Crítica | Jogada Decisiva

Se para Marx, a religião era o ópio do povo, em Jogada Decisiva, lançado em 1998, o cineasta Spike Lee dialoga com diversos tópicos presentes em suas produções anteriores e apresenta o esporte como o “pão e circo”, isto é, o ópio das massas. Na trama, o esporte aparece como atalho para jovens negros que desejam sair de suas respectivas condições de pobreza, tendo como foco se projetar na sociedade capitalista, ávida por luxo, conforto e consumo. E isso não se encaixa apenas como crítica ao sonho americano, utopia que um comediante, certa vez, alegou “ser preciso estar dormindo para acreditar nele”.

Muitos jovens em situação de marginalidade buscam nos esportes uma maneira de alimentar os seus sonhos, habitualmente relegados numa sociedade que ainda trabalha na ótica dos privilégios seletivos. Cotidianamente, jovens como o protagonista de Jogada Decisiva observam o esfacelamento de seus ideais, pois além da luta contra a opressão social estrutural, precisam compreender o falacioso discurso meritocrático diariamente pregado pela mídia. Neste processo, muitas vezes, trilham caminhos individuais que não refletem outras realidades.

Com o habitual tom jocoso, o diretor nos apresenta ao seguinte enredo: Jake (Denzel Washington) é o pai em busca de perdão de Jesus (Ray Allen), seu filho, revoltado e sem interesse em qualquer contato, haja vista o histórico de ambos. Jake, num ato de fúria domiciliar, tentou repreender o filho durante um momento de jantar. Como a mãe se envolveu no conflito em busca de apaziguamento, acabou tendo a sua vida ceifada por um rompante do patriarca que a empurrou com força e a faz bater contra um móvel da cozinha.

Preso e condenado por conta do crime cadastrado como feminicídio, Jake sai da prisão com diversas restrições, dentre elas, o contato com o seu filho já crescido, jovem que não quer sequer ver a sombra do pai que para ele, representa um feixe negativo de memórias da sua vida ainda incipiente. O momento é repleto de tentações. Epicentro de um conjunto de disputas capitalistas em torno de seu dom esportivo para o basquete, Jesus é tão “mitológico” quanto o representante maior do cristianismo, salvas as devidas comparações irônicas de Spike Lee.

Por seu dom, ele desfruta de alguns prazeres, tais como festas, sexo com as mulheres que bem quer, convites para ingressar universidades prestigiadas, dentre outros privilégios. No entanto, há algum preço a ser pago por tantas regalias? Se há, será que já foi expressado para o personagem ainda imaturo? Como um pai que não se sente exemplar, pode exigir algo do filho ou tentar ensiná-lo? São diversas questões que surgem ao passo que a história se desenvolve, algumas devidamente respondidas, outras poucas, perdidas diante de algumas subtramas que talvez não fizessem diferença se tivessem sido extraídas.

Ao longo de seus 136 minutos, Jogada Decisiva se apresenta como um meticuloso exercício de crítica social, bem como eficiente manipulação de elementos estéticos. As imagens captadas por Malik Hassan Sayeed e Ellen Kuras, responsáveis pela direção de fotografia, vão do básico ao exuberante. A condução musical, coordenada por Public Enemy, traz ao filme a mixagem de elementos do hardcore hip hop e conscious hip hop, modalidades auditivas consonantes, mas com perspectiva literária diferenciada. Em mais uma parceria, Wynn Thomas assume o design de produção de Spike Lee, parceria geralmente eficiente, tal como os figurinos de Sandra Hernandez.

A crítica de Spike Lee, por sinal, não deve ser apenas direcionada ao modo de viver estadunidense, mas também reflete outras culturas submissas ao seu projeto de ideologia global. Os brasileiros, por sinal, não ficam de fora, principalmente se olharmos para a produção com foco no contemporâneo. Para cada ídolo bem-sucedido, tal como Neymar, Michael Jordan e Tiger Woods, quantos milhões de jovens negros fracassam e caem no mundo da criminalidade? A meritocracia, constantemente, institui-se como um discurso perigoso sobre como a falta de mérito de determinados indivíduos pode se estabelecer como resposta para as mazelas cotidianas de jovens bem distantes da linha de chegada de tais privilégios, não por causa de suas habilidades e competências, mas na verdade, por falta de oportunidades concretas.

Jogada Decisiva (He Hot Game/Estados Unidos, 1998)
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee
Elenco: Denzel Washington, Hill Harper, Jim Brown, Joseph Lyle Taylor, Milla Jovovich, Ned Beatty, Ray Allen, Rosario Dawson, Zelda Harrisy
Duração: 136 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.