Crítica | Jó: ou A Tortura pelos Amigos, de Fabrice Hadjadj

O homem estabelece para si mesmo uma espécie de egoísta seriedade, mas tem de se elevar para um alegre esquecimento de si mesmo. G.K. Chesterton

Fabrice Hadjadj foi ateu e anarquista durante a adolescência, leu bastante Marx e Althusser e até aderiu ao pensamento niilista, mas não o confundamos com o nosso poste tupiniquim por isso ou pelo sobrenome. Convertido ao catolicismo – outra semelhança? Duvido… – busca em suas obras, mais ensaísticas e provocativas do que propriamente dramatúrgicas, expor uma visão de cristianismo mais velha do que andar para frente que, curiosamente, vem se tornando algo raro nos mercados da fé e da inteligência. Em Jó: ou a tortura pelos amigos, aponta tal caminho com peculiar humor, admirável roteiro e inspirado (e incrivelmente leve) senso de responsabilidade.

O Jó do antigo testamento é a figura clássica do homem que não entende – e nem concorda com – o sofrimento que atinge sua vida. O justo que sofre, o que coloca, logo de início, pelo menos duas questões: de onde o justo tirou a convicção de ser justo e honesto? E por que existe sofrimento em um mundo criado por um Deus bom? Problemões que fizeram os melhores filósofos, teólogos e poetas nos legarem uma penca de exuberantes textos.

Dramaturgos e cineastas contemporâneos vira e mexe esquecem do desejo de mudar o mundo com suas pautas chatinhas e acabam tratando dos mesmos assuntos. Malick, no não tão sutil Cavaleiro de Copas, narra que Deus não envia o sofrimento por não amar o homem, e sim porque o ama. É o sofrimento que vincula a criatura a algo maior, além de si mesmo.

Existem maneiras e maneiras de expressar impressões semelhantes – e é a forma, na obra de arte, o elemento essencial. As andanças e o ar powerpointesco de Malick, por vezes, saturam tanto o receptor que anunciam a mensagem virando a esquina lentamente, lá longe. Mas a conversa sobre o cineasta fica para outro dia. Em , a mensagem é lentamente desvelada com uma pitada de humor cáustico, típica de um observador sensível e intuitivo o suficiente para rimar sua própria obra com um texto bíblico sem aquela geralmente destruidora pretensão.

A reflexão da peça é muito leal a um cristianismo que traça como resposta ao desassossego do Jó original uma lépida orientação existencial. Mais importante: o faz dialogando com o ressentimento, aquela companheira que nunca nos decepciona. Pensar-se justo e merecedor de vacas gordas é um saboroso alimento para o ressentimento exercer sua poderosa capacidade de estimular a nossa imaginação.

No texto, quem busca alimentar o ressentimento deste Jó do século XXI são seus amigos, com a cega solicitude planejada pelo Demônio – aliás, a obra já valeria a compra se sobrassem apenas as gentis trocas entre Deus e o Diabo. Maciças gentilezas e compaixão gotejante são as armas para fazer este miserável e ignorante Jó cair nas delícias do rancor, capaz de fagocitar qualquer indivíduo e as contingências maléficas que o acompanham para dentro de sua totalitária seita coletivista. Uma vez envenenado com o “tanto sofro, tão pouco reclamo”, a individualidade se dilui: companheiro ressentido de seus colegas fiéis, esse ex-homem passa ora a bolar planos mirabolantes, religiosos ou políticos, ora a se afirmar do alto de um pedestal pseudo heroico, onde as palmas de seus pares nunca cessam. Dissolver-se não deixa de ser um modo (podre) de encontrar um sentido pra uma existência vista como miserável

Mas Jó é Jó por um motivo. Seu sufoco pode suscitar a teodiceia filosófica (cirurgicamente explicada no prefácio por Luiz Felipe Pondé) e a questão do monopólio da virtude (que suscita outra bela discussão sobre a relação existente entre o caráter político e a espiritualidade de qualquer um), mas Jó é o homem humilde e afiado por excelência. Bater em Deus ou cobrá-lo cansa demais o gênio de alguém sensível aos chamados luminosos em meio à noite escura da alma. Seria uma solução simplória, fácil e, com efeito, demasiadamente frágil para que Jó depositasse sua confiança.

Ainda assim, soluções sorrateiras vindas de lugares amorosos são sempre mais perigosas. Quem suportaria ouvir de seus amigos de que é preciso ser mais positivo, pensar e questionar menos (leia-se: beber e se divertir mais) e seria capaz de resistir sem se coçar? Quem negaria o remédio de uma esposa, o rugir parceiro de outro companheiro, o dote de uma jovem ou o teste narcísico final que o demônio nos prepara? Quem observaria em cada vírgula cotidiana uma tal mesquinhez tremenda e não renunciaria ao chamado constante, já baixinho e tímido, de uma alegria já longínqua?

À beira do precipício, Jó cai na vida sem desesperar da laetitia. Mas uma beatitude alcançada após os mais intensos desesperos não traz consigo uma intensidade qualquer, e sim um senso de responsabilidade formado ao longo de cada desafio derrotado – uma responsabilidade que não conversa com homem algum no primeiro e derradeiro momento. É tal senso que coloca a solução da obra em diálogo estreito com o Jó bíblico. No monumental The Great Code, Northrop Frye lembra que caos e escuridão podem ser pensadas de duas maneiras. Elas podem ser as inimigas de Deus, externas à criação divina; ou podem ser dialeticamente incorporadas na criação, sendo criaturas de Deus. Esta segunda visão é a tomada pelo Livro de Jó.

Hadjadj consegue, com a prosa exuberante de seu A Fé dos Demônios, reunir dois gênios humanos em uma breve síntese do caminho escolhido pelo seu Jó: para eclipsar o sol de Satã, não há senão a Noite Escura.

Jó: ou a Tortura pelos Amigos – França, 2011
Autor:
 Fabrice Hadjadj
Publicação: Éditions Salvator, 2011
Publicação no Brasil: É Realizações
Tradução: Clara Carvalho
80 páginas

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.