Home QuadrinhosArco Crítica | Jimmy Woo e Garra Amarela: Primeira Aparição e Aventuras Originais (1956)

Crítica | Jimmy Woo e Garra Amarela: Primeira Aparição e Aventuras Originais (1956)

por Ritter Fan
119 views (a partir de agosto de 2020)

Como Sax Rohmer deixou muito claro com sua criação máxima, o Dr. Fu Manchu, todo vilão de origem chinesa é sinistro, maquiavélico, místico, tem mãos com dedos longos e unhas pontudas e, claro, uma barbicha fina e longa, além de um quimono multicolorido. Seu personagem da primeira metade do século XX ajudou a sedimentar essa imagem estereotipada que, claro, acabou influenciando um sem-número de outros personagens, dentre eles o Imperador Ming, de Flash Gordon, o Mandarim, clássico inimigo do Homem de Ferro e até mesmo Ra’s Al Ghul, da mitologia do Batman.

A Marvel Comics, antes de ser Marvel Comics, também não demorou a apropriar-se dessas característica para criar o Garra Amarela, vilão místico chinês que, provocado pelo governo comunista de seu país, parte para colocar em movimento planos próprios de dominação mundial, sempre sendo impedido pelo inteligente e intrépido agente do FBI sino-americano James “Jimmy” Woo. Surgindo em uma revista própria publicada pela Atlas Comics (antecessora da Marvel) que durou apenas quatro edições entre 1956 e 1957, o Garra Amarela pode ser considerado como o antecessor direto de praticamente todos os vilões orientais da editora e Jimmy Woo, por seu turno, claramente galgado nos filmes de espião da época, pode ser considerado como o molde pelo qual todos os agentes especiais da editora – da S.H.I.E.L.D. mais notavelmente – seriam criados.

Em cada revista, quatro pequenas histórias eram publicadas, com textos e arte de grandes nomes ainda em formação nesse ramo como Al Feldstein, Don Heck, Bill Everett e o insuperável Jack Kirby, todos sob editoria de Stan Lee antes da fúria criativa dos anos 60. A primeira história, que lida não com a origem do Garra Amarela, mas com o despertar de seu plano maquiavélico e sua viagem aos EUA onde se estabelece em São Francisco, com Jimmy Woo logo surgindo ao seu encalço, é a que mais pé no chão tem de todas, com os poderes místicos do vilão ficando limitados a controle mental e a uma bola de cristal que lhe permitia ver basicamente tudo que quisesse. É também nessa história que somos introduzidos ao sidekick do Garra Amarela, ninguém menos do que um ex-oficial da Gestapo chamado Fritz von Voltzmann, com direito a sotaque germânico que ele perde logo na edição seguinte, trocando-o por um monóculo que o torna uma espécie de antecessor do Barão Von Strucker, além da neta-sobrinha do vilão chinês, Suwan, eternamente dividida entre sua lealdade familial a Garra Amarela e o amor (ou algo semelhante) que sente por Jimmy Woo.

Nas histórias seguintes, o nível de absurdo vai aumentando, com o Garra Amarela demonstrando ter poderes que são tirados da cartola de cada roteirista na medida do conveniente, além do uso de aparatos tecnológicos diversos, inclusive robôs gigantes e seres estranhos como aves mutantes. Cada história lida com um plano sinistro do vilão que, porém, sem maiores dificuldades, é impedido pelo agente do FBI que, muitas vezes, sequer precisa fazer alguma coisa. Chega a ser engraçado, mas era bem o espírito da época nos quadrinhos, especialmente considerando que não estamos falando exatamente de uma história de super-heróis.

No quesito arte, a primeira edição da publicação é de fazer cair o queixo em termos do detalhamento de cada personagem, de cada pano de fundo, de cada artifício que aparece nos quadros. Não há arroubos criativos na disposição das páginas e na progressão narrativa, mas a arte de Joe Maneely merece comenda. Depois, apesar de outros grandes nomes terem se envolvido no trabalho, o resultado saiu mais simplista, talvez pela falta de exigência de algo mais sofisticado em razão de roteiros também cada vez mais básicos.

De toda forma, é curioso notar elementos que influenciariam o futuro da Marvel Comics. Não só temos o Garra Amarela e Jimmy Woo influenciando as figuras de “vilão oriental” e “agente secreto” da editora, como o sidekick alemão que inspiraria Von Strucker, mutantes com poderes mentais que seriam a base dos X-Men (não é a primeira vez que “mutantes” são usados em quadrinhos, mas sim uma das primeiras vezes) e, também, poderes ou habilidades especiais como diminuir e aumentar de tamanho e, também, manipular o que parece ser outra dimensão. Garra Amarela, apesar de ter tido vida curtíssima como revista própria, funciona como um laboratório de experiências que viria a criar parte dos alicerces para a Marvel Comics nas décadas seguintes.

O Garra Amarela seria absorvido depois para dentro da mitologia da editora então ainda em formação, como vilão de diversos heróis, inclusive Capitão América e Nick Fury, mas sem maiores destaques diante da “concorrência” de outros semelhantes como Fu Manchu (que depois seria rebatizado como Zheng Zu depois que a Marvel perdeu os direitos à obra de Sax Rohmer) e o Mandarim. Jimmy Woo, no entanto, continuou firme e forte primeiro como agente da S.H.I.E.L.D. e, depois como fundador da agência A.T.L.A.S., com constante participação em um variado número de histórias até mesmo ganhando uma versão de carne e osso em Homem-Formiga e a Vespa.

Garra Amarela #1 a 4 (Yellow Claw, EUA – 1956/7)
Roteiro: Al Feldstein, Jack Kirby
Arte: John Severin, Don Heck, Jack Kirby, Jim Mooney, Bill Everett
Arte-final: Joe Maneely, Werner Roth, Jack Kirby, Roz Kirby, George Roussos, Manny Stallman
Editora original: Atlas Comics (antecessora da Marvel Comics)
Data original de publicação: outubro e dezembro de 1956 e fevereiro e abril de 1957
Editoria: Stan Lee
Páginas:

Você Também pode curtir

8 comentários

planocritico 24 de julho de 2018 - 14:36

@matheusostemberg:disqus , eu sou velho burro de guerra em quadrinhos e colecionador. Essas quatro edições eu comprei no sebo online New Kadia.

Abs,
Ritter.

Responder
Matheus Ostemberg 20 de julho de 2018 - 11:23

Muito boa análise Ritter! Eu gostaria de saber onde vc achou essas hq’s para ler, gostaria de fazer uma leitura também. Trabalho com estudos sobre quadrinhos na História e me interessei bastante por essas edições.

Responder
Dan Oliver 9 de julho de 2018 - 14:29

Muito interessante saber que Fu Manchu não foi o primeiro do gênero, ainda que tenha se tornado o mais famoso. Ainda na sessão velharia, gostaria de ler uma crítica sobre Yellow Kid e Little Nemo!!!!!

Responder
planocritico 9 de julho de 2018 - 14:38

Nos quadrinhos não foi, mas Fu Manchu foi, nos livros de Sax Rohmer, o modelo em que todos os demais foram baseados.

Sobre Yellow Kid e Little Nemo, esse tipo de velharia extremamente velha é com o @luizsantiago:disqus , que tem um baú de relíquias interminável! Mas boas sugestões!

Abs,
Ritter.

Responder
Luiz Santiago 8 de julho de 2018 - 20:17

A Potente Febre das Velharias é tipo A Ficha… um dia ela cai bem no seu telhadinho de vidro… AHUAHUAHUAHUHAUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHAUHUA

Responder
planocritico 8 de julho de 2018 - 20:22

Já vou correr para me vacinar!!!

HAHAHAHAHAAHHAHHAAHAHHA

Abs,
Ritter.

Responder
Luiz Santiago 8 de julho de 2018 - 20:42

Já era, fiu. É um caminho sem volta…

Responder
planocritico 8 de julho de 2018 - 20:50

Você está é com medo de perder sua hegemonia na categoria de Velharias do Baú do Vovô! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Abs,
Old Man Ritter

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais