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Crítica | Isolados (2008)

por Leonardo Campos
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Os debates acerca dos impactos ambientais na contemporaneidade são bem mais urgentes que as discussões realizadas em 1978, época de lançamento do australiano Long Weekend, marco cult que retratava um casal numa jornada de destruição não apenas do casamento, mas de toda manifestação possível da natureza. Com roteiro de Everett De Roche, a produção foi refilmada em 2008 e chegou ao Brasil com o seguinte título: Isolados. Sob a direção de Jamie Blanks, cineasta que também assumiu a edição e a composição da trilha sonora, prática comum no desenvolvimento de seu trabalho na indústria cinematográfica, o filme é construído com algumas diferenças básicas no que concerne aos processos de atualização da vida cotidiana entre tempos tão distintos, em especial, nos requisitos tecnológicos que engendram as nossas praticas diárias em casa, no trabalho e nos momentos de lazer. Fora isso, a história é exatamente igual, até mesmo na retomada de cenas idênticas ao filme que serve como ponto de partida.

Acompanhamos, ao longo de 88 minutos, a trajetória de Carla (Claudia Karvan) e Peter (Jim Caviezel), o tal casal que vive uma crise substancial no casamento. Eles não se entendem vivem constantemente na agressão mútua. Numa das cenas iniciais, enquanto ele contempla o seu rifle que será levado para a viagem rumo ao trágico destino de suas vidas, por um breve momento, aponta a arma para a esposa que está se arrumando para sair. Ele simula tiros, como se descarregasse simbolicamente a sua ira na esposa que não está nada interessada em viajar para acampar durante o final de semana. Enquanto ela reclama constantemente e ele parece tentar relaxar e esquecer os problemas, a dupla deixa um rastro de destruição pelo caminho que percorre. Um dos primeiros atos é o cigarro atirado pela janela do carro, gatilho para um incêndio na mata local, além do canguru atropelado por descuido na direção.

Esse é apenas o começo dos atos insanos deste casal que transforma em experiência física, a destruição do casamento, afundado numa crise que parece não ter mais bálsamo algum que consiga recuperá-la. Com várias citações aos seus filmes anteriores, bem como alguns homenagens aos envolvidos na produção anterior, o cineasta Jamie Blanks constrói uma atmosfera eficiente ao reconectar as principais cenas do ponto de partida, mantendo a temática original intacta, ao que gravita em torno da seguinte hipótese: e se a natureza retribuísse as atitudes macabras dos seres humanos diante de seus recursos devastados, não apenas para manutenção da humanidade, mas por mero prazer em destruir? Num trecho específico, Peter afunda o machado numa árvore e a esposa lhe questiona por qual motivo ele está fazendo aquilo. Arrogante, ele apenas responde: “e por que não?”. E assim, a bagunça ambiental prossegue.

Ele nada e ao perceber um animal semelhante ao tubarão, atira vertiginosamente até ver a criatura, um dugongo, uma espécie de vaca marinha, destroçada. Esmagam ovos de uma ave imponente, pisam em outros seres menores. Carla, num momento de sobressalto ao perceber formigas por perto, despeja todo o conteúdo de uma lata de inseticida num formigueiro, dentre outras ações contra a fauna e a flora que logo são transformadas numa potencial motivação simbólica para a natureza coloca-los em seus devidos lugares. É do meio para o final que a travessia dos personagens em busca de mudança promove um aprofundamento ainda maior na crise. A mensagem ecológica funciona muito bem, principalmente para hoje, só não é melhor dramaticamente porque é uma releitura idêntica do filme de 1978. Não há abordagem tecnológica ou recursos que justifiquem chama-lo de “novo olhar”. É apenas a cópia, mas não é ruim.

Sem o tom minimalista de antes, Isolados perde a claustrofobia dos planos mais fechados para uma direção de fotografia mais ampla de Karl von Moller, o responsável por diminuir a tensão com a abordagem mencionada, mas entregar imagens belíssimas, além de criar uma estratégia interessante de contemplação dos animais e seus ataques, sempre vistos de cima. Nos efeitos visuais, a dupla de supervisores Sarah Sparnenn e Kaspar Zwirner possuem pouco trabalho para fazer, comparado aos demais filmes do segmento horror ecológico, geralmente recriadores de bichos por computadores em sua totalidade. O design de som de Glenn Newnham cumpre um bom trabalho de orquestração das manifestações sonoras da natureza, onipresente quando não há algum animal em cena, num filme acima da média, mas opaco quando nos damos conta das potencialidades do discurso ambiental contemporâneo, dissociado da estrutura narrativa. Ademais, funciona como filme de aventura para quem busca exclusivamente o entretenimento e dialoga com os pontos nevrálgicos do horror ecológico.

Isolados (Long Weekend) — Austrália, 2008
Direção: Jamie Blanks
Roteiro: Everett De Roche
Elenco: Jim Caviezel, Claudia Karvan, Roger Ward, Lara Robinson, Gordon Waddell, Jude Beaumont, Garry McMullan
Duração: 88 min.

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