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Crítica | Joe Kidd

por Ritter Fan
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Dizem que John Sturges estava tão alcoolizado durante as filmagens principais de Joe Kidd, longa que marcou o retorno de Clint Eastwood ao faroeste no ano seguinte ao seu sucesso como Dirty Harry, em Perseguidor Implacável e também de sua estreia na direção, em Perversa Paixão, que todo o trabalho caiu no colo de seu assistente de direção, James Fargo (que viria a efetivamente dirigir o ator em Sem Medo da Morte e Doido para Brigar… Louco para Amar), apesar de ele ter jamais recebido o crédito merecido. Se isso é ou não verdade, o fato é que a possível confusão mental de Sturges ou a inexperiência de Fargo não trouxe problemas ao longa que, em termos técnicos, segura-se até muito bem.

Usando muito bem as filmagens em locação não muito longe do belíssimo Parque Nacional de Yosemite, a direção de fotografia de Bruce Surtees, em seu quarto filme com Eastwood, capturou as imagens com lentes Panavision que emprestam um caráter épico que, curiosamente, a história não tem, mas que prende a atenção do espectador. Eastwood, que não estava muito bem de saúde na época, sofrendo de bronquite, reverte ao seu pistoleiro clássico, caladão, violento, mas com bom coração, em um roteiro escrito pelo romancista americano Elmore Leonard que não tem pressa alguma em fazer a narrativa andar, dando tempo para que o trabalho de Surtees seja observado e digerido.

No entanto, é tempo demais. A história carrega um sobretom nobre que lembra de longe a estrutura básica do mais famoso longa de Sturges, Sete Homens e um Destino, por sua vez uma adaptação de Os Sete Samurais. No clássico de 12 anos antes, um grupo de pistoleiros luta por uma aldeia mexicana contra bandidos que periodicamente atacam o local levando como pagamento apenas alojamento e comida. Em Joe Kidd, o personagem titular de Eastwood é um ex-caçador de recompensas que é contratado pelo impiedoso dono de terras Frank Harlan (Robert Duvall, no mesmo ano em que participaria com destaque do elenco de O Poderoso Chefão) para ajudá-lo a caçar o mexicano Luis Chama (John Saxon, ator ítalo-americano que cansou de ser escalado como mexicano) que disputa a validade das propriedades que ele considera que foram furtadas de seu povo. Mas Kidd, não demora, revela hesitação, traindo Harlan por uma boa causa.

É uma história simples, quase sem acontecimentos relevantes ou sem necessidade de contemplação que o roteiro de Leonard estica muito além do necessário, começando com um prólogo imenso que leva mais de um terço da fita para começar a andar para frente. Há também pouco desenvolvimento dos personagens, com a mudança de opinião de Kidd sendo muito claramente estabelecida já nos primeiros minutos e não realmente contando como uma evolução, mas sim como traço básico do personagem. Com isso, apesar de bem curto, o filme passa a impressão de morosidade, recaindo nos ombros de Eastwood a responsabilidade de fazer a obra funcionar, o que ele efetivamente consegue no limite do possível diante dos não-acontecimentos.

Além disso, há uma evidente fragmentação da história, como se Leonard estivesse contando uma série de vinhetas costuradas de qualquer maneira sob uma premissa que poderia ser interessante. Há Kidd na prisão, depois no hotel onde Harlan está hospedado, com direito a um brevíssimo romance de Kidd com a amante do dono de terras que, em seguida, é completamente esquecido, depois Kidd em sua fazenda notando que Chama passara por lá e assim por diante. Não há solavancos narrativos, por assim dizer, pois a inação reina, mas é perfeitamente perceptível a incômoda sucessão de pequenos eventos encapsulados como historietas que não ajuda muito na impressão de um conjunto minimamente dinâmico.

E que ninguém venha apontar dedos afirmando coisas insanas como “o crítico não gosta de filmes lentos” e blá, blá, blá, pois não é obviamente o caso. O ponto é que não há justificativa para a forma como a história se arrasta e, por isso, ela transforma os 88 minutos em algo bem mais longo. Não fosse a atuação carismática de Eastwood, a bela fotografia repleta de planos gerais de Surtees e os enquadramentos e composição de cena de Sturges (ou de Fargo) para suavizar o impacto – ou a falta dele – Joe Kidd seria uma pequena tortura. Do jeito que ficou, o longa fica ali quase nada acima da linha da mediocridade.

Joe Kidd (Idem – EUA, 1972)
Direção: John Sturges
Roteiro: Elmore Leonard
Elenco: Clint Eastwood, Robert Duvall, John Saxon, Don Stroud, Stella Garcia, James Wainwright, Paul Koslo, Gregory Walcott, Dick Van Patten, Lynne Marta, John Carter, Pepe Hern, Joaquín Martínez, Ron Soble, Pepe Callahan, Clint Ritchie
Duração: 88 min.

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