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Crítica | Irmãs Diabólicas

A primeira obra hitchcockiana de De Palma.

por Ritter Fan
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Brian De Palma é conhecido como o Mestre do Macabro e também como um dos diretores que mais consistente e qualitativamente canalizou Alfred Hitchcock. No entanto, o começo de sua carreira não tem relação alguma com filmes de suspense ou terror. Quem assiste Quem Anda Cantando Nossas Mulheres, ou sua continuação Olá, Mamãe só vê um cineasta refestelando-se no movimento hippie e na contracultura, mas já mostrando sua técnica, por ele sempre ter sido um diretor cuidadoso na forma como lida com a câmera, com ângulos e com o cenário em geral.

Sua jornada para ganhar a alcunha que dominou sua filmografia nos anos 70 começou com Irmãs Diabólicas, longa que De Palma co-escreveu com Louisa Rose, estrelado por Margot Kidder cinco anos antes de famosamente viver a jornalista Lois Lane, em Superman – O Filme e por Jennifer Salt, que já trabalhara com De Palma, em uma estrutura narrativa que bebe sem vergonha alguma de Psicose e de Janela Indiscreta, inclusive contando com trilha sonora de ninguém menos do que Bernard Herrmann, em um excelente trabalho pós-Hitchcock que já marca o tom da obra desde seus segundos iniciais. E não foi um começo por acaso. De Palma cirurgicamente “tramou” o preenchimento desse espaço cinematográfico setentista de caso pensado, procurando justa e propositalmente entrar em um nicho em que ele poderia prosperar.

E prosperar ele prosperou. Irmãs Diabólicas pode não ser sua obra-prima – na verdade, passa longe disso -, mas é um puro De Palma incorporando Hitchcock sem exatamente imitar de maneira vazia o mestre britânico. Kidder vive a modelo franco-canadense Danielle Breton que, depois de um desconfortavelmente estranho programa de pegadinhas, conecta-se com sua “vítima”, o publicitário afrodescendente Phillip Woode (Lisle Wilson) que, como prêmio, ganha do canal de TV um jantar para dois no African Room, restaurante de temática africana (obviamente) em que os atendentes são todos homens afrodescendentes vestidos de fraques que deixam seu corpo à mostra, em uma nada discreta crítica socioeconômica logo na largada. Ato contínuo, os dois passam a noite juntos e, na manhã seguinte, Phillip e o espectador descobre que Danielle tem uma irmã gêmea, Dominique, que não é vista, apenas ouvida discutindo em francês com Danielle, com as duas fazendo aniversário naquele dia. O que segue é puro Psicose seguido da observação do ocorrido pela repórter Grace Collier (Salt) no melhor estilo Janela Indiscreta que, então, passa a investigar Danielle primeiro com a polícia e, depois, com um detetive particular.

O terço inicial do longa é imbatível em construção de personagens e criação de tensão, com a lentamente construída dinâmica de Kidder com Wilson funcionando sem falhas, especialmente no que diz respeito ao carisma que emana de Wilson e que De Palma manipula com todo cuidado, até o também espetacular momento de virada que muda completamente o status quo do filme a partir da entrada de Salt como a jornalista abelhuda Collier. O problema está justamente nessa “troca de chave”, algo que Hitchcock faz como ninguém em Psicose, mas que De Palma não se sai tão bem. É até interessante acompanhar os momentos investigativos iniciais e a chegada – para ficar – de Emil Breton, o ex-marido de Danielle vivido pelo deliciosamente sinistro William Finley, mas não demora para Salt perder o sal (não resisti) e toda a força motriz que poderia tornar sua personagem mais do que uma mulher perdida dando cabeçadas como se fosse uma completa idiota.

Também não ajuda muito a progressão cada vez mais surrealista dada pela fita pelo roteiro. Na verdade, minto. Ajuda sim, pois esse artifício não deixa que Irmãs Diabólicas caia na mesmice em momento algum, mas, em termos narrativos, fica a bizarrice pela bizarrice, com direito a uma quantidade razoavelmente grande de momentos didáticos que acabam cansando e protraindo a história por mais tempo do que deveria, mesmo que o filme não seja muito longo. E a resolução de tudo, ironicamente, parece corrida, rasa, como se o diretor tivesse esgotado seus recursos visuais e, com isso, tivesse preferido simplesmente acabar, no lugar de realmente terminar, se é que vocês me entendem.

Mas Irmãs Diabólicas marca o espectador. Seja por ser um De Palma ainda em formação, seja por ser uma das melhores obras hitchcockianas de uma época cheia delas pelos mais diversos cineastas querendo aproveitar-se do Mestre do Suspense. Mas a marca de De Palma vai além da homenagem, além da imitação, com o cineasta realmente imprimindo seu estilo neo-gótico em uma história desconfortável e diferente, mesmo que a real novidade e brilhantismo fiquem quase que completamente limitados ao terço inicial, com boa vontade a metade inicial.

Irmãs Diabólicas (Sisters – EUA, 1973)
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Brian De Palma, Louisa Rose
Elenco: Margot Kidder, Jennifer Salt, William Finley, Charles Durning, Lisle Wilson, Barnard Hughes, Mary Davenport, Dolph Sweet, Olympia Dukakis, Catherine Gaffigan, Justine Johnston, James Mapes, Burt Richards, Bill Durks
Duração: 93 min.

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