Crítica | “Jesus Is King” – Kanye West

“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” 

João 8:36 

Tal como várias figuras peculiares ao longo da história da música, não era de se surpreender que, eventualmente, um artista como Kanye West embarcaria em uma fase espiritual. Em 2018, após prometer Yandhi, um álbum que nunca viu a luz do lançamento, Kanye começou, aos poucos, a mergulhar mais profundamente no cristianismo e a produzir seus clássicos eventos Sunday Service, uma experiência espiritual difícil até de definir exatamente o que seria. O resultado de cerca de um ano de aprofundamento na religião cristã é visto em Jesus Is King, trabalho que finalmente se encontra disponível após uma sequência de atrasos e memes de que nunca sairia.

Em Jesus Is King, Kanye retoma a mesma duração de 27 minutos que percorreu todas suas produções de 2018, quase como um tom profético de que o futuro da música pop está em álbuns de menor duração. Every Hour é simplesmente a entrada perfeita esperada pelo artista para tal disco, revisitando o espetacular conceito de coral gospel de Ultralight Beam, soando como uma grandiosa e calorosa abertura de Missa. Na sequência, Selah é responsável por uma completa catarse musical. Aproveitando do mesmo impacto do coral gospel da faixa anterior, Kanye eleva esse efeito a um novo nível com beats dramáticos que intercalam um arranjo de vozes magnífico cantando Aleluia e um desfile de versos excelentes de Kanye apresentando sua fé.

É interessante notar como traços de Yandhi parecem ser reaproveitados aqui. Everything We Need é um exemplo, antes se chamaria The Storm e teria versos póstumos de XXXTentation – algo que não faz falta alguma aqui diante da acertada participação de Ty Dollar Sign e Ant Clemons nos refrões. Use This Gospel, o ápice criativo do álbum, é outra faixa que vazamentos indicam ter sido reaproveitada. Aqui, é importante ressaltar como Kanye sabe utilizar o potencial de um vocal de forma brilhante. Tal como já fez diversas vezes em sua carreira, aplica ótimos efeitos em um arranjo de vozes e os instrumentaliza de forma que, unidos ao repetido sample desconcertante de apenas quatro notas e intercalados aos bons versos de Pusha T e No Malice, constroem uma obra-prima. Ainda sobra espaço para um solo de saxofone de Kenny G. surgir em uma quebra de beat absolutamente incrível.

Algo surpreendente e interessante é que Kanye captura um certo ar psicodélico em várias faixas. A típica psicodelia de parte do soul setentista é marca forte nos synths de On God, Water e Hands On – algo que cai como uma luva em meio à temática divina do disco e lembra a atmosfera de Kids See Ghosts, ainda que, ironicamente, com conceitos completamente opostos. No aspecto mais clássico da música gospel temos a belíssima God Is, fazendo uso de um dos melhores samples do álbum como base para uma das performances mais honestas de Kanye. Vemos aqui o rapper com a voz crua, sem os costumeiros autotunes que predominam em suas canções. A fragilidade de sua voz crescendo cada vez mais ao longo da faixa, cantando de forma insistente, dolorosa e sincera seu amor por Deus é algo tocante para quem está disposto a entrar na temática da obra.

Claro, Jesus Is King não é perfeito e há quem se apegará a suas falhas. A produção e mixagem de Kanye por vezes segue menos caprichada do que se esperaria de um disco com tantos atrasos – ainda mais comparado a seus antecessores. Follow God carrega um beat pesado e um flow veloz, possuindo uma personalidade bem característica do old Kanye, mas se perdendo totalmente em uma mixagem muito mal acabada onde os vocais seguem pessimamente sobrepostos à base. Closed On Sunday é a típica faixa de Kanye que se divide entre o risível e o genial: se por um lado possui um ótimo clima intimista e misterioso em seu instrumental, por outro possui alguns versos vergonhosos.

Jesus Is King já demonstra ser um dos discos mais divisivos e controversos de Kanye. Tal como em 808s and Heartbreak, mais uma vez o rapper expande nossa percepção de como um álbum de hip-hop pode ser. Assim como foi com o disco de 2008, profundamente injustiçado em seu lançamento e hoje inegavelmente um dos que mais influenciaram o gênero, apostaria que há grandes chances de JIK gerar uma tendência futura por trabalhos de abordagem mais espiritual. Se a conversão religiosa de Kanye é apenas mais uma de suas fases, ou algo que perdurará por muito tempo, é difícil afirmar com precisão. A única certeza é que, enquanto o rapper permanecer com seu incessável desejo por provocar, distorcer e experimentar dentro do hip-hop, podemos confiar nele.

Aumenta!: Use This Gospel
Diminui!: Closed On Sunday

Jesus Is King
Artista: Kanye West
País: Estados Unidos
Lançamento: 27 de setembro 25 de outubro de 2019
Gravadora: GOOD, Def Jam
Estilo: Gospel, Hip-Hop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.