Crítica | Isto é Spinal Tap

Eu não ri. Eu chorei.
– The Edge, do U2, sobre sua reação ao que The Spinal Tap aborda.

Obs: Se você mora em uma caverna e nunca assistiu Isto É Spinal Tap (ou seja, não entende de cara a imagem usada para a avaliação), pare de ler a presente crítica e tudo o que estiver fazendo e assista. Vai por mim, vale muito a pena. Depois volte aqui. A crítica abaixo contém o que alguns poderiam chamar de spoiler, apesar de não ser spoiler de verdade. 

Primeiro longa cinematográfico de Rob Reiner na cadeira de diretor, Isto É Spinal Tap também é sua obra-prima e o filme que efetivamente popularizou o chamado mockumentary, expressão que tenta encapsular a obra de ficção com linguagem de documentário com o objetivo de se fazer comédia. O verbo “to mock” tem como tradução direta “zombar”, o que não foi exatamente o objetivo de Reiner aqui, mas é por ele que o sub-gênero tornou-se conhecido.

Mas porque Isto É Spinal Tap é tão bom? Há várias respostas para essa pergunta que podem passar pelos precisos aspectos técnicos da direção de Reiner, pelo inacreditável elenco capitaneado por Michael McKean (sim, o Chuck de Better Call Saul) e pela direção de arte feita com orçamento pífio (o filme custou dois milhões de dólares), mas que é irretocável. No entanto, a grande verdade é que a excelência da obra decorre da maneira absolutamente perfeita como ele encara o estrelato em geral e as bandas de rock (ou de qualquer estilo musical) em particular. Não há documentário ou filme de ficção que consiga lidar tão bem com temas tão comuns ao meio musical. Isto É Spinal Tap é como se fosse uma cápsula atemporal que reúne, em 82 minutos, tudo o que podemos querer saber sobre os bastidores da fama em uma obra que brinca com (não zomba) e ao mesmo tempo respeita o mundo artístico.

Baseado nas experiências roqueiras de McKean e de Christopher Guest durante seus anos de faculdade que, depois, em 1978, os levaram, juntamente com Harry Shearer e Rob Reiner, a desenvolver o piloto de uma série sobre rock que nunca chegou a ver a luz do dia, Isto É Spinal Tap conta a história “verdadeira” de uma banda de rock inglesa que já teve seu ponto alto na carreira e, hoje, está decadente, em um tour pelos EUA que é objeto de um documentário dirigido por Marty DiBergi (Reiner). Cabeludos, desbocados, politicamente incorretos, vivendo na esbórnia e com base no sucesso do passado, David St. Hubbins (McKean), Nigel Tufnel (Guest), Derek Smalls (Shearer) e Viv Savage (David Kaff) encapsulam em caracterização física e psicológica aquilo que o imaginário popular estabelece como o estereótipo de roqueiros. É simplesmente impossível não ver neles a amálgama de Black Sabbath, Iron Maiden, Led Zeppelin, Deep Purple e mais uma penca de outras a cada vez que eles aparecem na tela e a cada contratempo que encontra na cada vez mais minguante turnê americana.

O roteiro, ou melhor, o esboço da história feito a oito mãos por Reiner, Guest, McKean e Shearer, abriu espaço livre para que praticamente todas as linhas de diálogo fossem magistralmente improvisadas, resultando em momentos hilariantes e frases que se tornaram tão famosas que são até hoje repetidas no cotidiano até por quem não conhece o filme e também em uma pluralidade de outras obras. Afinal de contas, o “aumenta até o 11” e variações vêm daqui, desse pequeno filme muitas vezes esquecido, mas que marcou tanto a indústria cinematográfica quanto a musical.

A narrativa é tão cômica quanto melancólica, com muito da duração do longa sendo dedicado aos conflitos internos causados pelo agente da banda e pela namorada de David. A forma como essa questão é abordada novamente pode ser encaixada como uma luva a incontáveis situações que bandas e cantores dos mais diversos gêneros musicais enfrentaram e ainda enfrentam, literalmente tornando-se algo esperado para essa indústria. Por essas e outras é que o formato escolhido por Reiner, o de falso documentário, foi o melhor possível para lidar com sua obra.

E o mesmo vale para os mitos que cercam diversos roqueiros mundo afora, de pintinhos sendo pisoteados pelo Kiss, passando por Ozzy Osbourne refestelando-se com morcegos e membros que morrem ou são afastados em condições no mínimo estranhas. Esse último aspecto, aliás, é objeto de uma subtrama imbatível sobre os bateristas do Spinal Tap que morreram ao longo dos anos por “combustão instantânea”, trazendo tanta estupefação quanto risadas nervosas, especialmente à época de seu lançamento, já que o marketing do filme – e o próprio filme – conseguiu convencer uma boa parcela do público de que a banda realmente existia (e sim, eu fui enganado quando vi pela primeira vez…).

Hilário e triste ao mesmo tempo, Isto é Spinal Tap é absolutamente brilhante ao longo de toda sua duração. Uma combinação astral de talento e cinema vérité poucas vezes alcançado, o longa é uma obra inesquecível e uma lição sobre a efemeridade do sucesso. Aumenta para 11!

Isto É Spinal Tap (This Is Spinal Tap, EUA – 1984)
Direção: Rob Reiner
Roteiro: Christopher Guest, Michael McKean, Harry Shearer, Rob Reiner
Elenco: Rob Reiner, Michael McKean, Christopher Guest, Harry Shearer, Tony Hendra, R.J. Parnell, David Kaff, June Chadwick, Bruno Kirby, Ed Begley Jr., Danny Kortchmar, Fran Drescher, Patrick Macnee, Billy Crystal, Paul Shaffer
Duração: 82 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.