteiro: James Wan, David Leslie Johnson-McGoldrick
Elenco: Patrick Wilson, Vera Farmiga, Ruairi O’Connor, Sarah Catherine Hook, Julian Hilliard, John Noble, Eugenie Bondurant, Shannon Kook, Ronnie Gene Blevins, Keith Arthur Bolden, Steve Coulter, Vince Pisani, Ingrid Bisu, Andrea Andrade, Ashley LeConte Campbell, Sterling Jerins, Paul Wilson, Charlene Amoia
Duração: 109 minutos

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