Crítica | It: Capítulo Dois (Sem Spoilers)

O maior receio que tinha em relação à segunda parte de It: A Coisa era que o sucesso do filme de 2017 de alguma forma o afetasse ou o influenciasse, levando-o para o caminho padrão das continuações hollywoodianas, ou seja, algo maior, mais espalhafatoso, mais cheio de fogos de artifício, mas também mais vazio e sem coração. Infelizmente, influenciado ou não por pressões do estúdio, o que Andy Muschietti entrega é muito mais um show pirotécnico do que uma obra com o charme e qualidade semelhantes à primeira.

Curiosamente adotando a estrutura alternante entre linhas temporais do calhamaço oitentista de Stephen King, algo que o Capítulo Um esquivou-se completamente, o roteiro de Gary Dauberman que, aqui, voa solo, não demora a nos apresentar as contrapartidas 27 anos mais velhas dos componentes do Clube dos Otários, usando as ligações de Mike Hanlon (Isaiah Mustafa), o único que permanecera em Derry, convocando-os a voltar em razão do aparente retorno de Pennywise. Muschietti faz o melhor nesse ponto, trabalhando uma decupagem econômica que sucintamente cumpre a importante missão de fazer as conexões sentimentais necessárias, além de estabelecer quem cada um daqueles adoráveis adolescentes acabou tornando-se.

Quase que instantaneamente teletransportados de volta para a cidadezinha no Maine, os amigos vão, aos poucos, lembrando-se de detalhes do que acontecera na infância e o espectador acompanha esse lento processo que passa a trafegar entre o presente e o passado, reprisando substancialmente os mesmos conflitos anteriores e as mesmas aparições assustadoras da criatura metamorfa que assombra o local. É, a partir desse ponto, que o filme não demora a mostrar um certo cansaço, substituindo o suspense pelos jump scares, a sutileza pelo exagero em CGI em um interminável baile de déjà vu que não tem vergonha alguma de caminhar exatamente por sobre as pegadas estabelecidas antes, sem oferecer, no processo, muita coisa em troca além da introdução mais profunda da gênese de Pennywise e como ele talvez possa ser derrotado.

Vê-se, aqui, um fenômeno parecido com o que aconteceu com O Despertar da Força. Calma que o paralelo fará sentido. Quando a Disney reiniciou a franquia Star Wars no cinema, ela jogou seguro, refazendo, em escala maior e mais ambiciosa, Uma Nova Esperança. Antigos e novos fãs poderiam, por razões, diferentes, comprar a ideia e embarcar mais facilmente no projeto. It: Capítulo Dois é, essencialmente, o Capítulo Um com adultos, só que com mais Pennywise de formas variadas, em uma espécie de competição entre os programadores para ver quem faz a versão mais assustadora do palhaço dançarino. No entanto, se a nova trilogia que se passa em uma galáxia muito distante precisava “conversar” com uma nova geração, It: A Coisa não, muito pelo contrário. Daí a sensação de mais, mais, mais, só que sem um significado verdadeiro que não ocupar espaço digital com um filme de quase três horas de duração que poderia ter metade do tempo muito facilmente. No lugar de contar um verdadeiro encerramento para a história do embate do Clube dos Otários contra Pennywise, o Capítulo Dois parece enamorado demais com o Capítulo Um a ponto de precisar citá-lo incessantemente e de quase torná-lo redundante, deixando de ter qualquer resquício de personalidade própria.

Os que leram o livro talvez tentem justificar a versão agigantada de It pela fidelidade ao material fonte, mas até esse aspecto é relativo. Se o vai e vem temporal faz uma bem-vinda mímica da estrutura do romance – que reputo ser algo muito mais devido ao sucesso dos atores mirins do que por necessidade narrativa do roteiro -, todo o interminável clímax é tão completamente diferente do que está no livro que a alegação de fidelidade cai por terra.

Mas há um aspecto que tangencia o conceito de fidelidade que é absolutamente alvissareiro: o elenco adulto. Concordo plenamente com quem disser que o elenco adolescente é muito mais divertido e encantador, mas tiro o chapéu para as escolhas feitas aqui não só pelas semelhanças físicas, como também pelo trabalho de cada adulto tentando evitar qualquer tipo de solução de continuidade em relação às crianças. James McAvoy como Bill Denbrough mostra porque ele é um dos melhores atores de sua geração. Sem perder suas características como ator, McAvoy não faz Denbrough, mas sim Jaeden Martell vivendo Denbrough adulto. E a razão para destacar esse personagem é que, apesar de ser o líder do grupo, ele é o que tem menos características marcantes quando criança para além de sua gagueira e sua bicicleta Silver e mesmo assim McAvoy acerta em linguagem corporal, entonação e suas oscilações entre quem o personagem precisa ser e o que ele sente.

O mesmo “efeito McAvoy” acontece com Bill HaderJames Ransone vivendo, respectivamente, Richie Tozier e Eddie Kaspbrak, mas em um patamar “abaixo”, já que os personagens são fisicamente incomuns e muito característicos, o que de certa forma facilita o trabalho. E não quero tirar o mérito dos atores com isso, mas considero performances mais sutis pelo menos um grau acima de personagens que se afastam, nem que seja um pouco, do “padrão”. Jessica Chastain, por sua vez, apesar de importante na narrativa, consegue canalizar Sophia Lillis como Beverly Marsh muito mais pela semelhança física do que por sua atuação, ainda que ela também esteja muito bem no filme. Os demais otários ficam apenas na linha mediana.

Muito longe dessa linha, vale lembrar, fica o um dia medíocre Bill Skarsgård. Apesar de atuar quase que 100% do tempo sob pesada maquiagem, o ator está perfeito como Pennywise em todas as suas variações. Fico até pensando – e com receio – que ele fique tão marcado como o personagem que não seja mais escalado para papeis “comuns”. O tempo dirá, claro.

No lado técnico, o CGI usado e abusado é bonito, mas acaba cansando pela forma repetitiva como é usado, normalmente transformando o palhaço em gigantes dentuços variados que se vale de sustos fáceis com direito à trilha sonora repentinamente no volume 11 para ditar como o espectador deve se sentir. Pelo menos a fotografia muitas vezes escura de Checco Varese é eficiente por trabalhar tonalidades esverdeadas e azuis que ajudam na narrativa e não tornam o filme ininteligível (não vi em 3D, mas imagino que os óculos influenciarão negativamente nesse aspecto).

No final das contas, It: Capítulo Dois até consegue efetivamente encerrar a história iniciada em 2017 (e não, não há cenas pós-créditos), mas ele o faz sem o mesmo espírito da primeira parte. O palhaço sinistro, aqui, torna-se apenas mais um monstro qualquer em CGI que se vale de momentos espalhafatosos para extrair sustos breves da plateia e o Clube dos Otários parece perdido em meio a todos esses fogos de artifício.

It: Capítulo Dois (It: Chapter Two, EUA – 2019)
Direção: Andy Muschietti
Roteiro: Gary Dauberman (baseado em romance de Stephen King)
Elenco: James McAvoy, Jessica Chastain, Jay Ryan, Bill Hader, Isaiah Mustafa, James Ransone, Andy Bean, Jaeden Martell, Sophia Lillis, Jeremy Ray Taylor, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgård, Jackson Robert Scott, Joan Gregson, Javier Botet, Teach Grant, Nicholas Hamilton, Jess Weixler, Will Beinbrink, Xavier Dolan, Taylor Frey, Jake Weary, Erik Junnola, Connor Smith, Stephen Bogaert, Molly Atkinson, Martha Girvin
Duração: 169 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.