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Crítica | Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes

por Kevin Rick
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Se alguém me pedisse para descrever Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, eu provavelmente diria ao questionador para imaginar todos os figurantes criminosos dos filmes de gângsteres, os capangas retardatários, as buchas de canhão das obras mafiosas, como protagonistas do filme dirigido por Guy Ritchie. É dentro dessa premissa cômica que o cineasta entrega um dos maiores clássicos do subgênero de comédia criminosa, e, sendo honesto, transformou – poderia até ir mais longe dizendo que criou – seu próprio gênero da indústria cinematográfica dentro dessa categoria híbrida de ação violenta humorística, entregando uma película que pega a brutalidade de filmes criminosos, com um quê de delinquência juvenil estúpida, e mistura com o irreverente humor negro britânico que adora satirizar o absurdo no cotidiano, não havendo limites temáticos para a piada. E ainda que essa combinação seja extremamente interessante na linguagem fílmica, Guy Ritchie vai além, adicionando sua própria genialidade e originalidade ao já intrigante conjunto de elementos.

A narrativa que chega mais próxima de ser o núcleo principal da obra acompanha um trio de amigos, composto por Eddy (Nick Moran), Tom (Jason Flemyng) e Bacon (Jason Statham), que ganham sua vida fazendo trapaças. Eles, junto de um quarto parceiro, o único “honesto” do grupo, Soap (Dexter Fletcher), reúnem 100 mil libras para que Eddy, um vigarista especialista em jogos de cartas, participe de um torneio clandestino de altas apostas residido por um chefão do crime local, “Hatchet” Harry (P.H. Moriarty).  As coisas fogem do plano da equipe descerebrada e Eddy acaba sustentando uma dívida cinco vezes maior que a quantia levada, entregando o primeiro conflito do enredo, a busca dos jovens britânicos por uma forma de sanarem sua dívida. É uma premissa simplória, vista múltiplas vezes em fitas do subgênero, e considerando a forma como a jornada dos quatro amigos é construída, pode-se fazer o argumento de que caso o filme fosse completamente baseado no trajeto cômico dos jovens em busca de dinheiro, ainda teríamos uma divertida experiência. No entanto, Guy Ritchie deu status de clássico à sua estreia diretorial por fazer uma pequena mudança no roteiro que inicialmente aparenta ser objetivo: adicionar algo em torno de oito diferentes grupos/núcleos que encontram-se esporadicamente no longa, com vários deles convergindo no clímax.

O artifício de utilizar múltiplas narrativas que dirigem-se a um ponto comum não é novidade para qualquer cinéfilo por aí, mas a forma que Ritchie faz a elaboração dos divergentes núcleos é o que torna Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes um marco da Sétima Arte. Primeiro que todas as tramoias da história funcionam como esquetes cômicas, com personagens ridiculamente estúpidos e hilários interpretados de forma unidimensional, que em um filme “normal” seria uma crítica negativa, mas, aqui, a falta de talento artístico do elenco (ou seria genialidade?) elevam o teor humorístico no aspecto “sujo” e rude da obra. Essa exterioridade bruta de comicidade é o ponto alto da comédia dentro da narrativa, já que os personagens clichês se levam a sério em todas as situações patéticas e hediondas que encontram-se, proporcionando gargalhadas não intencionais das performances, mas da própria situação e como ela se desenrola, o que é completamente incrível considerando como o diretor faz comédia situacional, ou melhor dizendo, de cenário, já que todo o filme é uma série de cenas contidas divertidas, mas sem punch-line. É aí que entra a sagacidade do humor britânico, composto por circunstâncias desajeitadas, sarcásticas e autodepreciativas, mas sem o ímpeto de fazer rir, ainda o fazendo. É quase como as conjunturas cômicas tem o objetivo de proporcionar o riso, mas sem demonstrar esse intuito. Eu diria que é sutil – e de certa forma o humor é, em seu desenvolvimento, não na entrega -, mas a violência e a trilha sonora brusca com volume no máximo misturam-se à comicidade proporcionando uma experiência explosivamente hilária.

É preciso falar dessa violência e como o cineasta a propõe dentro de sua obra. A mistura da hostilidade com humor causa muita comparação, especialmente na época do lançamento do filme, entre Guy Ritchie e Tarantino ou/e irmãos Coen. Eu consigo entender a visão semelhante, mas discordo veemente desse argumento igualitário do trio (com os irmãos coen servindo como uma entidade) no estilo cinemático. Não vou entrar na discussão Tarantino/Coen, mas a utilização dos mesmos gêneros e o manejo de múltiplos núcleos são as únicas similaridades deles com Ritchie, pois o diretor britânico não emprega violência gráfica, mantendo-a fora de tela, bem afastada da curva dos artistas que é comparado, usando-a como composição de sua forma de filmagem estilizada, com manuseio de câmera ora energético, ora em slow-motion, mas sempre em evidência, até mesmo distraindo o espectador da própria ação para notar o trabalho visual, mantendo as crueldades em segundo plano, sustentando mais agressividade no diálogo rápido e “feio” da classe baixa, nas decisões ambíguas dos criminosos e na própria composição do ambiente underground como personagem, do que necessariamente focar no visceral. A violência dita as regras, mas sua exposição visual mais permeia a narrativa do que é exibida, o que é irônico pensando na forma que o filme é lembrado como uma violenta sátira do gênero criminoso, sendo um testamento da habilidade do diretor de compor uma obra moderna e estilizada com um budget efêmero que transpõe essa aparência sendo que raramente a exibe.

Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes é um clássico por muitos motivos, como o trabalho espetacular de Guy Ritchie, principalmente ponderando que esta é sua estreia em um longa-metragem, mas os personagens esdrúxulos, ambíguos, moralmente dúbios, são o que vem à memória ao relembrar o filme. Jason Statham e Vinnie Jones iriam aproveitar carreiras longínquas após isto, mas todo o elenco merece louvor, ainda que lhes faltem o alcance artístico que se espera de grandes atores, eles aproveitam cada frase do roteiro afiado e elevam a obra para seu status atual de clássico.  O debute de Guy Ritchie não poderia ser melhor, e até hoje é lembrado por muitos como o melhor trabalho do cineasta – no meu ranking pessoal é o segundo, pois sou um fanático por O Agente da U.N.C.L.E. Ótimas obras deste subgênero vieram antes, e muitas vieram depois, algumas do próprio Ritchie, mas raramente algo que equipara-se à fenomenal experiência sensorial e violentamente cômica exibida aqui. Citando Big Chris, foi emocionante; extremamente emocionante e divertido, diria eu.

Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (Lock, Stock and Two Smoking Barrels) — Reino Unido, 1998
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie
Elenco: Jason Statham, Jason Flemyng, Dexter Fletcher, Nick Moran, Steven Mackinstosh, Nicholas Rowe, Nick Marcq, Charles Forbes, Vinnie Jones, Lenny McLean, Peter McNicholl, P.H. Moriarty, Frank Harper, Steve Sweeney, Huggy Leaver, Ronnie Fox, Tony McMahon, Stephen Marcus, Vas Blackwood, Sting, Jake Abraham, Rob Brydon, Alan Ford, Verda Day
Duração: 107 min.

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