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Crítica | Jerry Maguire: A Grande Virada

por Kevin Rick
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Enquadrar Jerry Maguire: A Grande Virada em um determinado gênero é uma tarefa impossível, afinal, a história sobre um agente esportivo inescrupuloso que tem uma epifania moral após anos agindo como um “tubarão de terno” traz, inicialmente, o esporte como foco narrativo dentro do drama redentor do nosso protagonista em crise, Jerry Maguire (Tom Cruise), e lentamente começa a puxar elementos de comédia com a súbita mudança de comportamento do personagem, apenas para, a partir do segundo ato, incorporar o romance entre Maguire e Dorothy Boyd (Renée Zellweger) como ponto-chave do mote. Em um filme com tantos gêneros, temáticas e estilos, o cineasta Cameron Crowe preza, acertadamente, pelo equilíbrio, e, na verdade, o seu filme é exatamente sobre isso: o equilíbrio humano.

E Jerry é um cara extremamente desequilibrado. Ele começa o filme como um egocêntrico agente esportivo que faria qualquer coisa para sugar dinheiro de seus atletas, inclusive arriscar a saúde daqueles que representa, e termina tendo uma crise moral, tornando-se um idealista irreparável com direito a um memo de sugestões à sua empresa. O roteiro de Crowe coloca esses dois extremos do protagonista para abordar o lado podre dos negócios esportivos, com o início cínico da obra, cheio de narrações individualistas, planos mais distantes de Maguire e uma interpretação quase que caricata de Cruise, cheio de sorrisos falsos, bordões dissimulados e gestos exagerados; e então subitamente o personagem ganha uma consciência, quer mudar o mundo com sua nova paz moral, apenas para ver sua profissão cuspir nos seus novos princípios.

É interessante como o arco de Cruise, mesmo sendo de certa forma uma redenção, não parte de um ponto A negativo até o ponto B de purgação, pois o protagonista, como dito, atinge os extremos de forma súbita, e passa o resto da fita procurando a balança entre suas escolhas. E Crowe utiliza os personagens secundários neste mesmo quadro de exagero, como a Dorothy Boyd, uma mãe solteira que decide cegamente acompanhar os ideais de Maguire, personificando o agente esportivo como um líder idealístico, um pai substituto e o seu novo marido, enquanto sua irmã Laurel Boyd (Bonnie Hunt) é um poço de cinismo em relação ao amor. Além de Dorothy, a única pessoa que se mantém fiel à Maguire, e continua sendo seu único cliente, é o problemático jogador de futebol americano Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.), que é o descomedimento em pessoa, falando alto, agressivo, emocional e reclamão.

A partir do estabelecimento da dinâmica do trio principal, o filme começa a navegar em diferentes tons, mantendo a ironia na busca pela ética no mundo materialista esportivo, trazendo essa discussão de modo mais introspectivo e menos crítico-abrangente à medida que a narrativa avança. Nessa perspectiva mais pessoal de Crowe, dois núcleos tomam a frente da fita a partir do segundo ato: Maguire e Tidwell, em um relacionamento de dependência profissional que compõe grande parte da comicidade da obra; e a trama de Maguire e Dorothy, que inicia-se de maneira branda, mas vai ganhando ares de uma comédia romântica e até um romantismo clássico mais perto do finalzinho.

A partir dessas duas linhas narrativas, Crowe costura o estudo de personagem de Maguire em duas frentes: o moral/profissional com Tidwell, e o íntimo com Dorothy. Confesso que acho o filme mais poderoso nas cenas entre Cruise e Cuba, pois a dramédia de oposição, meio clichê no sentido de jornada de descobrimento, é muito bem feita entre os ensinamentos que eles recebem um do outro. Tidwell é um cara bastante família, e começa a ensinar a Maguire sobre lealdade, o valor de indivíduos e a atenção necessária no relacionamento do agente-atleta, enquanto o protagonista, na sua epifania amalucada e ridiculamente idealizadora, traz um conflito objetivo ao jogador que só busca dinheiro e reputação, sobre o amor pelo esporte, tudo isso ligando-se à temática geral da procura por integridade no âmbito obcecado pelo dinheiro.

Numa nota negativa, acho que o filme perde força ao focar demasiadamente na camada romântica, que tem sim seus méritos, especialmente na construção da falta de intimidade de Maguire, mas acaba sendo seu típico rom-com meio desinteressante ao compararmos com o restante de temas que o filme aborda. Dito isso, tudo faz parte da belíssima jornada de uma pessoa em busca de mudança. Crowe retira performances poderosas de Cruise, um completo camaleão nos diferentes gêneros e tons que o filme demanda; Cuba, um poço de carisma e exagero cômico, além de incrivelmente afável nos momentos familiares com sua esposa, a igualmente fantástica Regina King; e Renée oferece uma ótima vulnerabilidade a uma mãe solteira em busca de algo ideal, seja uma forma de viver, uma profissão ou um casamento.

Jerry Maguire: A Grande Virada é uma obra de multigêneros e um tanto quanto clichê em vários aspectos, e não digo isso negativamente, pois Crowe se prova um mestre no equilíbrio de tons da sua obra sobre um personagem em conflito entre o cinismo e o idealismo. Dramático, crítico e divertido, cheio de frases icônicas no roteiro de diálogos afiadíssimo, este filme certamente é uma experiência que parte de uma crítica generalizada à procura financeira acima da ética, mas traz essa discussão para o cerne individual, trazendo luz sobre uma característica importantíssima em relacionamentos humanos: a atenção.

Jerry Maguire: A Grande Virada (Jerry Maguire) – EUA, 1996
Direção: Cameron Crowe
Roteiro: Cameron Crowe
Elenco: Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renée Zellweger, Kelly Preston, Jerry O’Connell, Jay Mohr, Regina King, Bonnie Hunt
Duração: 139 min.

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