Crítica | “Jaime” – Brittany Howard

Sempre busco dizer que mais importante do que afinação em uma voz, é a interpretação musical que essa voz entrega. No caso de Brittany Howard, vocalista da ótima Alabama Shakes, ambas são executadas com a maestria de alguém com completo controle emocional e técnico do canto. Após um longo hiato do Alabama Shakes sem lançar material original, a cantora agora embarca em seu primeiro álbum solo: uma experiência sensorial delicada que comprova estarmos diante de uma das maiores vozes dessa geração musical.

Jaime é batizado em homenagem a sua irmã, morta por câncer quando eram adolescentes e, segundo a mesma, responsável por moldar completamente sua persona. O mais interessante é como Brittany cria um dos melhores discos de 2019 com relativa simplicidade em relação às composições, sem os eventuais ares de pretensão que costumam cobrir os álbuns destaque do ano. O coração e ouro da obra estão na artista em si, que oferece uma interpretação musical rara, extremamente sincera e emocionalmente rica. Pegue Short and Sweet, quinta faixa desse disco, e perceba como ela é construída somente e inteiramente ao redor da voz da artista, que entrega diferentes nuances sentimentais de interpretação.

Em He Loves Me, Brittany aborda sua relação com Deus de forma honesta e belíssima, com samples que enriquecem uma atmosfera gospel típica do soul setentista. Tomorrow possui ares mais experimentais, navegando por mudanças de ritmo que mesclam R&B com rock progressivo a fim de oferecer um olhar dinâmico na temática da canção: nossa obsessão pelo amanhã. Presence, com sua guitarra atordoante rivalizando a bela harpa onipresente na faixa, é quase um contraponto a Tomorrow, abordando a necessidade de apreciar o presente. 13th Century Metal é pura visceralidade: uma explosão instrumental de atmosfera futurística ecoa pela base sonora enquanto Brittany declama seus versos mais políticos em tom de união. Pura catarse.

Voltando ao ponto da interpretação musical, perceba como a cantora enriquece suas canções com diferentes facetas, soando quase como uma atriz de alto nível. Em Goat Head, por exemplo, vemos uma Brittany completamente diferente, encarando lembranças de racismo em sua infância e incorporando um tom infantil e ingênuo em sua voz. Stay High, single principal do disco, possui o tom de um personagem cansado, mas conformado e esperançoso, voltando pra casa após um longo dia de trabalho e buscando valorizar o resto de seu dia ao lado da pessoa amada. Georgia, por sua vez, é Brittany assumindo uma personalidade terna, dócil e sedutora, complementando o ar gospel da excelente guitarra e órgão derradeiros da faixa. Já o encerramento de Run To Me é a cantora incorporando um ar de lamento grandioso e épico, uma performance quase teatral.

Indo contra o uso exagerado e gratuito do vocal na indústria musical – muitas vezes preocupados mais com a nota a ser atingida do que a emoção transmitida – Brittany entrega aqui performances vocais de uma sensibilidade absurda, ao mesmo tempo que percorre uma variedade de gêneros musicais (do blues e soul até o rock alternativo) na busca por compartilhar suas experiências. Em suma, Jaime é um disco solo brilhante vindo de uma intérprete completa.

Aumenta!: Tomorrow
Diminui!: Run

Artista: Brittany Howard
Lançamento: 20 de setembro de 2019
País: Estados Unidos
Gravadora: Sony Music
Estilo: R&B, rock alternativo

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.