Crítica | Irmãos de Sangue (1995)

Enquanto ainda terminava Irmãos de Sangue, Spike Lee foi entrevistado por um profissional de jornalismo do Brasil. A conversa versou sobre as questões raciais e os problemas dos afroamericanos na metade dos anos 1990, situação que parece não ter melhorado com as evoluções sociais dos últimos tempos. Uma das perguntas tratava da opinião do cineasta em relação ao “seu povo”: as coisas estavam melhores naquela época ou ainda reverberavam celeumas da época do período turbulento de sua infância?

Ao responder, Spike Lee foi enfático, apontando que as coisas provavelmente estavam piores, haja vista o surgimento de drogas devastadoras como o crack, além do aumento da violência entre o próprio povo negro, ameaçado por rivalidades internas, bem como as condições legais favoráveis ao acesso às armas de fogo. Na época, o congresso se encontrava tomado pelos republicanos, gerenciados pela administração de Newitt Gingrich, atacados veementemente em questões bem nevrálgicas, tal como os programas sociais, o que culminou no aumento da exposição da população negra aos problemas comuns das zonas periféricas urbanas: moradia ruim, condições de saúde precárias, acesso ao mundo do crime e da violência, etc.

Irmãos de Sangue é um filme que está dentro deste esquema de reflexão. É uma narrativa sobre drogas, violência urbana, laços de família, convenções sociais repletas de moralismo, isto é, um sonoro “chamamento” para o povo que precisa sair da alienação e da condição praticamente subalterna. Intitulado Clockers no “original”, termo que em língua portuguesa pode ser traduzido para “avião”, gíria que define um jovem, geralmente menor de idade, morador da favela ou de regiões desprivilegiadas, responsável pela distribuição das drogas dos responsáveis pelas “bocas de fumo”.

Dirigida por Spike Lee, escrita em parceria com Richard Price, romancista que se guiou pelo próprio livro homônimo, a trama traz a seguinte estrutura: Victor Dunham (Isaiah Washington) e Ronald “Strike” Dunham (Mekhi Phifer) são dois irmãos que cresceram num conjunto habitacional e viveram experiências similares. Victor trabalha como “avião”, mas uma reviravolta rocambolesca muda tudo na vida de todos os envolvidos ao seu redor. Um traficante rival é assassinado e o rapaz se apresenta como autor do crime, mas será mesmo que ele é o responsável pela execução?

É o que os detetives Rocco Klein (Harvey Keitel) e Larry Mazilli (John Turturro) vão tentar descobrir, o primeiro com obstinação e fervor, o segundo por meio de métodos “pouco convencionais”. Assim, além deste problema, o irmão que fica de fora, ainda vivendo a perigosa e pantanosa cena urbana periférica, precisa lidar com Rodney Little (Delroy Lindo), um homem que vive na criminalidade, tendo ainda que sobreviver diante do preconceito cotidiano e das mazelas do seu bairro.

Com produção de Martin Scorsese, a narrativa de 128 minutos traz em seu discurso inflamado de insatisfação, a diversidade racial e cultural que engendra as relações cotidianas nestas zonas sem privilégios. São espaços agonizantes e marcados pela concepção estética pouco harmonizada, fruto da desigualdade social extrema. Lançado em 1995, o filme traz para o público os problemas que ainda são urgentes “hoje”: mães que lutam desesperadamente para que os seus filhos não se tornem estatísticas da criminalidade, seja como vítima da violência ou como agente desta que é uma das maiores celeumas da vida em sociedade nos grandes centros urbanos.

Irmãos de Sangue teve condução musical de Dori Caymmi, membro da equipe de produção responsável por adornar as cenas captadas pela direção de fotografia de Malik Hassan Sayeed, em sua maioria, cenas que expõem os conflitos dos personagens em imagens diurnas. Os espaços criados pelo design de produção de Andrew McAlpine dão conta do tom almejado pelo roteiro, em especial, os figurinos propostos por Ruth E. Carter e a direção de arte da dupla formada por Ina Mayhem e Tom Warren, setor preocupado com detalhes.

Dos filmes de Spike Lee diretamente conectados aos debates acerca do racismo e da questão social dos afroamericanos, Irmãos de Sangue é um dos “menores”, mas ainda assim interessante. A produção abre com cenas de violência, crianças curiosas a observar o cadáver estirado, alvejado por balas. Os créditos trazem uma série de reportagens e pedaços de jornais com manchetes do tipo “arma de brinquedo, tragédia de verdade”, numa colagem sobre a realidade que será abordada ao longo do filme. Ocupante do mesmo “espaço” reflexivo que o razoável Código das Ruas, telefilme sobre embates raciais entre brancos, chineses e negros, o filme traz o cineasta com um discurso novamente inflamado, mas sem o mesmo teor crítico que Faça a Coisa Certa, Febre na Selva e Malcolm X.

Irmãos de Sangue (Clockers, Estados Unidos – 1995)
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee
Elenco: Delroy Lindo, Harvey Keitel, Isaiah Washington, John Turturro, Keith David, Mekhi Phifer, Mike Starr
Duração: 128 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.