Crítica | Jerry Seinfeld: 23 Hours to Kill

Jerry Seinfeld nunca largou a comédia stand-up mesmo depois do gigantesco sucesso de sua série cômica pela NBC, viajando os EUA em tours ocasionais ao longo das décadas. No entanto, 23 Hours to Kill é, se descontarmos Jerry Before Seinfeld, o primeiro especial filmado desde o longínquo ano de 1998, quando a HBO produziu e lançou Jerry Seinfeld on Broadway: I’m Telling You for the Last Time, o que é, sem dúvida alguma, um acontecimento de nota que mexe com o saudosismo e a nostalgia e ao mesmo tempo com a curiosidade se ele, aos 65 anos, ainda realmente está em forma.

E a resposta é um retumbante sim. Não só em forma, como também em conteúdo, já que Seinfeld faz questão de manter o tipo de humor que se tornou sua marca e que, hoje em dia, só ele realmente faz, ou seja, uma comédia genuinamente do dia-a-dia, sem uma vez sequer recorrer a palavrões, nomeação de pessoas, abordagens políticas, exageros teatrais e imitações de personalidades. De certa forma, ver Seinfeld no palco hoje, em pleno 2020, parece anacrônico, porque ele troca o escracho por elegância sem perder a comicidade e o timing e sem precisar datar seu número com uma metralhadora giratória em cima de outras pessoas quentes do momento e que são normalmente alvos fáceis de comediantes. Não que outros grandes humoristas por aí não brilhem fazendo o que fazem, mas é que Seinfeld é uma figura rara, quase como se estivéssemos vendo humor dos anos 40 pelo rádio.

Mas não concluam apressadamente nada de negativo sobre seu mais recente show quando digo que parece algo de décadas atrás, pois Seinfeld pode primar pelo finesse, pelo jogo de palavras, pela capacidade de transformar-se em um cara “qualquer”, com quem o espectador pode facilmente identificar-se, mas ele mantem-se atual e certeiro na forma como ele aborda o cotidiano, começando pelas amizades em geral, sobre o ato de sair para fazer um programa (como por exemplo assistir sua apresentação), caminhando para nossa inquietude permanente, para nossa dependência de smartphones e, em seguida, engrenando em casamento, ter filhos e assim por diante. Não só o engate entre assuntos é sutil e muito bem concatenado, como seu raciocínio lógico é imbatível, algo que fica evidente especialmente quando ele prova por “a + b” que great é um adjetivo muito próximo de sucks, apesar de serem, na prática, antônimos, algo que vem à reboque de outra constatação que fica quase en passant: a polarização do mundo em posições antagônicas e inconciliáveis.

São piadas simples e elegantes – como aliás é seu figurino, um terno básico, e seu palco, com apenas uma cortina azul e um banquinho com água – que são lentamente construídas e que formam esquetes alongadas que funcionam quase que a todo o momento. Os primeiros 40 minutos do show dirigido por Joe DeMaio é dinâmico e hilário de maneira constante e certeira, com Seinfeld só perdendo um pouco o fôlego quando muda o assunto para sua “vida privada”, por assim dizer, abordando casamento e o cuidado que precisa ter ao falar qualquer coisa para sua esposa (ou para mulheres em geral). Nesse ponto, apesar de ele manter a simpatia, seu número torna-se repetitivo, sem realmente a mesma dinâmica do início, ainda que ela retorne nos minutos finais para um encerramento quieto, low profile, que vem até muito rapidamente demais considerando que lá se vão 22 anos do último stand-up filmado dele.

O humor seguro e “liberado para menores” de Jerry Seinfeld pode até não funcionar para um público mais novo talvez mais acostumado com pancadaria verbal rasgada, mas ele dialoga como ninguém com a vida como ela é, com a rotina das coisa pequenas, sendo impossível não olhar para o lado com cumplicidade ou vergonha pelas várias verdades que ele fala ao longo dos rapidíssimos 60 minutos de apresentação. 23 Hours to Kill mostra que Seinfeld nunca perdeu a forma no stand-up, só não precisa – ou não quer – exibi-la toda hora.

Jerry Seinfeld: 23 Hours to Kill (EUA – 05 de maio de 2020)
Direção: Joe DeMaio
Roteiro: Jerry Seinfeld
Com: Jerry Seinfeld
Duração: 60 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.