Crítica | It: A Coisa

  • Leiam aqui a nossa crítica com spoilers. E aqui a nossa crítica do livro.

Baseado no romance de Stephen King, It: A Coisa é a terceira versão audiovisual da história; a primeira tendo sido uma minissérie de TV de 1990, com Tim Curry no papel de Pennywise, e a segunda, uma minissérie indiana de 1998 (mas a inspiração no material original era bastante superficial ali). Diferente da versão televisiva estrelada por Curry, que adaptava as mais de mil páginas do livro acompanhando o Clube dos Perdedores, tanto quando crianças quanto na vida adulta, a versão do cinema opta acertadamente por se concentrar apenas na infância dos protagonistas. Embora a minissérie de 1990 tenha muitos defeitos, ela se tornou um clássico cult, fazendo com que muitos olhassem para a nova versão com desconfiança antes de seu lançamento. Mas o filme dirigido por Andy Muschietti não só faz jus à versão original (e à obra original), como também a supera, ao apresentar uma história de horror bem contada, que não só conta com um vilão assustador, mas com um elenco principal infantil que apresenta personagens complexos e carismáticos.

A saga tem início em 1987, na pequena cidade de Derry, quando George (Jackson Robert Scott) um menino de oito anos, desaparece enquanto brincava na chuva. Meses depois, o irmão mais velho de George, Bill (Jaeden Lieberher) continua inconformado com o desaparecimento do irmão. Com a ajuda de seus amigos, o chamado “Clube dos Perdedores”, Bill começa a investigar os desaparecimentos de crianças que vem ocorrendo na cidade. Mas logo, o grupo passa a ser assombrado por visões de seus medos mais profundos, sempre acompanhadas pelo ameaçador Palhaço Pennywise (Bill Skarsgård), manifestação de uma entidade maléfica que vive há séculos na região.

O roteiro de Chase Palmer e Gary Dauberman (baseado em roteiro escrito por Cary Fukunaga) inicia a obra com uma sequência extremamente competente, que não só dita o tom do filme, como também estabelece de forma contundente a ameaça representada pelo vilão. Com calma, o texto estabelece a dinâmica do “Clube dos Perdedores” formado por Bill, Richie (Finn Wolfhard), Eddie (Jack Dylan Grazer) Stan (Wyatt Oleff), Beverly (Sophia Lillis) Ben (Jeremy Ray Taylor), e Mike (Chosen Jakobs), dando a cada personagem, características e dramas próprios. As interações do grupo são muito naturais, não só dando ao filme um gosto de “aventura juvenil”, remetendo á clássicos dos anos 80; como Conta Comigo e Os Goonies, mas também fazendo com que passemos a nos importar com cada uma das crianças e temer por seus destinos.

Ao mesmo tempo, o roteiro faz questão de mostrar que essas crianças estão por conta própria, já que poucos adultos aparecem ao longo do filme e, quando aparecem, não só surgem como figuras hostis, mas chegam mesmo a representar uma ameaça, como no caso do pedófilo pai de Beverly (Stephen Bogaert). Não por acaso, muitas das manifestações escolhidas pelo vilão para assombrar os jovens, remetem às complicadas relações com suas figuras paternas, seja o sangue que enche o banheiro de Beverly, o leproso que aterroriza o hipocondríaco Eddie, a “mulher no quadro” que assombra Stan, entre outros. As crianças de It parecem totalmente negligenciadas, deixadas sozinhas não só para tentar sobreviver ao sanguinário Pennywise, mas a qualquer outro problema que surja, seja a perseguição do bully psicótico Henry Bowers (Nicholas Hamilton), ou mesmo as suas próprias inseguranças e tristezas.

Embora os sete protagonistas estejam ótimos, alguns acabam se sobressaindo, como é o caso de Finn Wolfhard, que após alcançar a fama em Stranger Things, ganha a chance de exercitar um pouco a sua veia cômica, já que Richie não perde uma chance de tirar um sarro dos amigos, e acaba funcionando para aliviar a tensão de algumas cenas. Sophia Lillis é decididamente um nome para se prestar mais atenção, já que consegue atingir um ótimo equilíbrio entre a meiguice, a força, e a angústia de sua personagem, e ainda transmite uma maturidade muito maior que a de seus amigos, já que justamente pelo fato de ser uma garota, tem muito mais consciência de que está crescendo, situação que rende tanto momentos divertidos quanto apavorantes. Por fim, Jack Dylan Grazer constrói um arco dramático para Eddie que tanto diverte quanto emociona, pois se sua hipocondria e neurose podem soar hilárias em alguns momentos, em outros, mostra-se fruto de muito sofrimento para o menino, causado pela influência dominadora que a mãe exerce sobre ele.

Mas o que todos queriam saber é se Bill Skarsgård estava à altura do trabalho de Tim Curry como Pennywise. E a resposta é sim, embora sejam duas leituras distintas. O Pennywise do filme de 2017 é uma figura muito mais monstruosa e inumana do que a vivida por Curry, a começar pelo seu figurino, que remete a arlequins da renascença, gerando um anacronismo que dá certo desconforto. Embora seja capaz de demonstrar simpatia, o Pennywise de Skarsgård nunca parece confiável, mal conseguindo esconder a sua natureza animalesca. Quando ele ataca as crianças, é realmente pra valer, demonstrando imensa satisfação ao perceber quando suas vítimas estão com medo.

 A direção de Andy Muschietti, por sua vez, é bastante competente. O diretor já havia mostrado que sabia construir atmosferas e que era muito bom dirigindo elenco infantil em seu filme de estreia, Mama, e aqui ele eleva essas qualidades. O cineasta também se cerca de uma ótima equipe técnica, com destaque para a ótima fotografia de Chuung Hoong Chung, que tem um papel vital em criar o caráter juvenil, mas também altamente sombrio da história. A direção de arte também merece destaque, desde a construção de cenários visualmente impressionantes, como o covil de Pennywise, como também pelos detalhes com que mostra ambientes pessoais, como o quarto de alguns dos Perdedores.

O filme, entretanto, possui defeitos que o impede de alcançar o status de “obra prima do medo” que a minissérie de 1990 reivindicava. Muschietti se perde quando troca os efeitos práticos (que felizmente são muitos) pelo CGI, sabotando momentos que até então estavam em um ótimo crescendo de tensão, como a cena envolvendo um projetor de slides. A montagem também tem problemas com as sequências mais frenéticas, gerando confusão na percepção do espaço cênico, o que é muito sentido no clímax da obra.

Mas apesar dos tropeços, It pode se orgulhar de ser uma grande aventura juvenil, onde o terror está sim presente, mas misturado com uma bela história de amizade. Afinal, os horrores despejados sobre aquelas sete crianças por um cruel palhaço assassino são apenas representações da vida adulta, que vem com coisas horríveis, como a dor do luto, e a consciência da maldade humana que só pode ser enfrentada pela união genuína de pessoas que não só aceitam, como amam as suas diferenças. Isso é mais do que a maioria dos filmes blockbusters de terror  podem dizer.

It: A Coisa (It) — EUA, 2017
Direção:
 Andy Muschietti
Roteiro: Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman (baseado no romance It – A Coisa, de Stephen King)
Elenco: Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgård, Nicholas Hamilton, Jake Sim, Logan Thompson, Owen Teague, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert, Stuart Hughes, Geoffrey Pounsett, Pip Dwyer, Molly Atkinson,  Steven Williams, Megan Charpentier, Joe Bostick, Ari Cohen, Anthony Ulc
Duração: 135 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.