Crítica | Isto Não Aconteceria Aqui

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Nas muitas entrevistas dadas a Björkman, Manns e Sima entre 1968 e 1970, Ingmar Bergman foi categórico ao afirmar o seu desprezo por Isto Não Aconteceria Aqui, filme do qual ele dizia ter tido apenas um dia bom durante todo o processo de filmagens, que foi quando precisou dar instruções para cerca de 40 policiais figurantes na cena do cais, na reta final da obra. Assumidamente feito apenas pelo dinheiro, este longa é classificado como “a película maldita de Bergman”, pela qual o diretor não quis se responsabilizar depois do lançamento e que já em sua época foi massacrada pela crítica.

Originalmente, a obra deveria ser uma história divertida, um drama investigativo nos moldes americanos sob luzes estrangeiras (na linha dos filmes feitos por Fritz Lang em Hollywood, por exemplo), face oposta ao que o diretor trouxera em seu longa anterior, Rumo à Alegria, também de 1950, e do que mostraria em seu filme seguinte, Juventude (1951), que foi pós-produzido ao mesmo tempo que o diretor iniciava as filmagens de Isto Não Aconteceria Aqui (início de julho de 1950, o que significa que a pré-produção do longa político, se deu durante as filmagens de Juventude) exigindo que Bergman trabalhasse em dois ambientes de filmagens diferentes na mesma semana, guiando obras com propostas completamente diferentes.

O fato é que esta empreitada anti-comunista do diretor sueco não é de todo ruim. A ideia geral, inclusive, é erguida com bastante competência por parte do diretor e do roteirista Herbert Grevenius, que já trabalhara com Bergman antes, em Chove Sobre Nosso Amor e Sede de Paixões. O início tem a maior tendência noir possível, com a chegada de Atkä Natas (Ulf Palme) à Suécia. Ele é um agente secreto do regime opressivo de Liquidatzia, um país fictício da Europa que, na trama, faz óbvia referência às nações bálticas, que sofriam tanto nas mãos dos russos soviéticos quanto nas mãos dos suecos e finlandeses. Na trama, Atkä visita sua esposa Vera (Signe Hasso), uma química que faz parte de um grupo rebelde comprometido a retirar ilegalmente pessoas da ditadura de Liquidatzia.

Todo o processo criação do medo, as sugestões políticas, conversas sobre revoluções vitoriosas e derrotadas e óbvias provocações entre capitalismo e socialismo abundam em toda a obra, que ganha bastante com essas intrigas mas perde, e muito, com a forma extremamente confusa com que o grupo anti-revolucionário é exposto e qual é verdadeiramente a intenção de cada lado da moeda. Para completar, entra em cena Almkvist (Alf Kjellin), um policial honesto, antigo amante de Vera, que se reaproxima dela durante um caso de investigação de refugiados. O problema da pátria receptora, as atitudes xenofóbicas de alguns cidadãos e os enfrentamentos dos refugiados com a polícia são elementos dessa história que, embrulhados em ideologias do momento, parecem ter resistido ao tempo e assombram em igual medida o mundo contemporâneo, incluindo a Suécia.

Em dado ponto do enredo as boas sequências investigativas começam a dar lugar a confusas redes de agentes secretos perguntando coisas, torturando Atkä e mais outra cadeia de problemas que nos distraem e que destoam da temática principal, retomada apenas no fim, com ótima exploração do espaço aberto pelo fotógrafo Gunnar Fischer e boa criação de uma atmosfera de suspense por Bergman. É perfeitamente compreensível que o diretor não tenha gostado da fita, pois ela realmente destoa de tudo o que ele costumava a fazer. Mas apesar das muitas confusões no meio do caminho, Isto Não Aconteceria Aqui é apenas um filme mediano. Há uma porção de elementos históricos, sociais e ideológicos que, se bem contextualizados, podem gerar boas discussões. Nem que sejam para apontar uma forma de como não mostrar determinadas coisas no cinema.

Isto Não Aconteceria Aqui (Sånt händer inte här) — Suécia, 1950
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Herbert Grevenius
Elenco: Signe Hasso, Alf Kjellin, Ulf Palme, Gösta Cederlund, Yngve Nordwall, Stig Olin, Ragnar Klange, Hanno Kompus, Sylvia Tael, Els Vaarman, Edmar Kuus, Rudy Lipp
Duração: 84 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.