Crítica | Jade (1995)

Joe Eszterhas sempre teve uma queda por mulheres fatais. Depois das experiências em Instinto Selvagem e Invasão de Privacidade, dentre outros, o dramaturgo e escritor demonstrou pouca habilidade para desenvolver outro tipo de história, afinal, Jade é tão parecido, em seus aspectos temáticos, com algumas passagens pontuais dos filmes de Sharon Stone que os ingredientes comuns do suspense padronizado pelo autor aparecem e escancaram a sua semelhança a cada cena, mesmo que William Friedkin, esteta renomado de filmes como O Exorcista, Viver ou Morrer em Londres, Parceiros da Noite e outros clássicos modernos, tente criar algo a mais e diferenciado num esquema narrativo que na época, ainda não demonstrava sinais de cansaço, mas apontava para uma fórmula narrativa que se repetiria exaustivamente nos anos seguintes.

Lançado em 1995, Jade apresenta ao espectador uma trama indecisa e cheia de idas e vindas providenciais para o nosso debate sobre ser a personagem de Linda Fiorentino uma viúva negra ou apenas uma vítima de pistas falsas. Em sua colcha de conspirações, Joe Eszterhas oferta ao público, sendo provavelmente seguido à risca pela direção e design de produção, todos os elementos básicos para esse tipo de filme: adultério e crime, chantagens e confissões, câmeras escondidas e sexo excêntrico, armas bizarras para assassinato mescladas com altas doses de erotismo, relacionamento entre o neo-noir com outros subgêneros do cinema contemporâneo.

Na trama, David Corelli (David Caruso) é um homem envolvido numa teia de suspense e tensão quando se percebe envolvido emocionalmente e eroticamente com a principal suspeita de um crime hediondo, apresentado logo na cena de abertura. Ela é Trina (Linda Fiorentino), mulher que para piorar, tornou-se a esposa de seu melhor amigo, o advogado Matt (Chazz Palmintieri). Com o marido, a sua vida sexual é deplorável, mas em sua maratona dupla, ela se diverte brincando sexualmente com outros rapazes, o que não significa necessariamente que seja uma assassina.

Por falar em assassinato, eis a morte que deflagra o conflito da trama, ou, um deles, afinal, o roteiro por vezes se perde com o excesso de caminhos que decide trilhar: um homem rico aparece aniquilado com um machado cerimonial cravado em sua cabeça, além de crucificado na cena do crime hediondo. Todas as pistas levam à Trina, pois as marcas de suas digitais estão por alguns objetos, algo que ela se defende ao alegar que manuseou o material antes do acontecimento, numa visita ao seu cliente para resolução de questões de trabalho. Nesta linha, o roteiro divide-se em explicar as subtramas e nos conduzir na redoma de mistérios e incertezas, repletas de reviravoltas escabrosas e pouco orgânicas, mas nada que atrapalhe a produção enquanto entretenimento.

Com direção de fotografia de Andrzej Bartkowiak, Jade traz excelentes enquadramentos, movimentos e planos calculados de câmera, imagens sofisticadas para o design de produção de Alex Tavoularis, igualmente eficiente. Ao gerenciar a sua equipe, Tavoularis traz um cuidadoso trabalho cenográfico, assinado por Gary Fettis, espaço que permite o encadeamento de apetrechos cuidadosamente ornamentados pela direção de arte de Charles William Breen, ambientes para circulação dos personagens vestidos pelos figurinos de Marilyn Vance, trabalho também bem-sucedido, principalmente na concepção da mulher fatal da protagonista, sensual sem ser vulgar, atraente sem ser tão lasciva. Em suma, uma produção que propõe uma estética superior ao seu conteúdo dramático.

Em sua narrativa cheia de chantagens e sensualidade, William Friedkin dirige como pode a atriz Linda Fiorentino, nova promessa sexual estadunidense depois do furacão Sharon Stone e da lascívia de Madonna entre a música, o videoclipe e o cinema. Há relatos sobre o cineasta ter remexido tanto nos direcionamentos do roteiro que Joe Eszterhas chegou a cogitar a sua retirada dos créditos. Independente dos barracos de bastidores, o filme saiu, alcançou pouco prestígio crítico e teve alguma repercussão no mercado cinematográfico e de vídeo, afinal, sexo vende, principalmente quando a estética é tão apurada quanto aos frames de Jade, um filme com passeio entre o erótico e o pornográfico. À guisa de encerramento, cabe ressaltar que há cenas de perseguição automobilística, palavra-chave comum ao bom cinema de Friedkin.

Jade (idem/Estados Unidos, 1995)
Direção: William Friedkin
Roteiro: Joe Eszterhas
Elenco: Linda Fiorentino, David Caruso, Chazz Palmintieri, Richard Crenna, Michael Biehn, Donna Murphy, Ken King, Holt McCallany, David Hunt
Duração: 95 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.