Crítica | Jack Ryan – 2ª Temporada

Ser meramente normal não é demérito algum. Em um mundo de produções audiovisuais que disputam febrilmente pela atenção dos espectadores com artifícios baratos como CGI aos borbotões, explosões a cada cinco minutos, sanguinolência desmedida, pancadaria e perseguições tão frenéticas quanto ininteligíveis, diálogos repletos de chavões dramáticos e reviravoltas por atacado, assistir Jack Ryan é como parar um momento para voltar no tempo e apreciar uma pegada old school de série de ação e espionagem que consegue agradar em todas as suas frentes sem precisar apelar para os costumeiros fogos de artifício do gênero. Não é uma série perfeita, mas é sim perfeita para colocar em perspectiva o que costumamos consumir avidamente por aí em termos televisivos e cinematográficos.

Em sua segunda temporada, a obra capitaneada por Carlton Cuse e Graham Roland, baseada no famoso personagem criado por Tom Clancy e já usado diversas vezes no cinema, conta uma nova história que pode muito bem ser apreciada sem nem assistir a primeira temporada. Nela, Jack Ryan (John Krasinski) é, agora, um analista recrutado por um senador amigo que viaja para a falida Venezuela para confrontar seu presidente bandido até a raiz do cabelo (qualquer semelhança com o verdadeiro não é mera coincidência) sobre fotografias comprometedoras de um navio que estaria transportando armamentos. Restando infrutífera a conversa, eis que se segue um atentado que coloca o ex-soldado em uma feroz espiral investigativa e vingativa que, claro, conta com a ajuda de seu ex-chefe Jim Greer (Wendell Pierce) que – surpresa, surpresa – está lá na Venezuela investigando o mesmo navio depois de descobrir que tem problemas no coração. Simples, não?

Claro que há bem mais na história, mas tudo é bem encaixado e sem desvios narrativos significativos como o romance de Ryan e a subtrama do drone que vimos na primeira temporada, mostrando que os showrunners aprenderam a lição e mantiveram os roteiros bem podados, novamente fiando-se em uma pegada mais pé no chão, ainda que novamente utilizem o artifício clássico da série de livros que tem Jack Ryan como protagonista, ou seja, o analista que é obrigado a arregaçar as mangas e ir para o campo, o que faz parte da mitologia mesmo e não há como fugir disso sem trair o âmago do personagem. Para sempre prender a atenção do espectador, há duas subtramas paralelas, mas ao mesmo tempo convergentes que envolvem eleições manipuladas na Venezuela e um quarteto de soldados black ops comandados por Greer na selva do país. Ryan, por seu turno, faz um desvio até Londres em uma “aventura” que envolve Harriet “Harry” Baumann (Noomi Rapace) em perseguição ao assassino Max Schenkel (Tom Wlaschiha) que resultam nos momentos mais Jason Bourne da temporada (em termos de intensidade, pois a franquia Bourne é excelente), mas sem realmente destoar do conjunto.

Krasinski novamente se mostra um achado na pele de Ryan, equilibrando bem sua postura desengonçada e seu olhar meio abobalhado de bom moço com demonstrações de inteligência e de controle nas situações mais violentas (a pancadaria entre Jack e Max no banheiro é um exemplo disso) por que passa seu personagem. Além disso, chega a ser até cômico o pareamento dele com Rapace (não consigo gostar dessa atriz…) em razão da diferença de altura entre os atores, mas tudo funciona bem dentro da proposta simples e objetiva da temporada. Outro destaque é Pierce e seu Jim Greer, agora com o “bônus” de não aguentar correr um quarteirão sequer sem ficar ofegante e quase desmaiar, o que empresta um ar melancólico ao personagem, algo que é contrastado pela atuação dinâmica, enérgica e cínica de Michael Kelly (o Doug Stamper de House of Cards) como o agente-chefe da CIA na Venezuela.

A produção notabiliza-se pelo uso quase que exclusivo de efeitos práticos e filmagens em locação na Colômbia fazendo as vezes de Venezuela, além de Londres e Moscou, o que amplifica o enfoque mais realista da série e evita as liberdades pirotécnicas que os efeitos em computação gráfica acabam permitindo. A fotografia é funcional e precisa, tentando capturar justamente a atmosfera de “vida como ela é” na medida em que uma obra dessa natureza permite, por vezes trazendo a câmera para dentro da ação em momentos mais dramáticos como durante o atentado que serve de catalisador para a ação e também em algumas sequências na selva e na capital britânica. Há um sensível cuidado da montagem em usar planos-sequência mais alongados, evitando o picotamento das sequências, mesmo as mais movimentadas, o que somente reitera a pegada mais old school que mencionei na abertura da presente crítica.

Exemplar da máxima que diz que “menos é mais”, a segunda temporada de Jack Ryan é um eficiente remédio para o bombardeio cinético que as obras audiovisuais do mesmo gênero oferecem ao espectador. Uma produção redonda, eficiente e econômica que não quer ser mais do que é e que consegue ser atual, tensa e extremamente satisfatória do começo ao fim. Que continue assim!

Jack Ryan – 2ª Temporada (Idem, EUA – 31 de outubro de 2019)
Desenvolvimento/showrunners: Carlton Cuse, Graham Roland (baseado em personagem e romances de Tom Clancy)
Direção: Phil Abraham, Andrew Bernstein, Dennie Gordon
Roteiro: Carlton Cuse, Graham Roland, Vince Calandra, Daria Polatin, David Graziano, Annie Jacobsen, Nolan Dunbar
Elenco: John Krasinski, Wendell Pierce, John Hoogenakker, Noomi Rapace, Jordi Mollà, Francisco Denis, Cristina Umaña, Jovan Adepo, Michael Kelly, Susan Misner, Tom Wlaschiha, Allan Hawco, William Jackson Harper
Duração: 42 a 64 min. (8 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.