Home FilmesCríticas Crítica | Isso Não É um Enterro, É uma Ressurreição

Crítica | Isso Não É um Enterro, É uma Ressurreição

por Luiz Santiago
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Isso Não É um Enterro, É uma Ressurreição foi o segundo filme que eu conferi na 44ª Mostra SP com uma temática de alguma forma ligada à construção da História. O primeiro filme que me trouxe essa reflexão foi Os Nomes das Flores, que tem um recorte direcionado para a história de uma personalidade e sua relação com uma professora do local. Aqui no filme de Lemohang Jeremiah Mosese, não temos a real fabricação de um fato, mas a tentativa sociológica e antropológica de dar importância a uma determinada comunidade que está para ser inundada devido a construção de uma barragem.

A primeira referência que vem à mente quando batemos o olho na sinopse de Isso Não É um Enterro, É uma Ressurreição, é a do excelente filme brasileiro Narradores de Javé. Aqui, porém, não estamos em um relato cômico, nem épico e nem verdadeiramente preocupado em produzir um documento histórico para o possível tombamento da vila ameaçada. O que vemos nessa produção do Lesoto é um primeiro ato onde o diretor constrói o luto de uma mulher e todo o restante do filme sendo marcado por conflitos externos à essa protagonista, mas que lhe afetam diretamente e que inclusive fazem com que ela parta para o enfrentamento.

O texto, que também é de Mosese, se torna parcialmente inconstante à medida que forças políticas passam a interferir diretamente no cotidiano dessa aldeia. Se por muito tempo a principal atenção foi direcionada a mostrar diversas nuances de sofrimento, além do dia a dia, da importância das raízes, da terra e dos ancestrais de esse povo, uma sugestão de milícia ou uso indireto da força para expulsar os moradores cria facilmente a impressão de desvio de foco. E com efeito, a presença da protagonista e suas dores tornam-se mais fugazes e a câmera volta-se para os habitantes daquela região, para uma abertura maior que contempla os indivíduos afetados pelas “mudanças que o futuro e a modernidade estão trazendo“.

O luto, a resistência, o lado íntimo, poético e aliado ao sobrenatural — pedindo a chegada da morte — descortina a ligação que a protagonista do filme, assim como toda a aldeia, tem com o que herdaram de seus antepassados e que pretendem deixar para os seus descendentes. Há excelentes momentos visuais nesse filme e vale destacar a belíssima direção de fotografia em cenas à noite ou durante o crepúsculo. Para mim, foi a primeira experiência com um filme de Lesoto e uma que me deixou uma excelente primeira impressão. Lutar pelo que é seu, não pelo valor material, mas emocional, acaba sendo o mote do filme. Uma forma de garantir o pouco que resta da identidade do indivíduo com o espaço onde nasceu e cresceu e chegar ao momento onde a mudança de atitude abandona a morte e ressuscita a vontade de reconquistar o que aparentemente se perdeu.

Isso Não É um Enterro, É uma Ressurreição (This Is Not a Burial, It’s a Resurrection) – Lesoto, África do Sul, Itália
Direção: Lemohang Jeremiah Mosese
Roteiro: Lemohang Jeremiah Mosese
Elenco: Mary Twala, Jerry Mofokeng, Makhaola Ndebele, Tseko Monaheng, Siphiwe Nzima-Ntskhe
Duração: 120 min.

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