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Crítica | James Brown

por Karam
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estrelas 2,5

Cinebiografias em geral já nascem problemáticas. Afinal, o próprio conceito de cinebiografia joga contra o formato: ninguém imagina que seja possível fazer jus a toda uma vida de conquistas de uma personalidade admirável ou importante historicamente (geralmente o tipo de personalidade que ganha uma cinebiografia se enquadra em pelo menos uma dessas duas características). Contar a história de um ser humano que existiu de fato é uma empreitada arriscadíssima. Mas contar a história do homem que revolucionou a música negra – e consequentemente a música como um todo –, James Brown, é um desafio monumental, tamanha a dificuldade que envolve o processo de selecionar o que deve ser contado ao espectador e o que deve ser omitido – além, é claro, da dor de cabeça que é encontrar uma linguagem cinematográfica que condiga com a figura do músico e produza uma obra harmônica, em sintonia com o funk do Godfather Of Soul. Há de se congratular, então, quem se atreve a enveredar por tais caminhos: Tate Taylor, diretor, parabéns pela iniciativa e coragem! Mas James Brown é muito mais do que aquela caricatura que por ti foi traduzida em tela. Não foi dessa vez, amigo.

O filme já começa errando ao querer estabelecer James Brown como uma espécie de artista decadente repleto de excentricidades logo de cara, sem contextualizar para o espectador o que o levou a chegar até aquele ponto. Isso de não contextualizar não seria um problema, caso a caracterização do personagem fosse coerente e bem concatenada no decorrer da narrativa. (O arco dramático percorrido por Jake LaMotta, de Touro Indomável, por exemplo, é um caso de sucesso em termos de complexidade no âmbito da caracterização). Se reclamo da abordagem inicial dos roteiristas e de Taylor, é porque testemunhei que nem mesmo nas próximas horas, nas quais o diretor poderia nos dar a dimensão da ascensão e da queda de James Brown, somos levados a compreender os verdadeiros fatores determinantes nos altos e baixos da carreira do músico.

Sem foco e, na maioria das vezes, sem graça, James Brown peca pelo exagero e pela artificialidade. A montagem, principalmente no primeiro ato, é desastrosa, o que faz com que o ritmo do filme (tão importante aqui, já que se trata da biografia do criador do funk) seja oscilante: as transições entre épocas não são nem um pouco fluidas. A sutileza, artifício-ouro da linguagem cinematográfica, é praticamente inexistente na obra de Taylor, salvo alguns bons momentos intimistas que fazem a ligação do músico com seu passado triste. Aqui, já aproveito para destacar a cena mais bonita do filme: o reencontro com a mãe em um camarim, e o diálogo sofrido de ambos. Trata-se de um momento genuíno de emoção, no qual a sempre maravilhosa Viola Davis arrasa, como de praxe. É quando o filme põe acertadamente a mão no freio, e nos reserva a experiência de testemunhar em silêncio um pouco da beleza e da sutileza da figura de Brown. Características que, tristemente, são ignoradas no restante do tempo de projeção.

Ainda é possível encontrar no filme pequenos prazeres que são provenientes do sentimento de nostalgia que a todos arremata (ainda mais quando estamos falando de música…) e do trabalho técnico e competente de pesquisa e reconstituição de época da equipe do departamento de arte: que delícia que é ver os jovens Rolling Stones pouco antes de seu primeiro show nos E.U.A., maravilhados observando James Brown cantando e dançando alucinadamente no palco. Que divertido é “conhecer” um tal de Little Richard, e todas as suas afetações características, em início de carreira, apresentando Tutti Frutti num bar. Que maravilhosa é a transição do James pequeno fugindo das “garras” do pai para o James já adulto gravando o vídeo para o sucesso I Feel Good (I Got You).

Ao mesmo tempo em que nos presenteia com esses pequenos momentos de beleza nostálgica e lucidez, o filme se entrega a artifícios batidos e totalmente fora do contexto no qual está inserido: e a insistência de fazer de James uma espécie de Frank Underwood (de House Of Cards) da música, caminhando por corredores com ar de sabichão enquanto olha para a câmera e conversa com o espectador, se achando sagaz e transgressor? Ridículo, repetitivo e sem propósito. Não causa nem de longe o efeito que tal artifício provoca na série da Netflix, até porque lá ele se aplica, já que é coeso em relação à linguagem da política e da TV. E aquela cena dele na prisão cantando o clássico gospel Mary Don’t You Weep com Bobby Byrd (que viria a ser seu fiel parceiro musical por vários anos de sucesso)? Vergonha alheia. Piegas. Desnecessário. E repito, mais uma vez: artificial.

Qualquer filme que ouse retratar a vida de alguma personalidade da música negra norte-americana deve expor o “objeto de análise” em toda a sua plenitude e complexidade. Deve tratá-lo com verdades, e não artificialidades. Com coração aliado à razão, e não apenas com a emoção pura e descerebrada. Artistas como Ray Charles, Aretha Franklin, Sam Cooke, Ottis Redding e, claro, James Brown, são preciosidades da música mundial e, além disso, figuras complexas rodeadas por histórias densas e trágicas, repletas de racismo, pobreza, lutas… e muito talento. De onde vieram as grandes composições de James? E o processo de compô-las? E a revolução musical e social que ele causou? Cadê a dimensão de sua importância? Cadê a dimensão de seu talento? Nada disso é aprofundado em James Brown. Ficamos com um filme vago, um retrato preguiçoso de uma figura fascinante. Preferiu-se mostrar seu tino para negócios em detrimento de sua formação musical e do desenvolvimento de sua dança incendiária. O que fica, no fim das contas, é a relação de amor e ódio com Bobby Byrd. E, claro, aquela cena linda com a mãe no camarim.

James Brown pode até servir como homenagem, mas certamente não faz jus à lenda.

James Brown (Get On Up) – Estados Unidos, 2014
Direção:
Tate Taylor
Roteiro:
Jez Butterworth (história e roteiro), John-Henry Butterworth (história e roteiro), Steven Baigelman (história)
Elenco:
Chadwick Boseman, Nelsan Ellis, Dan Aykroyd, Viola Davis, Lennie James, Fred Melamed, Craig Robinson, Jill Scott, Octavia Spencer, Josh Hopkins, Brandon Smith, Nick Eversman, John Benjamin Hickey, Tika Sumpter
Duração: 138 min

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1 comentário

jcesarfe 26 de maio de 2015 - 17:45

Devo discordar da crítica. Gostei do filme, simples, sem frescura e, apesar de ser longe de um grande realismo, é bem empolgante. A única coisa que me desagradou foi os loops excessivos entre passado e futuro, que pode até confundir.

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