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Crítica | Jogo Fatal (Mamba, 1988)

por Leonardo Campos
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As serpentes são animais revestidos por uma extensa carga simbólica em diversos campos da sabedoria humana. Na religião, na mitologia, na literatura, enfim, em toda a nossa história cultural, estes seres rastejantes ocuparam espaço de destaque, seja para representar sabedoria e conhecimento, seja no papel de antagonistas da humanidade a favor das forças das trevas. Para os egípcios era a representação de uma divindade, algo semelhante na cultura africana que a alçou ao ícone de símbolo da imortalidade, seres que nunca morrem, mas rejuvenescem em suas trajetórias circulares. Para os estudos bíblicos, elas estão conectadas ao inimigo. E para o cinema, pode ser um personagem ideal para a realização de histórias macabras e mortais. Este, por sinal, é o mote de Jogo Fatal , lançado em 1988, num formato narrativo semelhante ao padrão dos telefilmes. Na trama, uma das espécies mais mortais é o próprio arauto da morte.

Guiado pelo roteiro escrito em parceria com Linda Raviera, o cineasta Mario Orfini concebe Jogo Fatal como mais um típico suspense que segue a linha Supercine, narrativas exibidas semanalmente aos sábados na televisão aberta durante tantos anos da era predecessora ao streaming e DVD. No desenvolvimento do enredo, acompanhamos a história de Eva (Trudie Styler), uma mulher que vai se deparar com uma situação aterrorizante, promovida por seu ex-marido, Gene (Greggy Henry). O fim da relação não despertou sentimentos nobres no jovem homem que decide vingar-se de Eva ao deixar uma mamba negra, comprada no mercado informal, solta no apartamento selado em todas as suas saídas depois da última visita realizada, espaço erguido pela equipe do design de produção de Ferdinando Scarfiotti, responsável por um ambiente internamente amplo, mas transformado em terreno de claustrofobia quando a personagem se dá conta do presente de grego deixado por seu ex, um psicopata machista e opressor.

Conhecida por sua velocidade fora do comum, a mamba negra é uma das serpentes mais mortais do continente africano. Seu veneno tóxico para o sistema nervoso causa paralisia e pode levar a vítima de sua picada à morte em questão de minutos. Capaz de subir em arvores e ter destreza também no solo, as suas acrobacias estão longe de ser apenas ficcionais quando aparece no filme. Diante da proposta da narrativa, a serpente pode sim atender ao que jogo mortal que acompanhamos ao longo dos 90 minutos de duração. É um jogo que Eva, nome nada aleatório do roteiro, não pediu para jogar. Após comprar a serpente das mãos de Frank (Bill Moseley), seu traficante morto alguns minutos depois, tendo em vista os planos de Gene em não deixar testemunha alguma para depor diante dos resultados de uma possível investigação em torno do crime que está prestes a cometer.

Para potencializar a situação, ele injeta hormônios numa serpente que já é conhecida por captar bem os medos de suas presas. O espetáculo do horror, então, está garantido. No entanto, só se estabelece depois de mais da metade do filme, pois em seus primeiros 45 minutos, nada de fato acontece. Há apenas diálogos mornos, uma câmera que passeia pelos espaços para nos mostrar por onde o resto da história vai se desenvolver e alguns diálogos expositivos demais que explicitam o asco de Eva por Gene. Semelhante ao que acontece com praticamente todos os filmes do subgênero horror ecológico, Jogo Fatal traz, na direção de fotografia de Giorgio Moroder, os habituais planos em câmera subjetiva, haja vista o interesse em emular a suposta visão da serpente transformada numa assassina por conta dos hormônios.

O uso de steadicam também se faz constante, numa captação de imagens com movimentos que nos remetem ao animal que aparece muito menos do que deveria. É como abordado na crítica de Anaconda 2 – Caçada Pela Orquídea Sangrenta: em filmes assim, queremos ver mais do monstro em ação. Não há, por isso, precisamos nos contentar com algumas cenas passageiras, mas ao menos eficientes, da serpente que também se faz onipresente pelo design de som de Edmondo Gintili, em paralelo ao trabalho de Dante Spinotti na trilha sonora, setores que cumpre as suas funções dentro da própria limitação estrutural do filme.

Ademais, Jogo Fatal não se encaixa nos parâmetros básicos do horror ecológico, narrativas mais voltadas aos ataques de animais selvagens, mas é a utilização de um ser amplamente divulgado em nosso imaginário como uma das criaturas mais mortais existentes. Temidas ou exaltadas, a depender da cultura, as serpentes representam muitas questões simbólicas duais ao longo de nossa extensa tradição narrativa, mantendo-se presente em situações que alegorizam conhecimento, longevidade, traição, etc. Na história do cinema recente, não é incomum encontrar animais em posição de algozes de seres humanos acossados por ações programadas por outros humanos, como aconteceu com o suspense Nas Garras do Tigre, suspense sobre dois irmãos acuados dentro de uma casa toda selada, a fugir de um enorme e assustador felino.

Jogo Fatal (Mamba) — Estados Unidos, 1988
Direção: Mario Orfini
Roteiro: Mario Orfini
Elenco: Trudie Styler, Greggy Henry, Bill Moseley
Duração: 90 min.

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